
John Flanagan

Rangers, Ordem dos arqueiros 03

Terra do gelo

      Aclamada pela crtica do mundo todo. Da lista dos
livros mais vendidos do New York Times. Publicada em
mais de 14 pases.
        Rangers -- Ordem dos Arqueiros, a srie: uma lei-
tura imperdvel e emocionante do comeo ao fim.
        Foras da natureza podem ser um poderoso opo-
nente para um jovem aprendiz de arqueiro e uma princesa
em terras de piratas e mercenrios. Por isso, depois de um
longo e sombrio inverno, Will e Evanlyn esto diferentes.
Eles entenderam que, em toda guerra, h um tempo para
lutar e um tempo para aceitar o inevitvel. A Terra do Ge-
lo nunca tinha visto jovens prisioneiros com tanta honra,
coragem e companheirismo, mesmo passando por muitas
tristezas e humilhaes. Nesse pedao de mundo gelado e
hostil, a batalha pela vida  travada com armas feitas de
outros materiais: uma forjada no pulsante calor da alma;
outra malhada na mais cruel escurido. Na corrida pela
salvao, Evanlyn mostra seu valor, mas isso pode no ser
o suficiente para libertar ela e Will. Por sua vez, Halt e
Horace precisam enfrentar falsos cavaleiros e muitos es-
pertalhes na tentativa de resgatar seus amigos. Ser que
chegaro a tempo?
        Duas batalhas pela vida, simultneas e arriscadas,
com uma finalidade s: salvar Will.
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Flanagan, John
Rangers -- Ordem dos Arqueiros: T/John Flanagan; [ver-
so brasileira: Editora Fundamento] -- So Paulo, SP:
Editora Fundamento Educacional, 2009.
Ttulo original: Ranger's apprentice: The Icebound Land

1. Literatura infanto-juvenil I. Ttulo.
07-7502                                      CDD-028.5

ndices para catlogo sistemtico:

1. Literatura infanto-juvenil 028.5 2. Literatura juvenil
028.5
ARALUEN E SEUS VIZINHOS
ANO DE 643 DA ERA CRIST
O navio estava a apenas algumas horas do Cabo Shelter,
quando uma forte tempestade o atingiu.
       Durante trs dias, tinham navegado para o norte, na
direo da Escandinvia, por um mar calmo como um
lago, fato que muito agradou a Will e Evanlyn.
       -- At que no est to ruim -- Will disse enquan-
to o navio estreito cortava as guas com tranquilidade.
       Ele tinha ouvido histrias sombrias sobre pessoas
que passavam muito mal a bordo de embarcaes no mar.
Mas para ele o suave balano do navio no era motivo de
preocupao.
       Evanlyn concordou um pouco hesitante. Ela no
era uma navegante experiente, mas j tinha estado no mar
antes.
       -- Se no ficar pior que isso -- ela retrucou. Ela ti-
nha notado os olhares de preocupao que Erak, o capito
do navio, lanava para o norte e o modo como ele estava
estimulando os remadores do Wolfwind a aumentar a ve-
locidade. Quanto a Erak, ele sabia que aquele tempo en-
ganosamente calmo anunciava uma mudana para pior --
muito pior. Vagamente, no horizonte ao norte, ele via a
linha escura da tempestade se formando. Ele sabia que, se
no conseguissem dar a volta no Cabo Shelter e entrar no
abrigo da massa de terra em tempo, seriam atingidos por
toda a fora da tempestade. Durante vrios minutos, ele
avaliou velocidades e distncias, analisando seu avano em
comparao ao das nuvens que se aproximavam apressa-
das.
       -- No vamos conseguir -- ele disse finalmente
para Svengal. Seu segundo homem no comando concor-
dou.
       -- Acho que no -- Svengal respondeu filosofica-
mente.
       Erak examinou o navio com ateno, certificando-
se de que no havia equipamentos soltos que precisavam
ser amarrados. Seu olhar caiu sobre os dois prisioneiros
encolhidos na proa.
       --  melhor amarrar esses dois no mastro. E tam-
bm vamos prender o remo de direo com cordas.
       Will e Evanlyn observaram Svengal se aproximar
deles com um rolo de corda fina na mo.
       -- E agora? -- Will perguntou. -- Eles no podem
estar pensando que vamos tentar escapar.
       Mas Svengal tinha parado no mastro e estava fa-
zendo sinais agitados para eles. Os dois araluenses se le-
vantaram e andaram com passos incertos at ele. Will per-
cebeu que o navio estava balanando mais e que o vento
soprava mais forte. Ele andou com dificuldade para che-
gar perto de Svengal. Atrs dele, ouviu Evanlyn murmurar
um palavro, nada adequado a uma nobre, quando ela
tropeou e arranhou a pele num poste de amarrao.
       Svengal apanhou sua faca de caa e cortou dois pe-
daos de corda do rolo.
       -- Se amarrem ao mastro -- ordenou. -- Vamos
enfrentar uma tempestade violenta a qualquer minuto.
       -- Voc quer dizer que podemos ser atirados ao
mar? -- Evanlyn perguntou sem acreditar.
       Svengal percebeu que Will estava se amarrando ao
mastro com um n de lao perfeito. A garota estava tendo
problemas, de modo que Svengal pegou a corda, passou-a
ao redor da cintura dela e a prendeu tambm.
       -- Talvez -- o marinheiro respondeu. --  mais
provvel que vocs sejam jogados ao mar pelas ondas.
       Ele viu o rosto do garoto empalidecer de medo.
       -- Voc est dizendo que as ondas podem mes-
mo... cair no convs? -- Will perguntou.
       Svengal lhe deu um sorriso duro e sem humor.
       -- Ah, podem sim...
       Ele correu de volta para ajudar Erak na popa, onde
o capito j estava amarrando o imenso leme.
       Will engoliu em seco vrias vezes. Ele tinha imagi-
nado que um navio daquele tamanho deslizaria sobre as
ondas como uma gaivota e agora lhe diziam que era pro-
vvel que as ondas cassem estrondosamente sobre o con-
vs. Ele se perguntou como o barco continuaria flutuando
se isso acontecesse.
       -- Oh, Deus... o que  aquilo? -- Evanlyn pergun-
tou baixinho, apontando para o norte.
       A linha fina e escura que Erak tinha visto era agora
uma massa negra e turva a apenas 300 metros de distncia,
aproximando-se a uma velocidade maior que a de um ca-
valo a galope. Os dois se aproximaram mais da base do
mastro e tentaram envolver todo o poste spero de pinho
com os braos, procurando se prender at com as unhas.
       E ento o sol desapareceu quando a tempestade ca-
iu sobre eles.
       S a fora do vento j foi suficiente para deixar Will
sem flego. Literalmente. Aquele no era um vento como
outros que Will conhecera. Aquele vento parecia uma for-
a selvagem, viva e primitiva, que corria em volta dele,
deixando-o surdo e cego, e que arrancava o ar de seus
pulmes e o impedia de ench-los novamente: ele o sufo-
cava e ao mesmo tempo tentava fazer que soltasse as
mos do poste. Com os olhos bem fechados, Will tentava
respirar e se segurava desesperadamente ao mastro. Va-
gamente, ouviu os gritos de Evanlyn e sentiu quando ela
comeou a escorregar para longe dele. Ele tentou agarr-la
sem olhar, encontrou sua mo e a puxou de volta.
       A primeira onda enorme caiu sobre o convs, e a
proa do navio se inclinou num ngulo assustador. Eles
comearam a ser levados para cima junto com a onda e
ento o navio oscilou e comeou a deslizar.
       -- Para trs e para baixo! -- Svengal e Erak grita-
ram para os remadores. Suas vozes foram levadas para
longe pelo vento, mas a tripulao, de costas para a tem-
pestade, viu e entendeu a linguagem de corpo dos dois
homens. Eles se inclinaram sobre os remos, dobraram as
hastes de carvalho com seus esforos e lentamente a em-
barcao parou de deslizar para trs. O navio comeou a
se agarrar  onda, subindo cada vez mais lentamente at
Will ter certeza de que eles teriam que comear uma terr-
vel descida em sentido contrrio.
       Ento a crista da onda quebrou e desabou com um
rudo de trovo em cima deles.
       Toneladas de gua caram com estrondo no navio,
impelindo-o para baixo, empurrando-o para a direita at
se ter a impresso de que ele nunca iria voltar  posio
original. Will soltou um grito selvagem de terror, mas foi
interrompido pela gua gelada e salgada que o atingiu e o
obrigou a soltar o mastro, encheu sua boca e seus pul-
mes e o arrastou pelo convs at que a corda frgil o fez
parar. Coberto e cercado pela gua, Will foi virado de um
lado para outro. Quando o navio se endireitou, ele ficou
se debatendo como um peixe fora da gua. Evanlyn estava
ao lado dele e, juntos, arrastaram-se com dificuldade de
volta ao mastro, segurando-se nele com novo desespero.
       Nesse momento, a proa se lanou para a frente, e
eles foram arrastados aos trambolhes em meio  gua,
deixando seus estmagos para trs e gritando aterroriza-
dos mais uma vez.
       A proa cortou a onda imensa, dividindo o mar e jo-
gando-o bem para o alto. Mais uma vez, a gua caiu sobre
o convs, como uma cascata, mas no quebrou com a for-
a da onda anterior, e os dois jovens conseguiram se segu-
rar ao mastro. A gua, na altura da cintura, passou por eles
com violncia, mas logo o navio esguio pareceu conseguir
se livrar do peso imenso.
        Nos bancos dos remadores, a tripulao substituta
j estava trabalhando a todo vapor, jogando gua por cima
da amurada com baldes. Erak e Svengal, na parte mais
exposta do navio, tambm estavam presos com cordas
nos lados do remo de direo, um instrumento resistente
da metade do tamanho dos remos normais. Ele era usado
como remo de direo, menos em situaes como essa.
        O leme longo dava ao timoneiro um ponto de a-
poio maior para que pudesse ajudar os remadores a dar a
volta no navio. Naquele dia, foi necessria a fora de dois
homens para dirigi-lo.
        Na calha que se formava entre as ondas, tinha-se a
impresso de que o vento perdia a fora. Will limpou o sal
dos olhos, tossiu e vomitou gua do mar no convs. Ele
viu o olhar aterrorizado de Evanlyn. Teve a leve sensao
de que devia tentar tranquiliza-la, mas no havia nada que
pudesse dizer ou fazer, pois no acreditava que o navio
poderia suportar outra onda como aquela.
        No entanto, j havia outra a caminho. Ainda maior
do que a primeira, ela avanava na direo do barco, per-
correndo vrias centenas de metros, empinando-se e con-
centrando-se bem acima deles, mais alta do que os muros
do castelo Redmont. Will enterrou o rosto no mastro e
sentiu Evanlyn fazendo o mesmo quando o navio come-
ou novamente uma terrvel e lenta subida.
       O navio subiu cada vez mais, acompanhando as pa-
redes da onda. Os homens se esforavam at sentir os co-
raes quase estourarem ao tentar levar o Wolfwind onda
acima, enfrentando a fora combinada do vento e do mar.
Desta vez, antes de a onda quebrar, Will teve a impresso
de que o navio ia perder a luta no ltimo momento. Ele
abriu os olhos aterrorizado quando a embarcao come-
ou a voltar para o desastre certo. Ento, a crista se enro-
lou por cima do barco e caiu com toda a fora em cima
deles e novamente o rapaz, girando e rolando foi jogado
pelo convs. Will foi contido pela corda que o prendia,
sentiu algo bater dolorosamente em sua boca e percebeu
que era o cotovelo de Evanlyn. A gua caiu estrondosa-
mente sobre ele, e a proa se virou para baixo outra vez. O
navio comeou outro mergulho escorregadio e louco para
o outro lado, rolando, jogando gua do mar para todos os
lados. Fraco demais para gritar, Will gemeu levemente e
rastejou de volta para o mastro. Ele olhou para Evanlyn e
balanou a cabea. "No h como sobreviver a isso", ele
pensou, vendo o mesmo temor no olhar da companheira.
       Na popa, Erak e Svengal se abraaram enquanto o
Wolfwind batia com fora na calha formada pelas ondas,
jogando jatos de gua nos dois lados da proa, fazendo to-
do o corpo do navio vibrar com o impacto. A embarcao
girou, sacudiu e se endireitou novamente.
       -- Ela est aguentando bem -- Svengal gritou.
        Erak concordou preocupado. Por mais assustador
que pudesse parecer para Will e Evanlyn, o navio tinha
sido, construdo para aguentar guas violentas como aque-
las. Mas mesmo um navio tem suas limitaes. E, se aqui-
lo continuasse por muito tempo, Erak sabia que todos
morreriam.
        -- A ltima quase nos derrubou -- respondeu.
        Um movimento de ltimo minuto feito pelos re-
madores tinha conseguido arrastar o navio por cima da
crista da onda quando ele estava prestes a deslizar para
trs, de volta para a calha.
        -- Vamos ter que virar o barco e correr antes da
tempestade. Svengal concordou olhando o horizonte com
os olhos apertados para se proteger do vento e do sal.
        -- Depois daquela.
        A onda seguinte era um pouco menor do que a que
quase tinha acabado com eles, mas "menor" no era uma
palavra muito tranquilizadora. Os dois escandinavos aper-
taram com mais fora o leme de direo.
        -- Remem, droga! Remem!
        Erak rugia para os remadores quando a montanha
de gua se ergueu acima deles, e o Wolfwind comeou
outra subida lenta e precria.
        -- Ah, no, por favor, permita que isso acabe logo!
-- Will gemeu quando sentiu a proa se inclinar para cima
outra vez.
        O terror era fisicamente exaustivo. Ele s queria
que aquilo acabasse. "Mesmo que o navio tenha que afun-
dar", pensou. Ele queria que tudo se acabasse. Que che-
gasse ao fim. Que aquele terror que paralisava a mente
terminasse. Ele ouvia Evanlyn ao lado dele soluando de
medo. Ele a abraou, mas no conseguiu fazer mais nada
para consol-la.
       Eles subiram cada vez mais. E ento ouviram o co-
nhecido rugido das ondas quebrando e o trovo de gua
despencando cm cima deles. Em seguida, a proa atraves-
sou a crista, bateu na parte posterior da onda e despencou
para baixo. Will tentou gritar, mas estava sem energias e
com a garganta dolorida, e conseguiu emitir apenas um
leve soluo.
       O Wolfwind cortou o mar na base da onda outra
vez. Erak gritava instrues aos remadores. Eles teriam
pouco tempo na sombra do vento da prxima onda que
se aproximava e, nesse tempo, teriam que virar o barco.
       Os remadores apoiaram os ps nas tbuas de ma-
deira. Os que estavam na popa, ou do lado direito, do na-
vio viraram os cabos dos remos para o seu lado. Os rema-
dores do lado esquerdo empurraram os seus para a frente.
Quando o navio se endireitou, Erak gritou suas ordens.
       -- Agora!
       As lminas dos remos mergulharam fundo no mar
e, enquanto um dos lados empurrava e o outro puxava,
Erak e Svengal jogaram o peso do corpo no leme. O navio
longo e estreito girou obediente, quase no mesmo lugar,
levando a proa para o lado do vento e do mar.
        -- Agora, empurrem juntos! -- Erak rugiu, e os
remadores obedeceram com vontade.
        Ele tinha que manter o navio se movimentando um
pouco mais depressa do que o mar ou este iria venc-los.
Ele olhou uma vez para os dois prisioneiros de Araluen,
agachados infelizes junto do mastro, mas se esqueceu de-
les quando voltou a analisar o avano do navio, mantendo
a proa virada para o mar. Qualquer erro seu e o barco des-
lizaria para o lado. Seria o fim. O capito sabia que esta-
vam navegando mais facilmente, mas no era o momento
para se distrair.
        Para Will e Evanlyn, o navio ainda estava mergu-
lhando e balanando de modo assustador, subindo at 15
metros de altura, mas agora o movimento estava mais
controlado. O barco estava acompanhando o mar, no
lutando contra ele. Will sentiu o movimento se acalmar.
Borrifos de gua ainda os atingiam a intervalos regulares,
mas o balano violento para trs pertencia ao passado. 
medida que o navio conseguia enfrentar cada montanha
sucessiva de gua que passava por baixo e ao redor dele,
Will comeou a acreditar que eles poderiam ter uma leve
chance de sobrevivncia.
        Mas era uma chance muito pequena. Ele ainda sen-
tia o mesmo pavor tomando conta de todo o seu corpo
sempre que uma onda caa sobre eles. A cada vez, tinha a
impresso de que aquela poderia ser a ltima. Ele envol-
veu Evanlyn com os dois braos, sentiu os braos dela
envolverem seu pescoo e o rosto gelado se colando ao
dele. E assim os dois jovens procuraram e encontraram
conforto e coragem UM no outro. Evanlyn choramingava
de medo. E com alguma surpresa Will percebeu que ele
tambm, pois murmura palavras sem sentido repetidas
vezes, chamando o nome de Halt, de Puxo, de qualquer
pessoa que pudesse ouvir e ajudar. Mas,  medida que as
ondas se seguiam, uma atrs da outra, e o Wolfwind so-
brevivia, o terror cego diminuiu e foi substitudo por uma
exausto nervosa e, por fim, ele adormeceu.
       Durante mais sete dias, o navio foi levado para o
sul, para longe do Mar Estreito e perto das margens do
Oceano Sem Fim. Will e Evanlyn passaram o tempo todo
encolhidos junto do mastro, encharcados, exaustos, con-
gelados. O medo paralisante do desastre estava sempre
presente em suas mentes, mas aos poucos eles comearam
a acreditar que poderiam sobreviver.
       No oitavo dia, o sol atravessou as nuvens. Ele esta-
va fraco e sem brilho,  verdade, mas era o sol. Os violen-
tos mergulhos no mar tinham parado e mais uma vez o
navio deslizou suavemente na superfcie da gua.
       Erak, com a barba e os cabelos cobertos de sal,
empurrou cansado o leme, obrigando o navio a fazer uma
curva suave e virar para o norte outra vez.
       -- Vamos para o Cabo Shelter -- ele disse para a
tripulao.
Halt estava      encostado imvel no grosso tronco de um
carvalho, enquanto os bandidos corriam para fora da flo-
resta e cercavam a carruagem.
        Ele no estava escondido, mas ningum o via. Em
parte, isso se devia ao fato de os ladres estarem total-
mente concentrados em suas presas, um mercador rico e
sua mulher. Eles, por sinal, tambm estavam igualmente
distrados, olhando horrorizados para os homens armados
que cercavam a carruagem na clareira.
        Mas, principalmente, isso se devia  capa que usava
e que o camuflava, ao capuz puxado sobre a cabea que
deixava o rosto na sombra e por estar totalmente imvel.
Como todos os arqueiros, Halt sabia o segredo de se con-
fundir com a paisagem e ficar sem se mover, mesmo
quando as pessoas pareciam estar olhando diretamente
para ele.
        Acredite que voc no  visto, dizia o ditado dos arquei-
ros, e isso vai acontecer.
        Uma figura corpulenta toda vestida de preto surgiu
de entre as rvores e se aproximou da carruagem. Os o-
lhos de Halt se estreitaram por um segundo e ento ele
suspirou em silncio. "Outra caada intil", pensou.
       A figura se parecia ligeiramente com Foldar, o ho-
mem que Halt vinha procurando desde o fim da guerra
com Morgarath. Foldar fora primeiro-tenente de Morgara-
th e tinha conseguido escapar quando seu lder morreu e
seu exrcito de subumanos Wargals se desfez.
       Mas Foldar no era uma besta irracional. Ele era
um ser humano capaz de pensar e planejar, totalmente
corrompido e perverso. Filho de um nobre de Araluen, ele
matou os prprios pais depois de uma discusso por causa
de um cavalo. Na poca, no era mais que um adolescente
e escapou se escondendo nas Montanhas da Chuva e da
Noite, onde Morgarath reconheceu um esprito semelhan-
te ao seu e o recrutou. Agora era o nico sobrevivente do
bando de Morgarath, e o rei Duncan havia tornado sua
captura e aprisionamento prioridade nmero 1 para as
foras armadas do reino.
       Entretanto, imitadores de Foldar estavam surgindo
em todos os lugares, geralmente na forma de bandidos
comuns, como aquele, e isso era um problema. Eles usa-
vam o nome e a assustadora reputao do homem para
amedrontar as vtimas, facilitando o trabalho de roub-las.
E, sempre que um deles aparecia, Halt e seus companhei-
ros tinham que perder tempo seguindo-os. Ele sentiu a
raiva queimar devagar por causa do tempo que estava
desperdiando com esse aborrecimento sem importncia.
Halt tinhas outras questes a resolver. Ele tinha uma
promessa a cumprir e estava sendo impedido por idiotas
como aquele.
       O falso Foldar tinha parado perto da carruagem. O
casaco preto com colarinho alto lembrava um pouco o
que Foldar usava. Mas Foldar era um janota, e seu casaco
era feito de veludo e cetim preto imaculado, enquanto a-
quele era de l comum, mal tingido e remendado em v-
rios lugares, com um colarinho de couro preto desbotado.
       O gorro era feito de um tecido spero e tambm es-
tava amassado, e a pena negra de cisne que o enfeitava
estava dobrada ao meio, provavelmente porque algum
havia sentado descuidadamente sobre ele. Agora o ho-
mem estava falando e sua tentativa de imitar o tom sarcs-
tico e balbuciante de Foldar foi prejudicada pelos erros de
gramtica e pelo sotaque grosseiro do interior.
       -- Vamo descer da carruagem, senhor e madame
-- ele disse fazendo uma curvatura desajeitada. -- E num
tenha medo, madame, que o nobre Foldar no machuca
ningum to bunita.
       Ele tentou dar um sorriso sardnico e malvado que
mais pareceu um cacarejo esganiado.
       A "madame" podia ser qualquer coisa, menos boni-
ta. Ela era de meia idade, gorda e bastante comum. "Mas
isso no  motivo para ser sujeitada a esse tipo de terror",
Halt pensou aborrecido. Ela recuou choramingando as-
sustada ao ver o vulto negro diante dela. "Foldar" deu um
passo  frente num tom de voz mais duro e ameaador.
       -- Desa, dona! -- ele gritou. -- Ou vai receber as
orelhas de seu marido de presente!
       Sua mo direita foi at o cabo da longa adaga presa
no cinto. A mulher gritou e se encolheu ainda mais na car-
ruagem. O marido, igualmente apavorado e preferindo
que as orelhas ficassem onde estavam, tentava empurr-la
na direo da porta.
       "J chega", Halt pensou. Satisfeito por ningum es-
tar olhando para ele, apanhou uma flecha, ajeitou-a na
corda, mirou e atirou.
       "Foldar", cujo verdadeiro nome era Rupert Gub-
blestone, teve a leve impresso de que algo passou como
um raio bem na frente de seu nariz. Ento ele sentiu um
forte puxo na gola do casaco e se viu pregado contra a
carruagem por uma flecha trmula que entrou na madeira
com um baque surdo. Soltou um pequeno grito assustado,
perdeu o equilbrio e tropeou, salvo de cair pelo casaco,
que agora comeava a estrangul-lo onde estava fechado
ao redor do pescoo.
       Quando os outros bandidos se viraram para ver de
onde a flecha tinha vindo, Halt se afastou da rvore. No
entanto, para os ladres confusos, parecia que ele tinha
sado de dentro do forte carvalho.
       -- Arqueiro do rei! -- Halt chamou. -- Larguem
as armas. Eram dez homens, todos armados, e nenhum
deles pensou em desobedecer  ordem. Facas, espadas e
porretes caram com rudo no cho. Eles tinham acabado
de ver um exemplo real da magia obscura de um arqueiro:
a figura sombria tinha sado direto do tronco vivo de um
carvalho. Mesmo naquele momento, a estranha capa que
ele usava parecia tremular incertamente contra o fundo,
tornando difcil a tarefa de enxerg-lo. E, se feitiaria no
fosse suficiente para obrig-los a obedecer, eles podiam
ver uma razo mais prtica: o enorme arco com outra fle-
cha de ponta negra j pronta na corda.
       -- De bruo no cho! Todos vocs!
       As palavras chegaram at eles como um chicote e
eles caram no cho. Halt apontou para um deles, um jo-
vem de cara suja que no devia ter mais que 15 anos.
       -- Voc no! -- ele disse, e o menino hesitou, a-
poiado nas mos e NOS joelhos. -- Pegue os cintos e a-
marre as mos deles nas costas.
       O garoto apavorado fez que sim com a cabea v-
rias vezes, aproximou-se do primeiro dos colegas deitados
e parou quando Halt lhe deu mais um aviso.
       -- E aperte bem! -- o arqueiro mandou. -- Se eu
descobrir que um dos ns est solto, eu vou...
       Ele hesitou um segundo, enquanto pensava numa
ameaa apropriada, e ento continuou:
       -- Vou prender vocs dentro daquele carvalho ali.
       "Isso deve servir", ele pensou. Ele sabia do efeito
que sua apario inexplicvel na frente da rvore tinha
exercido naqueles interioranos ignorantes. Aquele era um
estratagema que j tinha usado vrias vezes. Ele viu o ros-
to do garoto empalidecer de medo debaixo da sujeira e
soube que a ameaa tinha sido eficiente. Ento voltou a
ateno para Gubblestone, que puxava debilmente a tira
de couro que prendia a capa que continuava a asfixi-lo. O
rosto do homem j estava vermelho e com os olhos salta-
dos.
        E eles ficaram ainda mais arregalados quando Halt
desembainhou a pesada faca de caa.
        -- Ah, relaxe -- Halt disse irritado.
        Ele cortou a corda rapidamente e Gubblestone, li-
vre de repente, caiu desajeitado no cho, aparentemente
satisfeito por ficar ali, fora do alcance da faca cintilante.
Halt olhou para os ocupantes da carruagem. O alvio em
seus rostos era evidente.
        -- Acho que podem seguir viagem, se quiserem --
disse satisfeito. -- Esses idiotas no vo mais aborrecer
vocs.
        O mercador, lembrando-se com remorso de como
tinha tentado empurrar a mulher para fora da carruagem,
tentou disfarar o constrangimento esbravejando.
        -- Eles merecem ser enforcados, arqueiro! Enfor-
cados, eu digo! Eles aterrorizaram minha pobre mulher e
me ameaaram!
        Halt olhou impassvel para o homem, at que a ex-
ploso tivesse terminado.
        -- Pior do que isso -- ele disse com calma --, eles
desperdiaram o meu tempo.
       -- A resposta  no, Halt -- Crowley afirmou. --
Do mesmo jeito que foi da ltima vez que perguntou.
       Ele viu a raiva tomar conta de todo o corpo do ve-
lho arqueiro amigo parado  sua frente. Crowley detestava
o que tinha de fazer, mas ordens eram ordens e, como
comandante dos arqueiros, era sua funo fazer que fos-
sem cumpridas. E Halt, como todos os arqueiros, tinha
que obedec-las.
       -- Vocs no precisam de mim! -- Halt explodiu.
-- Estou perdendo tempo caando esses imitadores do
Foldar em todo o reino, quando deveria estar procurando
Will!
       -- O rei tornou Foldar sua prioridade nmero 1 --
Crowley lembrou. -- Cedo ou tarde, vamos encontrar o
verdadeiro.
       -- E voc tem 49 outros arqueiros para fazer esse
servio! -- Halt protestou com um gesto de desespero. --
Pelo amor de Deus, acho que isso  suficiente.
       -- O rei Duncan quer os outros 49. E ele quer vo-
c. Ele confia em voc e tonta com voc. Voc  o melhor
que temos.
       -- J fiz a minha parte -- Halt respondeu devagar,
e Crowley sabia o quanto o amigo ficava magoado ao di-
zer essas palavras.
       Ele tambm sabia que sua melhor resposta seria o
silncio. Um silncio que Crowley sabia que iria obrigar
Halt a raciocinar um pouco mais e de um jeito que detes-
tava.
        -- O reino deve para esse menino -- Halt disse
com um pouco mais de firmeza na voz.
        -- O garoto  um arqueiro -- Crowley retrucou
com frieza.
        -- Um aprendiz -- Halt corrigiu, fazendo que
Crowley se levantasse, derrubando a cadeira por causa da
violncia do movimento.
        -- Um aprendiz aceita os mesmos deveres de um
arqueiro. Sempre foi assim, Halt. A regra  igual para to-
dos os arqueiros: o reino em primeiro lugar. Esse  nosso
juramento. Todos o fizemos, voc, eu, Will.
        Houve um silncio zangado entre os dois homens,
que ficou ainda pior por causa dos anos que tinham vivido
como amigos e camaradas. Crowley se deu conta de que
Halt provavelmente era o seu melhor amigo. Agora, ali
estavam eles, trocando palavras amargas e discutindo irri-
tados. Ele estendeu a mo, endireitou a cadeira cada e fez
um gesto de paz para Halt.
        -- Olhe -- ele comeou num tom mais suave --,
s me ajude a resolver essa questo do Foldar. Dois me-
ses, talvez trs, e voc pode ir procurar Will com minha
bno.
        Halt j estava balanando a cabea grisalha antes
que seu chefe tivesse terminado.
        -- Ele pode estar morto em dois meses. Ou ser
vendido como escravo e se perder para sempre. Preciso ir
enquanto a pista ainda est fresca. Prometi a ele -- acres-
centou depois de uma pausa com a voz embargada pelo
sofrimento.
       -- No -- Crowley repetiu com determinao. Ao
ouvir a resposta, Halt endireitou os ombros.
       -- Ento vou falar com o rei -- ele anunciou.
Crowley olhou para a escrivaninha.
       -- O rei no vai receb-lo -- ele disse simplesmen-
te.
       Ele olhou para Halt e viu surpresa e decepo no
olhar do arqueiro.
       -- Ele no vai me receber? Ele se recusa a me ver?
       Por mais de 20 anos, Halt tinha sido um dos maio-
res confidentes do rei, com acesso constante e inquestio-
nvel aos aposentos do monarca.
       -- Ele sabe o que voc vai pedir, Halt. Ele no
quer recusar seu pedido, ento vai se recusar a ver voc.
       A surpresa e a decepo deixaram o olhar de Halt.
Em seu lugar, ficou uma raiva amarga.
       -- Ento vou ter que fazer ele mudar de ideia --
Halt disse com calma.
Quando o navio deu a volta no cabo e atingiu a proteo
da baa, as ondas fortes diminuram de intensidade. Den-
tro do pequeno porto natural, o alto promontrio rochoso
quebrava a fora do vento e das ondas e as guas eram
calmas, e sua superfcie era perturbada somente pelo ras-
tro espumante deixado pelo navio.
       -- Estamos na Escandinvia? -- Evanlyn pergun-
tou.
       Will deu de ombros sem saber a resposta. O lugar
certamente no se parecia com o que ele esperava. Na
praia, havia apenas algumas cabanas pequenas em runas,
mas nenhum sinal de cidade ou de pessoas.
       -- No parece muito grande, no ? -- ele retru-
cou.
       Svengal, enrolando um pedao de corda com cui-
dado, riu da ignorncia do rapaz.
       -- Isso no  a Escandinvia. No estamos nem no
meio do caminho. Aqui  Skorghijl.
       Vendo o espanto no olhar dos garotos, ele conti-
nuou a explicao.
        -- No podemos ir para a Escandinvia agora. A-
quela tempestade no Mar Estreito nos atrasou tanto que
os ventos de vero chegaram. Vamos nos abrigar aqui at
que eles passem.  para isso que servem aquelas cabanas.
        Will olhou com ar de dvida para as cabanas de
madeira estragadas pelo tempo. Elas pareciam frias e des-
confortveis.
        Quanto tempo isso vai levar? ele perguntou, e
Svengal deu de ombros.
        -- Seis semanas, dois meses. Quem sabe?
        Ele se afastou com o rolo de corda no ombro e
deixou os dois jovens explorarem a vizinhana.
        Skorghijl era um lugar deserto e desagradvel, com
pedras nuas, penhascos ngremes de granito e uma peque-
na praia plana onde o sol e as cabanas esbranquiadas pelo
sal se amontoavam. No havia rvores ou folhas verdes
em nenhum lugar visvel. As bordas dos penhascos esta-
vam cobertas pelo branco da neve e do gelo. O resto eram
pedras e argila, granito negro e cinza desbotado. Era como
se os deuses adorados pelos escandinavos tivessem remo-
vido todos os vestgios de cor daquele pequeno mundo
pedregoso.
        Inconscientemente, no precisando mais lutar con-
tra o constante ataque das ondas, os remadores diminu-
ram o ritmo. O navio deslizou pela baa at a praia. Erak,
no leme, manteve a embarcao no canal que corria direto
para o mar at que a quilha finalmente raspou na areia e
eles ficaram imveis pela primeira vez em dias.
       Will e Evanlyn se levantaram com as pernas vaci-
lantes depois de dias de movimento constante.
       Ouviu-se o barulho de madeira batendo em madei-
ra quando os remos foram puxados e guardados dentro
do navio. Erak enrolou uma tira de couro no leme para
evitar que batesse com o movimento da mar e olhou ra-
pidamente para os dois prisioneiros.
       -- Vo para a praia, se quiserem -- ele sugeriu.
       No havia necessidade de amarr-los ou vigi-los de
alguma maneira. Skorghijl era uma ilha com cerca de dois
quilmetros de largura em seu ponto mais largo. Era esse
porto natural perfeito que a tornava um refgio para os
escandinavos durante os ventos de vero: a costa da ilha
era uma linha ininterrupta de penhascos ngremes que ca-
am no mar.
       Will e Evanlyn foram at a proa do navio passaram
pelos escandinavos que estavam descarregando barris de
gua e cerveja e sacos de comida desidratada dos espaos
cobertos debaixo do convs central. Will passou por cima
da amurada, ficou pendurado por alguns segundos e ento
pulou para a areia embaixo. Ali, com a proa inclinada para
cima como se tivesse deslizado praia acima, havia uma
altura considervel at as pedras. Ele se virou para ajudar
Evanlyn, mas ela j estava saltando depois dele.
       Os dois ficaram de p hesitantes.
       -- Meu Deus -- Evanlyn murmurou, sentindo-se
balanar quando a terra firme debaixo dela pareceu girar e
oscilar.
        Ela tropeou e caiu apoiada num dos joelhos.
        Will no estava em melhor condio. Agora que o
movimento constante tinha parado, a terra seca debaixo
deles parecia ondular e virar e ele se apoiou nas tbuas do
barco para no cair.
        -- O que foi isso? -- perguntou para Evanlyn.
        Ele olhou para o cho debaixo dos ps, esperando
ver a areia se movendo e formando montes e colinas, mas
ela estava lisa e imvel. Sentiu os primeiros sinais de nu-
sea se juntando na boca do estmago.
        -- Tomem cuidado! -- avisou uma voz acima de-
les, e um saco de carne seca caiu com estrondo nas pedri-
nhas do lado de Will.
        Ele olhou para cima, balanando sem firmeza, e viu
os olhares sorridentes de um membro da tripulao.
        -- Estranhando o balano? -- o marinheiro per-
guntou de um jeito simptico. -- Em algumas horas vocs
vo estar acostumados.
        A cabea de Will girava. Evanlyn tinha conseguido
recuperar o equilbrio. Ela ainda balanava, mas pelo me-
nos no estava enjoada como Will.
        -- Venha -- ela disse, segurando o brao dele. --
Estou vendo uns bancos perto daquelas cabanas. A gente
vai se sentir melhor quando sentar.
        E, cambaleando, eles tropearam pela areia molha-
da at as mesas e os bancos rsticos de madeira colocados
do lado de fora das cabanas.
       Agradecido, Will se deixou cair num deles, segurou
a cabea nas mos e apoiou os cotovelos nos joelhos.
Gemeu aflito quando outra onda de nusea tomou conta
dele. Evanlyn estava se sentindo um pouco melhor.
       -- O que est causando isso? -- ela perguntou
preocupada, dando-lhe tapinhas no ombro.
       -- Isso acontece quando se esteve a bordo de um
navio por alguns dias.
       Jarl Erak tinha se aproximado deles por trs. Ele ti-
nha um saco de provises pendurado no ombro e o colo-
cou no cho do lado de fora de uma das cabanas, gru-
nhindo de leve com o esforo.
       -- Por algum motivo, as pernas parecem pensar
que voc ainda est no convs do navio. Ningum sabe
por qu. Isso dura s algumas horas e ento voc vai se
sentir muito bem.
       -- Acho que nunca mais vou me sentir bem --
Will gemeu com voz rouca.
       -- Vai, sim -- Erak garantiu. -- Acendam uma fo-
gueira -- ele disse bruscamente, mostrando com o polegar
uma pilha de pedras escurecidas a poucos metros da caba-
na mais prxima. -- Voc vai se sentir melhor com uma
comida quente.
       Will gemeu quando ouviu falar de comida. Mesmo
assim, levantou-se vacilante do banco e pegou a pedra de
fogo que Erak lhe oferecia. Ele e Evanlyn foram at o lo-
cal em que deveriam acender a fogueira. Do lado, havia
uma pilha de madeira seca pelo sol e pelo sal. Algumas das
tbuas estavam quebradias o bastante para serem partidas
com as mos, e Will comeou a formar uma pirmide com
os pedaos em meio ao crculo de pedras.
       Evanlyn, por sua vez, reuniu pedaos de musgo se-
co para ajudar a fazer o fogo pegar. Em 5 minutos, eles
tinham acendido uma pequena fogueira cujas chamas
lambiam avidamente os pedaos maiores de madeira que
agora juntavam ao fogo.
       -- Como nos velhos tempos -- Evanlyn murmu-
rou com um pequeno sorriso.
       Will se virou rapidamente para ela, devolvendo o
sorriso. Ele viu claramente a ponte de Morgarath surgir
acima deles outra vez, e as chamas que eles tinham produ-
zido se alimentando vorazmente das cordas cobertas de
piche e tbuas de pinho cheias de resina. Suspirou pro-
fundamente. Se pudesse, faria tudo de novo, mas preferia
que Evanlyn no estivesse envolvida, que ela no tivesse
sido capturada com ele.
       Ento, mesmo enquanto desejava isso, percebeu
que ela era a nica fonte de luz em sua vida de amargura
naquele momento e que, ao desejar que ela estivesse lon-
ge, desejava afastar a nica centelha de alegria e normali-
dade em seus dias.
       Ele se sentiu confuso. Num momento de extrema
surpresa, ele se deu conta de que, caso Evanlyn no esti-
vesse ali, quase no valeria a pena viver. Ele se virou e to-
cou a mo dela levemente. Evanlyn olhou para ele outra
vez e, dessa vez, Will foi o primeiro a sorrir.
       -- Voc faria isso de novo? -- ele perguntou. --
Sabe, a ponte e todo o resto?
       Ela no devolveu o sorriso, apenas ficou muito
pensativa por vrios minutos.
       -- Faria, sim, e voc?
       Will fez que sim com a cabea e suspirou outra vez
pensando em tudo o que tinha deixado para trs.
       Sem que os jovens percebessem, Erak tinha ouvido
o dilogo e fez um leve gesto de cabea. Era bom que os
dois tivessem a amizade um do outro. A vida ia ser difcil
para eles quando chegassem a Hallasholm e  corte de
Ragnak. Eles seriam vendidos como escravos e levariam
uma vida de trabalho braal pesado, sem descanso e sem
liberdade. Seria um dia difcil depois do outro, ms aps
ms, ano aps ano. Uma pessoa que vivesse desse jeito
precisaria de um amigo.
       Seria demais dizer que Erak gostava dos dois jo-
vens, mas eles tinham conquistado o respeito dele. Os es-
candinavos eram uma raa guerreira que valorizava a co-
ragem e a dedicao  batalha acima de tudo, e tanto Will
quanto Evanlyn tinham provado sua coragem quando des-
truram a ponte de Morgarath. O garoto era um lutador.
Ele tinha derrubado os Wargals como pinos de boliche
com seu pequeno arco. Erak raramente tinha visto um
atirador mais rpido e certeiro e adivinhou que isso era
resultado do treinamento como arqueiro.
       E a menina tambm tinha mostrado muita cora-
gem, primeiro ao garantir que o fogo estivesse bem aceso
na ponte e depois, quando Will foi finalmente derrubado
por uma pedra jogada por um dos escandinavos, ao tentar
ela mesma pegar o arco e continuar atirando.
        Era difcil no sentir compaixo por eles. Os dois
eram muito jovens e tinham muita coisa para viver no fu-
turo. Ele tentaria facilitar as coisas para eles o mximo
possvel quando chegassem a Hallasholm. Mas no havia
muito o que pudesse fazer. Ele balanou a cabea zanga-
do, afastando o humor sombrio que tinha tomado conta
dele.
        -- Estou ficando muito sensvel! -- resmungou pa-
ra si mesmo. Erak percebeu que um dos remadores estava
tentando tirar um pedao de carne de porco do saco s
escondidas. Em silncio, aproximou-se do homem por
trs e lhe deu um violento chute no traseiro, fazendo que
se esparramasse no cho.
        -- Mantenha suas mos leves longe disso! -- voci-
ferou.
        Ento, abaixando a cabea para passar pela porta,
entrou na cabana escura que cheirava a fumaa para pegar
a melhor cama para ele.
A taverna era um local pequeno, sujo e desagradvel, de
teto baixo e enfumaado, mas ficava perto do rio onde os
grandes navios atracavam para descarregar mercadorias
que seriam comercializadas na capital e, portanto, os ne-
gcios costumavam ir bem.
       Naquele exato momento, porm, os negcios esta-
vam um tanto parados e o motivo estava sentado numa
das mesas simples e manchadas perto da lareira. Ele olhou
para o dono da taverna com olhos que faiscaram debaixo
das sobrancelhas grossas e bateu a caneca vazia nas tbuas
de pinho speras da mesa. -- Est vazia outra vez -- dis-
se zangado.
       A voz apenas levemente arrastada lembrava ao do-
no do lugar que aquela era a oitava ou nona vez que ele ia
encher a caneca com o conhaque barato e forte vendido
nos bares em portos como aquele. "Uma venda  uma
venda", ele disse para si mesmo, indiferente, mas aquele
cliente parecia ser dado a encrencas, e o taberneiro dese-
jou que o homem fosse embora e criasse problemas em
outro lugar.
       Seus clientes habituais, com seu instinto excepcio-
nal para prever problemas, tinham desaparecido quando o
pequeno homem chegou e comeou a beber daquele jeito
descontrolado. Apenas meia dzia ficou. Um deles, um
estivador imenso, tinha examinado o homem menor e de-
cidido que seria fcil lidar com ele. O homem podia ser
pequeno e estar bbado, mas sua capa cinza-esverdeado e
a bainha para duas facas que levava no quadril esquerdo
mostravam que se tratava de um arqueiro. E arqueiros,
como qualquer pessoa sensata podia lhe dizer, no eram
gente com que se devesse brincar.
       O estivador aprendeu isso do jeito mais difcil. A
luta mal durou alguns segundos e o deixou estendido no
cho, inconsciente. Seus companheiros saram apressados
para um ambiente mais seguro e amistoso. O arqueiro os
viu sair e fez sinal para que lhe servissem mais bebida. O
dono da taverna, nervoso, passou por cima do estivador,
encheu a caneca do arqueiro e voltou para a relativa segu-
rana do balco do bar.
       E ento a verdadeira confuso comeou.
       -- Fiquei sabendo -- o arqueiro anunciou, pro-
nunciando as palavras com a preciso cautelosa de um
homem que sabia que tinha bebido demais -- que nosso
bom rei Duncan, senhor deste reino, no passa de um co-
varde.
       Se o ambiente no bar antes disso j prenunciava
problemas, agora fervia de tenso. Os olhos dos poucos
clientes restantes ficaram presos  pequena figura sentada
 mesa. Ele olhou ao redor com um leve sorriso sombrio
brincando nos lbios, quase invisvel entre a barba e o bi-
gode grisalhos.
       -- Um covarde. Um poltro. E um idiota -- ele
disse claramente. Ningum se mexeu. Aquela conversa era
perigosa. Atacar ou insultar o rei em pblico daquela ma-
neira era considerado um crime grave para o cidado co-
mum. Para um arqueiro, um membro que prestou jura-
mento s foras especiais do rei, era quase traio. Olhares
nervosos foram trocados. Os poucos clientes restantes
desejaram poder sair sem chamar ateno, mas algo no
olhar calmo do arqueiro lhes disse que isso no era mais
possvel. Eles perceberam que naquele momento o arco
que tinha estado encostado na parede atrs dele j estava
preparado. E a aljava ao seu lado estava cheia de flechas.
Todos sabiam que a primeira pessoa que tentasse atraves-
sar a porta da frente seria rapidamente seguida por uma
delas. E todos sabiam que os arqueiros, mesmo bbados,
raramente erravam um alvo.
       No entanto, ficar ali enquanto o arqueiro censurava
e insultava o rei era igualmente perigoso. Se algum des-
cobrisse o que estava acontecendo, seu silncio poderia
muito bem ser tomado como aprovao.
       -- Fiquei sabendo de fonte certa -- o arqueiro
continuou quase com prazer -- que o bom rei Duncan
no  o ocupante legal do trono. Ouvi dizer que ele , na
verdade, o filho de um limpador de banheiros bbado.
Outro boato diz que ele foi o resultado da fascinao do
pai por uma danarina ambulante. Escolham o que prefe-
rirem. Seja como for, est longe de ser uma linhagem ade-
quada para um rei, certo?
       Um leve suspiro de preocupao passou nos lbios
de algum. Aquilo estava ficando cada vez mais perigoso.
Nervoso, o dono da taverna se mexeu atrs do balco,
quando viu um movimento no fundo do aposento e se
virou para enxergar melhor a porta. Sua mulher, saindo da
cozinha com uma travessa de tortas para o bar, tinha pa-
rado quando ouviu a ltima declarao do arqueiro. Pli-
da, ela parou e se virou para o marido com uma pergunta
silenciosa no olhar.
       Ele olhou rapidamente para o arqueiro, mas a aten-
o do outro homem estava voltada para um carroceiro
que tentava no ser notado na extremidade do bar.
       -- O senhor no concorda... voc de jaqueta ama-
rela manchada com quase todo o caf da manh de on-
tem... que uma pessoa dessas no merece ser rei desta ter-
ra maravilhosa? -- ele perguntou.
       O carroceiro resmungou e se mexeu na cadeira sem
querer fazer contato visual.
       O dono da taverna fez um sinal quase impercept-
vel na direo da entrada dos fundos da casa. A mulher
olhou na mesma direo e depois para o marido com as
sobrancelhas erguidas numa pergunta. "A guarda", ele dis-
se movendo os lbios em silncio e viu que ela tinha en-
tendido. Andando sem fazer rudo e ainda fora da linha de
viso do arqueiro, ela atravessou o aposento do fundo e
saiu pela porta, fechando-a atrs de si o mais silenciosa-
mente possvel.
       Mesmo tomando todo o cuidado, a tranca fez um
pequeno clique quando se fechou. O olhar do arqueiro,
desconfiado e interrogativo, saltou para o dono da taver-
na.
       -- O que foi isso? -- ele perguntou, e o dono da
taverna deu de ombros, esfregando nervosamente as mos
midas no avental manchado.
       Ele no tentou falar, pois sabia que a garganta esta-
va seca demais para formar palavras.
       Por um rpido momento, ele pensou ter visto um
lampejo de satisfao na expresso do outro homem, mas
afastou o pensamento, achando-o ridculo.
        medida que os minutos se arrastavam, os insultos
e ofensas ao rei Duncan ficavam mais animados e atrevi-
dos. O dono da taverna engoliu em seco ansioso. Sua mu-
lher tinha sado havia dez minutos. Certamente, ela j ti-
nha encontrado um destacamento da guarda que deveria
chegar a qualquer momento para levar aquele homem pe-
rigoso dali e fazer que parasse com aquela conversa desle-
al.
       No mesmo instante em que esses pensamentos
passavam por sua cabea, a porta da frente se abriu fazen-
do ranger as dobradias, e um grupo de cinco homens,
liderados por um cabo, entrou no aposento mal ilumina-
do. Cada um estava armado com uma espada comprida e
levava um cassetete curto e pesado pendurado no cinto, e
todos usavam um escudo redondo amarrado s costas.
        O cabo avaliou o aposento enquanto seus homens
se espalhavam atrs dele. Seus olhos se estreitaram quan-
do viu a figura curvada sobre a mesa.
        -- O que est acontecendo aqui? -- ele perguntou,
e o arqueiro sorriu.
        O dono da taverna percebeu que era um sorriso
que no chegava aos seus olhos.
        -- Estvamos falando de poltica -- ele contou
com palavras cheias de sarcasmo.
        -- No foi o que ouvi -- o cabo retrucou irritado.
-- Ouvi dizer que voc estava falando de traio.
        O arqueiro fez uma careta de incredulidade e er-
gueu uma sobrancelha com uma expresso surpresa e
zombeteira.
        -- Traio? -- ele repetiu e ento olhou ao redor
curioso. -- Algum aqui andou contando mentiras, ento?
Ser que algum aqui  um dedo-duro cuja lngua deveria
ser... cortada?
        Tudo aconteceu to depressa que o dono da taver-
na quase no teve tempo de se jogar no cho atrs do bar.
Enquanto cuspia as ltimas palavras, o arqueiro tinha ar-
rumado uma forma de pegar o arco atrs dele, preparado e
atirado uma flecha. Ela atingiu a parede atrs do lugar em
que o dono da taverna tinha estado em p um segundo
antes e se enterrou no fundo do painel de madeira, tre-
mendo com o impacto.
       -- J chega... -- o cabo comeou.
       Ele deu um passo  frente, mas incrivelmente o ar-
queiro j tinha outra flecha pronta no arco. A ponta cinti-
lante mirava a testa do cabo, e o arco estava esticado e
tenso. O cabo parou, olhando a morte de frente.
       Solte a arma -- ele disse.
       Mas faltava autoridade em sua voz, e ele sabia dis-
so. Uma coisa era manter bbados das docas e arruaceiros
na linha, outra totalmente diferente era enfrentar um ar-
queiro, um lutador habilitado e assassino treinado. Mesmo
um cavaleiro iria pensar duas vezes sobre um confronto
dessa natureza. Aquilo estava muito alm da capacidade
de um simples cabo da guarda.
       No entanto, o cabo no era covarde e sabia que ti-
nha uma tarefa a cumprir. Ele engoliu a saliva vrias vezes
e ento, muito devagar, levantou a mo para o arqueiro.
       Coloque... a arma... no cho -- ele ordenou, mas
no obteve resposta.
       A flecha continuou a mirar sua testa, na altura dos
olhos. Hesitantemente, ele deu um passo  frente.
       -- No faa isso.
       A ordem foi simples e clara. O cabo teve certeza de
que podia ouvir o prprio corao batendo forte como
um tambor e se perguntou se os outros no aposento tam-
bm podiam ouvir. Ele respirou fundo. Tinha jurado leal-
dade ao rei. No era nenhum nobre ou cavaleiro, apenas
um homem comum. Mas sua palavra significava tanto pa-
ra ele quanto para um oficial bem-nascido. Ele tinha fica-
do satisfeito em exercer sua autoridade durante anos li-
dando com bbados e criminosos sem importncia. Agora
tinha chegado o momento de receber o pagamento por
aqueles anos de autoridade e respeito. Ele deu mais um
passo.
       O zunido provocado pelo arco quando soltou a fle-
cha foi quase ensurdecedor no aposento tomado pela ten-
so. Instintivamente e com violncia, o cabo se encolheu e
cambaleou para trs alguns centmetros, esperando a ar-
dente agonia da flecha e depois a escurido da morte cer-
ta.
       E percebeu o que tinha acontecido. A corda tinha
arrebentado.
       O arqueiro olhou para a arma intil em suas mos
sem acreditar. As pessoas ficaram imveis por alguns se-
gundos e ento o cabo e seus homens saltaram para a
frente agitando os cassetetes pesados que carregavam, a-
glomerando-se em volta da pequena figura vestida de ver-
de e cinza.
       Quando o arqueiro foi derrubado pela chuva de so-
cos, ningum percebeu que ele deixou cair a pequena faca
que usou para cortar a corda. Mas o dono da taverna se
perguntou como um homem que tinha se movimentado
to depressa para derrotar um estivador duas vezes maior
que ele de repente parecia to lento e vulnervel.
Will estava correndo em Skorghijl pela ilha deserta varri-
da pelo vento.
       Depois de dar cinco voltas na praia coberta de sei-
xos, ele se virou na direo dos penhascos ngremes que
se levantavam atrs do pequeno porto. Suas pernas quei-
mavam pelo esforo de escalar, seus msculos das coxas e
canelas reclamavam. As semanas de inatividade no navio
haviam prejudicado seu preparo fsico e agora ele estava
determinado , 1 ficar em forma novamente, a enrijecer os
msculos e fazer seu corpo voltar  perfeio que Halt
exigia dele.
       Talvez ele no pudesse praticar arco e flecha ou ati-
rar suas facas, mas podia ao menos garantir que seu corpo
estivesse pronto se surgisse uma oportunidade para esca-
par.
       Will tinha certeza de que essa oportunidade iria a-
parecer.
       Ele se obrigou a subir uma rampa ngreme, fazendo
pequenas pedras e argila deslizarem e cederem debaixo de
seus ps. Quanto mais ele subia, mais o vento puxava suas
roupas e, finalmente, quando atingiu o alto do penhasco,
foi atingido por toda a fora do vento norte os ventos do
vero, como os escandinavos os chamavam. No lado noite
da ilha, o vento fazia as ondas baterem contra as rochas
negras e imponentes, fazendo a gua espirrar bem alto no
ar. No porto atrs dele, a gua estava relativamente calma,
protegida do vento pela parede macia de penhascos que
o cercava.
        Como fazia normalmente quando chegava a esse
ponto, ele observou o oceano em busca do sinal de algum
navio. Mas, como sempre, no havia nada para ver alm
das ondas violentas e implacveis.
        Ele olhou para o porto. As duas cabanas grandes
pareciam ridiculamente pequenas de onde estava. Uma era
o dormitrio onde a tripulao de escandinavos dormia. A
outra era a sala de refeies onde passavam a maior parte
do tempo, discutindo, jogando e bebendo. Ao lado do
dormitrio, construda ao longo das compridas paredes,
estava a varanda que Erak tinha destinado para Will e E-
vanlyn. O espao era pequeno, mas pelo menos no ti-
nham que dividi-lo com os escandinavos. Will tinha es-
tendido um cobertor de um lado a outro para que Evanlyn
tivesse um pouco de privacidade.
        Ela estava sentada do lado de fora da varanda.
Mesmo daquela distncia, Will conseguia ver seus ombros
curvados e desanimados e ficou preocupado. Alguns dias
antes, tinha sugerido que ela o acompanhasse em sua ten-
tativa de manter o corpo em boa forma. Evanlyn rejeitou
a ideia de imediato e parecia simplesmente ter aceitado seu
destino. Ela tinha desistido e, nos ltimos dias, suas con-
versas tinham se tornado cada vez mais difceis,  medida
que tentava levantar o nimo dela e falava sobre a possibi-
lidade de fuga, pois ele j tinha uma ideia do que poderia
fazer.
        Ele ficou confuso e magoado com a atitude dela.
Aquela no era a Evanlyn de quem se lembrava da ponte;
a parceira corajosa e decidida que tinha corrido pelas vigas
estreitas para ajud-lo sem pensar em sua segurana pes-
soal e que depois tentou lutar contra os escandinavos
quando eles os encurralaram.
        Essa nova Evanlyn estava estranhamente desani-
mada. Sua atitude negativa o surpreendia. Ele nunca ima-
ginou que ela seria o tipo de pessoa que iria desistir quan-
do os problemas ficassem muito difceis.
        "Talvez meninas sejam assim", ele disse a si mes-
mo. Mas no acreditava nisso. Ele sentia que havia alguma
outra coisa que ela no tinha contado. Afastando os pen-
samentos com um gesto dos ombros, comeou a descer o
penhasco.
        Era mais fcil correr para baixo do que para cima,
mas nem tanto. A superfcie escorregadia e traioeira de-
baixo dos ps fazia que ele tivesse que correr cada vez
mais depressa para manter o equilbrio, provocando pe-
quenos deslizamentos de terra  medida que descia. Onde
a corrida para cima tinha feito os msculos das coxas
queimar, agora o fazia sentir dor na barriga das pernas e
tornozelos. Ele chegou ao fundo da rampa respirando for-
te e se deixou cair na praia para fazer uma srie de flexes
rpidas.
       Os ombros ficaram doloridos depois de alguns mi-
nutos, mas ele se obrigou a continuar e a ultrapassar o
ponto da dor, cego pelo suor que escorria em seus olhos
at que, por fim, no pde mais insistir. Exausto, desabou
no cho com os braos incapazes de sustentar seu peso e
ficou deitado de bruos na areia, lutando para respirar.
       Ele no ouviu Evanlyn se aproximar enquanto fazia
os exerccios e se assustou com o som da voz dela.
       -- Will, isso  perda de tempo.
       A voz dela no tinha o tom de discusso to evi-
dente nos ltimos dias, e Evanlyn parecia quase concilia-
dora. Com um leve gemido de dor, ele levantou o corpo
do cho, virou e se sentou, limpando a areia molhada com
as mos.
       Will sorriu para ela, Evanlyn devolveu o sorriso e se
sentou ao lado dele na praia.
       -- O que  perda de tempo? -- ele perguntou.
       Ela fez um gesto vago que incluiu a praia onde ele
tinha acabado de se exercitar e o penhasco que escalou e
desceu.
       -- Todas essas corridas e exerccios, e toda essa
conversa sobre fuga.
       Ele franziu um pouco a testa. No queria comear
uma discusso, portanto foi cuidadoso em no reagir com
muita intensidade s palavras dela. Will tentou manter um
tom neutro e razovel. Nunca  perda de tempo se manter
em forma. Talvez no -- Evanlyn concordou aceitando o
argumento. -- Mas fugir? Daqui? Que chance teramos?
        Will sabia que teria que ser cuidadoso naquele mo-
mento. Se desse a impresso de que estava lhe passando
um sermo, ela poderia voltar para sua concha outra vez.
Mas ele sabia como era importante manter a esperana
viva numa situao daquelas e queria provar esse fato para
ela.
        -- Admito que no parece muito promissor. Mas
nunca se sabe o que pode acontecer amanh. O mais im-
portante  manter uma atitude positiva. No podemos
desistir. Halt me ensinou isso. Nunca desista porque, se
surgir uma oportunidade, voc vai estar pronta para apro-
veit-la. No desista, Evanlyn, por favor.
        Ela estava balanando a cabea novamente, mas es-
tava tranquila.
        -- Voc no est entendendo o que quero dizer.
Eu no desisti. Eu s estou dizendo que  uma perda de
tempo porque isso no  necessrio. No precisamos fu-
gir. H outro jeito de resolver isso.
        Will olhou ao redor com um gesto teatral como se
pudesse enxergar a soluo de que ela estava falando.
        -- Existe? Sinto muito, mas no consigo ver.
        -- Ns podemos ser resgatados -- ela afirmou, e
ele riu alto, muito divertido com a ingenuidade dela.
        -- Eu duvido muito. Quem viria resgatar um a-
prendiz de arqueiro e uma criada? Quer dizer, sei que Halt
viria se pudesse, mas ele no tem dinheiro para isso.
Quem iria pagar um bom dinheiro por ns?
        Ela hesitou e ento pareceu tomar uma deciso.
        -- O rei -- ela disse simplesmente.
        Will olhou para ela como se estivesse louca. Na
verdade, por um momento, ele se perguntou se ela estava
bem. Ela certamente parecia estar fora da realidade.
        -- O rei? -- ele repetiu. -- Por que o rei iria se in-
teressar por ns?
        -- Porque sou filha dele.
        O sorriso desapareceu do rosto de Will. Ele olhou
fixamente para ela, sem saber se tinha ouvido bem. Ento
ele se lembrou das palavras de Gilan em Cltica, quando o
jovem arqueiro o tinha avisado de que alguma coisa no
estava muito certa em relao a Evanlyn.
        -- Voc  a... -- ele comeou e parou. Aquilo era
difcil demais para compreender.
        -- Filha dele. Eu sinto tanto, Will. Eu devia ter lhe
contado antes. Eu estava viajando disfarada em Cltica,
quando vocs me encontraram -- ela explicou. -- Era
quase natural no contar meu verdadeiro nome s pessoas.
Ento, quando Gilan nos deixou, eu ia lhe contar. Mas
percebi que, se o fizesse, voc iria insistir em me levar de
volta ao meu pai imediatamente.
        Will balanou a cabea, tentando assimilar o que es-
tava ouvindo. Ele olhou em volta do pequeno porto cer-
cado por penhascos.
       -- Isso teria sido to terrvel assim? -- ele pergun-
tou com um pouco de amargura.
       Ela sorriu para ele com tristeza.
       -- Pense, Will. Se voc soubesse quem eu era, nun-
ca teramos seguido os Wargals e nunca teramos encon-
trado a ponte.
       -- Nunca teramos sido capturados -- Will ajun-
tou, mas ela balanou a cabea mais uma vez.
       -- Morgarath teria vencido -- ela disse simples-
mente. Ele olhou nos olhos dela e percebeu que Evanlyn
tinha razo. Houve um longo momento de silncio entre
os dois.
       -- O seu nome ... -- Will hesitou e ela terminou a
frase para ele.
       -- Cassandra. Princesa Cassandra. Me desculpe se
tenho agido um pouco como princesa nos ltimos dias --
ela acrescentou com um sorriso triste. -- Estava me sen-
tindo mal porque no lhe contei. No quis descontar em
voc.
       -- No, tudo bem -- ele disse distrado e ainda es-
pantado com a novidade. Ento um pensamento lhe pas-
sou pela cabea. -- Quando voc vai contar ao Erak?
       -- No sei se devo -- ela respondeu. -- Esse tipo
de coisa  melhor tratar no alto escalo. Afinal, Erak e
seus homens so pouco mais que piratas. No sei como
eles vo reagir. Acho que  melhor eu continuar sendo
Evanlyn at chegarmos  Escandinvia. Da vou encontrar
uma forma de me aproximar do governante... qual  mes-
mo o nome dele?
        -- Ragnak -- Will disse com a mente a toda velo-
cidade. -- Oberjarl Ragnak.
        "Claro que ela tem razo", ele pensou. Como prin-
cesa Cassandra de Araluen, ela valeria uma pequena fortu-
na para o Oberjarl. E, visto que os escandinavos eram ba-
sicamente mercenrios, no havia dvidas de que ela seria
resgatada por um bom dinheiro.
        Ele, por outro lado, era uma questo diferente. E
ento Will percebeu que ela estava falando novamente.
        -- Assim que eu disser quem sou, vou arranjar para
que ns dois sejamos resgatados. Tenho certeza de que
meu pai vai concordar.
        E Will sabia que esse era o problema. Talvez ela
conseguisse convencer o pai se pudesse falar com ele pes-
soalmente. Mas a questo estaria nas mos dos escandina-
vos. Ele diriam para o rei Duncan que tinham a filha dele
em mos e estabeleceriam um preo para o resgate. No-
bres e princesas podiam ser resgatados. Na verdade, isso
acontecia muitas vezes em tempos de guerra. Mas pessoas
como guerreiros e arqueiros eram uma questo diferente.
Os escandinavos poderiam muito bem ficar relutantes em
libertar um arqueiro, mesmo UM aprendiz, que poderia
causar problemas para eles no futuro.
        Havia tambm outra questo a ser considerada. A
mensagem levaria meses, talvez grande parte de um ano,
para chegar a Araluen. A resposta de Duncan poderia le-
var um tempo igualmente longo para fazer a viagem de
volta. S ento as negociaes comeariam. Durante todo
esse tempo, Evanlyn seria mantida confortavelmente em
segurana, pois afinal era uma propriedade valiosa. Mas
quem poderia dizer o que aconteceria a Will? Ele poderia
estar morto quando o resgate fosse pago.
       Era bvio que Evanlyn no tinha previsto isso.
       -- Ento voc v, Will -- ela continuou a racioci-
nar --, no h motivo para todas essas corridas, escaladas
e tentativas de fuga. Voc no precisa fazer isso. Alm
disso, Erak est ficando desconfiado. Ele no  bobo e j
o vi observando voc. Por isso, relaxe e deixe tudo comi-
go. Vou conseguir que a gente volte para casa.
       Will abriu a boca, pronto para explicar o que estava
pensando. Ento, mudou de ideia. De repente, ele sabia
que Evanlyn no aceitaria seu ponto de vista. Ela era tei-
mosa e determinada e estava acostumada a fazer as coisas
do seu jeito. Ela estava convencida de que poderia organi-
zar a volta deles, e nada do que ele dissesse mudaria a opi-
nio dela. Will sorriu para ela e mostrou que concordava
com um gesto. Mas era apenas uma sombra do seu sorriso
habitual.
       No fundo do corao, ele sabia que teria que en-
contrar o seu jeito de voltar para casa.
O castelo de Araluen, sede do governo do rei Duncan,
era uma construo de majestosa beleza.
       As torres altas encimadas por pilares que subiam
aos cus tinham uma graa quase viva que destoava da
fora e da solidez do castelo. Construdo com imensos
blocos de pedra cor de mel, ele era magnfico, mas tam-
bm inexpugnvel.
       As muitas torres elevadas davam ao castelo um to-
que de luz, ar e elegncia. Mas elas tambm forneciam aos
moradores vrias posies das quais atirar flechas, pedras
e leo fervente em quaisquer atacantes que pudessem ser
tolos o suficiente para atacar seus muros.
       A sala do trono era o corao do palcio, situada
entre uma srie de paredes, grades e pontes levadias que,
no caso de um cerco prolongado, ofereciam aos defenso-
res uma sucesso de posies de retirada. Como tudo o
mais no castelo, a sala do trono era ampla, tinha um teto
abobadado muito alto e um piso ladrilhado com quadra-
dos de mrmore preto e cor-de-rosa claro.
       As janelas altas eram feitas de vitrais que cintilavam
sob a luz baixa do sol de inverno. As colunas agrupadas
que davam enorme fora s paredes eram acaneladas, para
aumentar a iluso de leveza e espao do aposento. O tro-
no de Duncan, um objeto simples escavado em carvalho
encimado por uma folha de carvalho esculpida, dominava
a parede norte. Do lado oposto, havia bancos e mesas de
madeira para os membros do gabinete do rei. O centro do
aposento era vazio e havia espao suficiente para centenas
de sditos ficarem em p. Em dias de cerimonial, eles lo-
tavam a rea, enquanto suas roupas e brases de armas de
cores vivas recebiam a luz vermelha, azul, dourada e laran-
ja que se derramava pelos vitrais e fazia as armaduras e os
capacetes lustrosos cintilarem.
       Naquele dia, por ordem de Duncan, havia apenas
cerca de dez pessoas presentes -- o mnimo exigido por
lei para que se fizesse justia. O rei enfrentava a tarefa que
tinha diante de si com pouco prazer e queria que o menor
nmero possvel de testemunhas visse o que teria que fa-
zer.
       Ele estava sentado no trono com a testa franzida,
olhando para a frente, os olhos presos nas enormes portas
duplas do outro lado da sala. Sua grande espada, em cujo
punho estava esculpida a cabea de um leopardo que era a
insgnia pessoal de Duncan, descansava na bainha e estava
apoiada no brao direito do trono.
       Lorde Anthony, de Spa, tesoureiro do rei nos lti-
mos cinco anos, estava de um lado do trono e vrios pas-
sos abaixo dele. Ele olhava de um jeito expressivo para
Duncan e pigarreou com um ar de desculpas para atrair a
ateno do monarca.
       O rei olhou para ele e ergueu as sobrancelhas numa
pergunta silenciosa, e o tesoureiro fez um sinal com a ca-
bea.
       -- Chegou a hora, Majestade -- ele disse em voz
baixa.
       Baixo e gordo, lorde Anthony no era um guerrei-
ro. Ele no tinha nenhuma habilidade com armas e, como
consequncia, seus msculos eram flcidos e destreinados.
Mas era um excelente administrador e, em grande parte
por sua ajuda, o reino de Araluen vinha sendo prspero e
forte havia muito tempo.
       Duncan era um rei popular e justo. Isso no queria
dizer que no fosse um governante forte, determinado e
comprometido em fazer cumprir as leis do reino -- leis
que tinham sido criadas e mantidas por seus antecessores
por 600 anos.
       E esse era o motivo da preocupao de Duncan e o
seu corao confrangido. Porque naquele dia ele teria que
fazer um homem que tinha sido seu amigo e servo leal
cumprir uma dessas leis. Na verdade, um homem a quem
Duncan devia tudo -- um homem que por duas vezes,
nas duas ltimas dcadas, tinha sido essencial para salvar
Araluen da sombria ameaa da derrota e escravido nas
mos de um louco.
       Lorde Anthony se mexeu inquieto. Duncan viu o
movimento e acenou com uma das mos num gesto de
derrota.
       -- Muito bem -- ele disse. -- Vamos acabar com
esse negcio.
       Anthony se virou para observar a sala do trono. O
movimento fez com que as poucas pessoas reunidas ali se
mexessem e olhassem para as portas esperanosamente. O
smbolo do cargo do tesoureiro era um longo basto de
bano revestido de ao. Ele o levantou e bateu duas vezes
no cho de ladrilhos. O estalido do ao sobre a pedra e-
coou no aposento e foi levado com clareza para os ho-
mens que esperavam atrs das portas fechadas.
       Houve uma pequena pausa e ento as portas se a-
briram quase sem rudo nas dobradias bem lubrificadas e
perfeitamente equilibradas. Quando pararam, um pequeno
grupo de homens entrou, avanando no ritmo lento da
marcha cerimonial at a base dos degraus largos que leva-
vam ao trono.
       Eram quatro homens ao todo. Trs deles usavam
mantos, malhas e capacetes da guarda do rei. O quarto era
uma figura pequena, vestida com roupas de um cinza e
verde indefinidos. Ele estava com a cabea descoberta e
seus cabelos eram de um cinza sal e pimenta, despentea-
dos e mal cortados. Ele marchava entre os dois homens
que iam  frente, e o terceiro ia diretamente atrs dele.
Duncan viu que o rosto do pequeno homem estava man-
chado de sangue seco e havia um hematoma feio no alto
da face esquerda que quase deixava o olho fechado.
       -- Halt? -- ele disse antes que pudesse parar. --
Voc est bem? O olhar dos dois homens se encontrou.
Por um breve momento, Duncan imaginou ter visto uma
imensa e profunda tristeza ali. E ento o momento se foi e
no restou mais nada naqueles olhos, alm de uma forte
determinao e um toque de zombaria.
       -- Estou to bem quanto se pode esperar, Majesta-
de -- ele disse secamente.
       Lorde Anthony reagiu como se tivesse sido picado
por um inseto.
       -- Dobre a lngua, prisioneiro! -- ele disparou.
       Ao ouvir essas palavras, o cabo ao lado de Halt er-
gueu uma das mos para bater no prisioneiro. Mas, antes
que o golpe pudesse ser dado, Duncan fez meno de se
erguer do trono.
       -- J chega!
       Sua voz soou forte no aposento quase vazio. O ca-
bo baixou a mo um pouco envergonhado. Ocorreu a
Duncan que ningum presente na sala estava apreciando a
cena. Halt era uma figura muito conhecida e respeitada no
reino. Ele hesitou, sabendo o que deveria fazer em segui-
da, mas detestando cada momento.
       -- Devo ler as acusaes, Majestade? -- lorde An-
thony perguntou.
        Na verdade, cabia a Duncan lhe dar essa ordem.
Em vez disso, o rei acenou com uma das mos numa con-
cordncia relutante.
        -- Sim, sim. V em frente, se precisar -- murmu-
rou e logo se arrependeu, pois Anthony olhou para ele
com uma expresso sofrida no rosto.
        "Afinal", Duncan pensou, "Anthony tambm no
quer fazer isso", e deu de ombros num gesto de desculpas.
        -- Sinto muito, lorde Anthony. Por favor, leia as
acusaes. Anthony pigarreou, pouco  vontade com a
tarefa que tinha a realizar. J era ruim o suficiente que o
rei tivesse abandonado os procedimentos formais, mas
infinitamente mais constrangedor para o tesoureiro era o
fato de o monarca achar natural se desculpar com ele.
        -- O prisioneiro Halt, arqueiro das foras de Sua
Majestade, prestador de servios para o reino e portador
da Folha de Carvalho de Prata, foi ouvido ridicularizando
a imagem do rei, seus direitos de nascena e linhagem.
        Um suspiro quase inaudvel vindo do pequeno gru-
po de testemunhas chegou claramente at os dois homens
na plataforma do trono. Duncan olhou para cima para
descobrir de onde o som tinha vindo. Poderia ter sido o
baro Arald, senhor do Castelo Redmont e governador do
feudo ao qual Halt servia. Ou possivelmente Crowley,
comandante do Corpo de Arqueiros. Os dois homens e-
ram os mais velhos amigos de Halt.
        -- Majestade -- Anthony continuou devagar --,
preciso lembr-lo, como oficial servidor do rei, que esses
comentrios so uma contraveno que vo diretamente
contra o juramento de lealdade feito pelo prisioneiro. Por
esse motivo, ele  acusado de traio.
        Duncan olhou para o tesoureiro com uma expres-
so de sofrimento. A lei era muito clara quando se tratava
de traio. Havia apenas duas punies possveis.
        -- Ah, certamente, lorde Anthony -- ele disse. --
Algumas palavras zangadas?
        O olhar de Anthony ficou preocupado. Ele espera-
va que o rei no tentasse influenci-lo nessa questo.
        -- Majestade, essa  uma violao do juramento. A
questo no so as palavras em si, mas o fato de que o
prisioneiro quebrou o juramento ao diz-las em pblico. A
lei  clara nesse assunto.
        Ele olhou para Halt e estendeu as mos num gesto
indefeso.
        -- E voc estaria quebrando o seu, lorde Anthony,
se no informasse o rei disso -- Halt disse com um leve
sorriso no rosto cansado.
        Dessa vez, Anthony no ordenou que ele se calasse.
Com uma expresso infeliz, mostrou que concordava com
um gesto de cabea.
        Halt tinha razo. Ele tinha criado uma situao in-
tolervel para todos com seu comportamento ridculo de-
pois de beber demais.
        Duncan fez meno de falar, hesitou e recomeou.
        -- Halt, tenho certeza de que deve haver um mal-
entendido nessa situao -- ele sugeriu, esperando que o
arqueiro pudesse, de alguma forma, encontrar uma sada
para as acusaes, mas Halt deu de ombros.
       -- No posso negar as acusaes, Majestade -- ele
disse com calma. Escutaram quando disse algumas... coi-
sas desagradveis sobre o senhor.
       E ali estava outro dilema terrvel: Halt tinha feito os
comentrios chocantes em pblico, na frente de pelo me-
nos seis pessoas. Como homem e amigo, Duncan podia e
certamente estaria disposto a perdo-lo. Mas, como rei,
devia preservar a dignidade de seu posto.
       -- Mas... por que, Halt? Por que causar essa situa-
o para todos ns?
       Aquela era a vez de Halt dar de ombros. Os olhos
dele se desviaram dos do rei. Ele murmurou algo em voz
baixa que Duncan no conseguiu entender bem.
       -- O que voc disse? -- ele perguntou, desejando
encontrar uma sada da situao difcil em que estava.
       O olhar de Halt encontrou o dele outra vez.
       -- Muito conhaque, Vossa Majestade -- ele disse
em voz mais alta. -- Nunca fui muito forte para bebida.
Talvez o senhor pudesse me acusar tambm de embria-
guez, lorde Anthony -- Halt acrescentou, obrigando-se a
mostrar um sorriso sem humor.
       Dessa vez, a calma e o senso de protocolo de lorde
Anthony foram abalados.
       -- Por favor, Halt... -- ele comeou, prestes a pe-
dir ao arqueiro que parasse de brincar com os procedi-
mentos, mas ento se recuperou e se virou para o rei.
       -- Essas so as acusaes, Vossa Majestade. Admi-
tidas pelo prisioneiro.
       Duncan ficou sentado por muito tempo sem falar.
Ele olhou para a pequena figura  sua frente e tentou en-
xergar alm da expresso de desafio que havia naqueles
olhos e descobrir o motivo que tinha levado Halt a agir
daquela maneira. Ele sabia que o arqueiro estava zangado
porque no tinha recebido permisso para tentar resgatar
seu aprendiz. Mas Duncan realmente acreditava que a pre-
sena de Halt era essencial em Araluen at que o proble-
ma com Foldar estivesse resolvido. A cada dia que passa-
va, o antigo tenente de Morgarath estava se tornando um
perigo maior, e Duncan queria que seus melhores conse-
lheiros lidassem com o problema.
       E Halt realmente estava entre os melhores.
       Frustrado, Duncan tamborilou os dedos no brao
de madeira do trono. Era estranho Halt no conseguir ver
tudo o que estava acontecendo. Em todos os anos que
eles se conheciam, Halt nunca tinha colocado seus interes-
ses  frente dos do reino. Agora, aparentemente por causa
de rancor e raiva, tinha permitido que a bebida atrapalhas-
se seu raciocnio e provocasse esse julgamento. Ele tinha
insultado o rei publicamente na frente de testemunhas, um
ato que no poderia ser ignorado nem encarado como al-
gumas palavras zangadas entre amigos. Duncan olhou pa-
ra seu velho amigo e conselheiro. Halt olhava para o cho.
Talvez se ele pedisse misericrdia, implorasse clemncia
pelos servios prestados  coroa no passado... qualquer
coisa.
       -- Halt? -- Duncan comeou antes de mesmo per-
ceber.
       O arqueiro ergueu os olhos e encarou o rei, e este
fez um pequeno gesto interrogativo e impotente com as
mos. Mas o olhar de Halt se endureceu ainda mais ao
encontrar o de Duncan, e o monarca soube que ele no
iria suplicar misericrdia. O arqueiro sacudiu levemente a
cabea grisalha num gesto de recusa, e o corao de Dun-
can ficou ainda mais pesado no peito. Ele tentou mais
uma vez diminuir a distncia que tinha crescido entre ele e
Halt, obrigando-se a mostrar um pequeno sorriso concili-
ador.
       -- Afinal, Halt -- ele acrescentou num tom de voz
moderado --, no  que eu no entenda exatamente como
voc se sente. A minha filha est com seu aprendiz. Voc
acha que eu no gostaria simplesmente de deixar o reino 
prpria sorte para resgat-la?
       -- H uma diferena bastante importante, Majesta-
de. A filha de um rei pode esperar ser tratada um pouco
melhor do que um simples aprendiz de arqueiro. Afinal,
ela  uma refm valiosa.
       Duncan se recostou na cadeira. A amargura na voz
de Halt foi como um tapa na cara. E, o que era pior, o rei
se deu conta de que Halt estava certo. Assim que os es-
candinavos descobrissem a identidade de Cassandra, ela
seria bem tratada enquanto esperava ser resgatada. Infe-
lizmente, percebeu que sua tentativa de reconciliao ape-
nas tinha aumentado o abismo entre os dois.
       Anthony quebrou o crescente silncio que havia no
aposento.
       -- A menos que o prisioneiro tenha alguma coisa a
dizer em sua defesa, ele  considerado culpado -- ele avi-
sou Halt.
       Os olhos do arqueiro continuaram presos em Dun-
can, embora, mais uma vez, ele tenha feito o mesmo leve
movimento negativo com a cabea. Anthony hesitou, o-
lhou em volta para os nobres e oficiais mais velhos ali re-
unidos, esperando que algum, qualquer um, encontrasse
alguma coisa a dizer em defesa de Halt. Mas, naturalmen-
te, no havia nada a ser dito. O tesoureiro viu os ombros
largos do baro Arald se curvarem em desespero, viu a
dor no rosto de Crowley quando o comandante dos ar-
queiros desviou o olhar da cena que acontecia ali.
       -- O prisioneiro  culpado, Majestade -- Anthony
confirmou. -- Cabe ao senhor apresentar a sentena.
       E essa, Duncan sabia, era a parte de ser rei para a
qual nunca tinha sido preparado. Havia a lealdade, a adu-
lao, o poder e a cerimnia. Havia o luxo, as comidas e
bebidas finas, as melhores roupas e os melhores cavalos e
armas.
       E ento chegava o momento em que se pagava por
todas essas coisas. Momentos como aquele em que a lei
devia ser cumprida, e as tradies deviam ser preservadas.
Quando a dignidade e o poder do cargo deviam ser prote-
gidos mesmo que, ao faz-lo, fosse preciso destruir um de
seus mais estimados amigos.
        A lei apresenta apenas duas punies possveis para
traio, Majestade Anthony afirmou, sabendo que Duncan
estava detestando cada minuto daquilo.
        -- Sim. Sim, eu sei -- o rei murmurou zangado,
mas no rpido o bastante para impedir Anthony de pro-
ferir a prxima frase.
        Morte ou expulso. Nada menos -- o tesoureiro
informou
        E, quando ele disse essas palavras, Duncan sentiu
um pequeno estremecimento de esperana no peito.
        -- Essas so as opes, lorde Anthony? -- ele per-
guntou com suavidade, querendo ter certeza.
        Anthony assentiu com seriedade.
        -- No h outras. Apenas morte ou expulso, Ma-
jestade. Duncan se levantou devagar e pegou a espada
com a mo direita.
        Ele a segurou diante dele, agarrando o estojo abaixo
da cruzeta intrincadamente gravada e esculpida. Sentiu
uma onda quente de satisfao. Ele tinha perguntado duas
vezes a Anthony para ter certeza de que as exatas palavras
do tesoureiro fossem ouvidas pelas testemunhas presentes
na sala do trono.
        -- Halt -- ele falou com firmeza, sentindo todos
os olhares presos nele. -- Ex-arqueiro do rei do feudo de
Redmont, eu, neste momento, na qualidade de senhor
deste reino de Araluen, declaro que voc seja banido de
todas as minhas terras e propriedades.
        Novamente, ouviram-se leves suspiros em toda a
sala quando os ouvintes sentiram o alvio de saber que a
sentena no seria a morte. No que qualquer um dos pre-
sentes esperasse que fosse. Mas agora vinha a parte que
eles no esperavam.
        -- Voc est proibido, sob pena de morte, de colo-
car os ps no reino novamente... -- ele hesitou, vendo
agora a tristeza nos olhos de Halt, a dor que o grisalho
arqueiro no conseguia mais esconder.
        -- ... pelo perodo de um ano a partir deste dia --
ele completou sua declarao.
        No mesmo instante, houve um tumulto na sala do
trono. Lorde Anthony olhou para a frente, o choque vis-
vel em seu rosto.
        -- Majestade! Devo protestar! O senhor no pode
fazer isso!
        Duncan manteve a expresso solene. Outros na sala
no estavam to controlados. Ele viu que o rosto do baro
Arald estava franzido num sorriso largo, enquanto Cro-
wley estava fazendo o melhor que podia para esconder o
riso no capuz cinzento de sua capa de arqueiro. Duncan
notou com uma sombria sensao de satisfao que, pela
primeira vez naquela manh, Halt estava um tanto surpre-
so com o rumo dos acontecimentos. Mas no tanto quan-
to lorde Anthony, que protestava em voz alta. O rei olhou
para o tesoureiro com um olhar de interrogao.
       -- No posso, lorde Anthony? -- ele indagou com
grande dignidade.
       Anthony se apressou a corrigir a frase, percebendo
que no era sua funo dar ordens ao rei.
       -- Eu quero dizer, Majestade... expulso ... bem, 
expulso -- ele concluiu sem jeito.
       Duncan assentiu com seriedade.
       -- Realmente -- ele respondeu. -- E, como voc
mesmo me disse,  uma das duas nicas escolhas que pos-
so fazer.
       -- Mas, Majestade, expulso ...  um ato absoluto!
 por toda a vida! -- Anthony protestou.
       Sua face estava vermelha de constrangimento. Ele
no desgostava de Halt. Na verdade, at o dia em que o
arqueiro tinha sido preso por atacar a reputao do rei,
Anthony sentira uma forte admirao por ele. Mas, afinal,
era seu trabalho aconselhar o rei sobre questes de lei e
propriedade.
       -- A lei determina isso especificamente? -- Dun-
can perguntou. Anthony balanou a cabea e fez um gesto
impotente com as mos, quase deixando cair o basto de
comando.
       -- Bem, no especificamente. No  necessrio.
Expulses sempre tm sido para a vida toda. Faz parte da
tradio! -- ele acrescentou, encontrando as palavras que
vinha procurando.
       -- Exatamente -- Duncan respondeu. -- E tradi-
o no  lei.
       Anthony comeou e ento se viu perguntando a si
mesmo por que estava protestando tanto. Afinal, Duncan
tinha encontrado uma forma de punir Halt e, ao mesmo
tempo, aplicar essa punio com misericrdia.
       O rei percebeu a hesitao e tomou a iniciativa. --
A questo est resolvida. O prisioneiro est banido por 12
meses. Voc tem 48 horas para deixar os limites de Aralu-
en.
       O olhar de Duncan encontrou o de Halt pela lti-
ma vez. O arqueiro inclinou a cabea levemente num ges-
to de respeito e gratido para
       -- Mas...
       Duncan suspirou. Ele no tinha ideia de por que
Halt tinha imposto essa situao a todos. Talvez ele des-
cobrisse algum dia depois que esse ano tivesse passado.
De repente, sentiu crescer dentro dele uma averso por
tudo o que estava acontecendo e empurrou o estojo da
espada pelo cinto.
       -- Essa questo est resolvida -- ele disse aos que
estavam ali reunidos. -- O julgamento est encerrado.
       Ele se virou e deixou a sala do trono, saindo por
uma pequena antessala  esquerda. Anthony olhou para o
grupo reunido na sala e deu de ombros.
       -- O rei falou -- ele disse num tom que dava a en-
tender o quanto ele estava arrasado por tudo o que tinha
acontecido. -- O prisioneiro est expulso por 12 meses.
Guarda, leve-o.
       E, com essas palavras, ele seguiu o rei para fora da
sala do trono.
      Evanlyn olhava, com irritao cada vez maior, Will
completar outra volta na praia, jogar-se no cho e fazer
dez rpidas flexes.
       Ela no conseguia entender por que ele insistia nes-
se ridculo programa de exerccios. Se fosse uma simples
questo de manter a forma, ela poderia aceit-lo -- afinal,
no havia quase nada para fazer em Skorghijl, e aquela era
uma maneira de se manter ocupado. Mas ela sentia que o
motivo era mais srio. Apesar da conversa que tinham
tido dias antes, tinha certeza de que Will ainda planejava
fugir.
       -- Teimoso, cabea-dura -- ela resmungou.
       "Isso  coisa de menino", ela pensou. Ele parecia
no poder aceitar que ela, uma garota, podia cuidar de tu-
do e arranjar a volta deles para Araluen. Evanlyn ficou
sria. Will no tinha se comportado dessa maneira em Cl-
tica. Quando estavam planejando a destruio da enorme
ponte de Morgarath, ele pareceu aceitar as sugestes e i-
deias dela, que se perguntou por que isso teria mudado.
       Enquanto observava, Will andou na areia at a beira
da gua onde Svengal estava remando o bote de volta 
praia. O segundo escandinavo no comando era um exmio
pescador. Ele levava o bote para o mar quase todas as
manhs em que o tempo permitia, e os bacalhaus frescos e
as percas do mar que pescava nas guas frias e profundas
do porto de Skorghijl proporcionavam uma mudana
bem-vinda na alimentao composta de carne e peixe sal-
gados e legumes fibrosos.
       Com uma pequena ponta de cime, Evanlyn obser-
vou Will conversar com o escandinavo. Ela no tinha a
mesma facilidade para lidar com as pessoas. Ele tinha um
comportamento aberto e simptico e, sem dificuldade,
iniciava uma conversa com todos os que conhecia. As
pessoas pareciam gostar dele instintivamente. Ela, por ou-
tro lado, muitas vezes se sentia estranha e pouco  vonta-
de com desconhecidos, e eles pareciam perceber isso. No
ocorria a ela que aquilo pudesse ser resultado de sua cria-
o de princesa. E, como estava com disposio para ficar
ressentida com Will naquela manh, v-lo ajudar Svengal a
puxar o pequeno bote para a praia simplesmente aumen-
tou seu aborrecimento.
       Zangada, ela chutou uma pedra na praia, praguejou
quando descobriu que era maior e mais firmemente presa
na areia do que tinha imaginado e foi mancando at a va-
randa, de onde Will e seu novo amigo ficariam fora de sua
viso.
       -- A pesca foi boa? -- Will perguntou, como todos
faziam com um pescador.
       Svengal mostrou a pilha de peixes no fundo do bo-
te com a cabea.
       -- Peguei uma beleza ali.
       Havia um bacalhau grande entre oito ou nove me-
nores, mas ainda de tamanho respeitvel. Will concordou
impressionado.
       --  mesmo uma beleza. Precisa de ajuda para lim-
par os peixes? Certamente, ele receberia ordens para lim-
p-los de qualquer maneira. Ele e Evanlyn recebiam todas
as tarefas domsticas, como cozinhar, limpar e arrumar.
Mas ele queria conversar com Svengal e, dessa forma, tal-
vez o escandinavo ficasse e conversasse com ele enquanto
trabalhava. Will tinha notado que os escandinavos eram
grandes tagarelas, principalmente quando algum estava
ocupado.
       -- Fique  vontade -- o grande escandinavo disse
tranquilo, jogando uma pequena faca sobre a pilha de pei-
xes.
       Ele se sentou no banco do bote enquanto Will tira-
va os peixes e comeava o desagradvel trabalho de limpar
as escamas e as entranhas. Will sabia que Svengal ficaria e
que iria querer levar ele mesmo o enorme bacalhau at a
cabana. Pescadores adoravam elogios.
       -- Svengal -- Will comeou, concentrado em tirar
as escamas de uma perca e fazendo o possvel para que a
sua voz parecesse casual -- por que voc no vai pescar
na mesma hora todos os dias?
       -- A mar, garoto -- Svengal respondeu. -- Gosto
de pescar quando a mar est subindo. Ela traz os peixes
para o porto, entendeu?
       -- A mar? O que  isso?
       Svengal balanou a cabea diante da ignorncia do
garoto de Araluen sobre as coisas da natureza.
       -- Voc no percebeu como a gua no porto fica
mais alta e depois abaixa durante o dia? -- ele indagou. --
Isso  a mar. Ela vem e vai, mas a cada dia acontece mais
tarde que no dia anterior -- ele continuou quando Will
assentiu.
       -- Mas para onde ela vai? -- Will perguntou fran-
zindo a testa. -- E de onde ela vem, para comear?
       Svengal coou a barba pensativo. Aquela era uma
questo com que nunca tinha se preocupado. A mar era
um fato simples de sua vida de marinheiro e ele deixava os
motivos e consequncias para outras pessoas.
       Dizem que  por causa da Grande Baleia Azul --
ele afirmou se lembrando da fbula que tinha ouvido
quando criana. -- Acho que voc no sabe o que  uma
baleia, certo? -- continuou quando viu a expresso inter-
rogativa de Will.
       Ele suspirou diante do olhar vazio do menino.
       -- Uma baleia  um peixe gigantesco.
       -- To grande quanto o bacalhau? -- Will indagou,
indicando o orgulho da pesca de Svengal.
        -- Bem maior que isso, garoto. Muito maior --
Svengal retrucou rindo verdadeiramente divertido.
        -- To grande quanto uma morsa? -- Will conti-
nuou.
        Havia um grupo dos enormes animais nas pedras
na parte sul do ancoradouro e ele tinha ouvido o nome de
um dos tripulantes.
        -- Maior ainda -- Svengal contou com um sorriso
ainda maior. Baleias normais so to grandes quanto casas.
Elas so mesmo enormes. Mas a Grande Baleia Azul 
totalmente diferente. Ela  to grande quanto um de seus
castelos. Ela respira na gua e ento a cospe por um bura-
co que tem no alto da cabea.
        -- Entendo -- Will disse com cuidado, sentindo
que deveria fazer algum comentrio.
        -- Assim, quando ela inspira o ar, a mar desce --
Svengal continuou com pacincia. -- E quando ela o ex-
pira...
        -- Por um buraco no alto da cabea? -- Will repe-
tiu.
        Ele comeou a limpar o bacalhau. Aquilo tudo pa-
recia fantstico demais: peixes com buracos na cabea que
respiravam gua para dentro e para fora. Svengal fez cara
feia por causa da interrupo e o tom de dvida que sentiu
na voz de Will.
        -- Sim. Por um buraco no alto da cabea. Quando
ela faz isso, a mar sobe outra vez. Ela faz isso duas vezes
por dia.
       -- Ento, por que ela no faz isso na mesma hora?
-- Will quis saber, e Svengal se mostrou ainda mais abor-
recido.
       Para falar a verdade, ele no tinha a menor ideia. A
lenda no falava disso.
       -- Por que ela  uma baleia, menino! E baleias no
sabem ver as horas, sabem?
       Irritado, ele apanhou os peixes limpos, certificando-
se de no esquecer a faca, e saiu pela praia, deixando Will
a lavar o sangue e as escamas das mos.
       Erak estava sentado num banco do lado de fora da
cabana reservada para refeies quando Svengal se apro-
ximou pela areia.
       -- Belo bacalhau -- ele disse, e Svengal fez um le-
ve gesto de cabea. -- O que foi tudo aquilo? -- ele per-
guntou, fazendo um gesto mm o polegar na direo de
Will.
       -- O qu? Ah, o garoto? S estvamos falando so-
bre a Grande Baleia Azul.
       Pensativo, Erak esfregou o queixo.
       --  mesmo? Como vocs chegaram nesse assun-
to?
       Svengal parou, relembrando a conversa.
       -- Ele s queria saber sobre a mar, foi isso -- o
marinheiro contou finalmente.
       Ele esperou para ver se Erak tinha mais alguma coi-
sa para dizer, ento deu de ombros e entrou.
       -- Pois agora ele sabe -- Erak disse para si mesmo,
concluindo que o menino ia precisar ser vigiado.
       Nas prximas 4 horas, ele ficou fora da cabana, a-
parentemente tirando uma soneca ao sol. Mas seus olhos
seguiam o aprendiz de arqueiro para todos os lugares.
Muitas horas mais tarde, ele viu o garoto jogando pedaos
de madeira na gua e observando-os sendo levados para o
mar pela mar.
       -- Interessante -- o comandante do navio res-
mungou para si mesmo.
       Ento ele percebeu que Will estava de p, espiando
a entrada do porto enquanto protegia os olhos com a
mo. Erak seguiu a direo do olhar dele e se levantou
surpreso.
       Fortemente inclinado para um lado, o casco quase
todo dentro da gua e avanando com um nmero desi-
gual de remos, um navio entrava com dificuldade na baa.
Um     cavaleiro vestido de cinza estava encolhido triste-
mente dentro de sua capa, enquanto cavalgava lentamente
pela chuva fina que cobria os campos. Os cascos de seus
dois cavalos -- um de montaria CO outro de carga --
batiam ruidosamente na terra cheia de poas de gua que
tinham se formado nas ondulaes da estrada.
        Quando chegou ao alto de uma colina, as torres e
espiras do Castelo Araluen se levantavam para o cu cin-
zento atrs dele. Mas Halt no se voltou para ver a vista
magnfica. Seu olhar estava voltado para a frente.
        Ele ouviu os dois cavaleiros seguindo-o muito antes
de o alcanarem. As orelhas de Abelard se agitaram ao
ouvir os cascos lia lendo com fora no cho, e Halt soube
que seu pequeno cavalo havia reconhecido os outros dois
como cavalos de arqueiros. Mesmo assim, no olhou para
trs, pois sabia quem eram os dois cavaleiros e tambm
por que estavam vindo. Ele sentiu uma leve pontada de
desapontamento. Ele tinha esperado que, na confuso e
tristeza causadas por sua expulso, Crowley tivesse esque-
cido o pequeno detalhe ao qual Halt agora teria que se
submeter.
        Suspirando e aceitando o inevitvel, ele tocou as
rdeas de Abelard de leve. O altamente treinado cavalo de
arqueiro reagiu de imediato e parou. Atrs dele, o cavalo
de carga fez o mesmo. As batidas dos cascos se aproxima-
ram, e ele permaneceu sentado, olhando para a frente sem
interesse, quando Crowley e Gilan pararam ao seu lado.
        Os quatro cavalos se cumprimentaram cutucando-
se com delicadeza, enquanto os trs homens foram um
pouco mais discretos. Um silncio desagradvel se fez en-
tre eles, finalmente quebrado por Crowley.
        -- Bem, Halt, voc foi embora cedo. Tivemos que
cavalgar com vontade para alcanar voc -- ele disse, lu-
tando para mostrar um entusiasmo falso que disfarasse
sua tristeza diante do rumo que os acontecimentos tinham
tomado.
        Halt olhou com indiferena para os dois outros ca-
valos. O ar frio e mido fazia a respirao deles se trans-
formar lentamente em vapor.
        -- Deu pra ver -- ele respondeu com calma, ten-
tando ignorar a angstia no rosto jovem de Gilan.
        Ele sabia que seu antigo aprendiz estava sofrendo
profundamente por causa de suas atitudes inexplicveis e
endureceu o corao para no ver a tristeza do jovem ar-
queiro.
        Ento Crowley tambm deixou de mostrar entusi-
asmo e seu rosto ficou srio e preocupado.
        -- Halt, h uma coisa que talvez voc tenha esque-
cido. Desculpe por insistir, mas... -- ele hesitou.
        Halt tentou pr um fim naquela conversa com uma
expresso de surpresa no rosto.
        -- Tenho 48 horas para deixar o reino -- ele retru-
cou. -- A contagem de tempo comeou nesta manh.
Vou passar a fronteira antes disso. No h necessidade de
vocs me acompanharem.
        Crowley balanou a cabea. Com o canto dos o-
lhos, Halt viu Gilan desviar a ateno para a estrada. A-
quela situao estava causando sofrimento a todos. Ele
sabia por que Crowley tinha vindo. Procurou a corrente
de prata pendurada em seu pescoo, escondida pela capa.
        -- Eu esperava que voc esquecesse -- ele disse
tentando aparentar indiferena, mas um n em sua gar-
ganta o impediu.
        Crowley sacudiu a cabea com tristeza.
        Voc sabe que no pode ficar com a Folha de Car-
valho, Halt. Como uma pessoa banida, voc tambm est
automaticamente expulso do Corpo de Arqueiros.
        Halt assentiu. Ele sentiu as lgrimas queimarem em
seus olhos quando abriu a corrente e entregou o pequeno
amuleto de prata para o comandante dos arqueiros. O me-
tal ainda estava morno do contato com seu corpo. Sua
vista ficou embaada quando a viu enrolada na palma da
mo de Crowley. "Um pedao de metal to pequeno",
pensou, "e mesmo assim com um significado to impor-
tante para mim." Durante a maior parte de sua vida, tinha
usado a Folha de Carvalho com o enorme orgulho que
todos os arqueiros sentiam. E, agora, ela no pertencia
mais a ele.
        -- Sinto muito, Halt -- Crowley murmurou com
tristeza. Halt sacudiu o ombro.
        -- Essa  uma questo de pouca importncia --
replicou. Outro silncio caiu entre eles. O olhar de Cro-
wley encontrou o dele e tentou atravessar o vu atrs do
qual Halt tentava se esconder. Um vu de aceitao da
situao, indiferente e insensvel. Aquilo no passava de
fingimento, mas era muito bem disfarado. Finalmente, o
comandante se inclinou na sela e apertou o brao de Halt
com fora.
        -- Por que, Halt? Por que fez isso? -- ele pergun-
tou com veemncia e recebeu apenas um furioso sacudir
de ombros como resposta.
        -- Como eu disse -- Halt ajuntou --, foi conhaque
demais. Voc sabe que nunca aguentei muita bebida,
Crowley.
        Halt at conseguiu esboar um sorriso. Ele sentiu a
face empalidecer como se a morte estivesse sorrindo para
ele. Crowley soltou seu brao, endireitou o corpo na sela e
balanou a cabea desapontado.
        -- Felicidades, Halt -- ele disse finalmente numa
voz trmula de emoo.
        Ento, com um movimento brusco incomum, pu-
xou as rdeas, virou a cabea do cavalo e partiu a galope
pela estrada para Araluen.
        Halt observou-o se afastar e viu a capa manchada
de arqueiro se perder na chuva fina rapidamente. Em se-
guida, ele se virou para seu antigo aprendiz, sorriu com
tristeza, mas dessa vez o sorriso e a tristeza eram verdadei-
ros.
        -- At logo, Gilan. Que bom que voc veio se des-
pedir de mim.
        Mas o jovem arqueiro balanou a cabea desafia-
dor.
        -- No estou aqui para lhe desejar boa viagem --
ele disse com aspereza. -- Eu vou com voc.
        Surpreso, Halt ergueu uma sobrancelha. Essa ex-
presso era to conhecida de Gilan que o rapaz sentiu o
corao se partir quando a viu.
        -- E ser expulso? -- Halt perguntou ao jovem, e
Gilan balanou a cabea novamente.
        -- Sei o que pretende fazer -- ele retrucou e mos-
trou com um movimento da cabea o cavalo de carga que
estava parado pacientemente atrs de Abelard. -- Voc
est levando Puxo. Voc vai atrs de Will, no  mesmo?
        Por um momento, Halt se viu tentado a negar. Mas
os dias de fingimento j estavam sendo insuportveis. Ele
sabia que seria um alvio, pelo menos uma vez, admitir
suas razes.
        -- Tenho que ir, Gilan -- ele disse devagar. -- Eu
prometi a ele. E essa foi a nica forma de ser liberado dos
meus servios.
        -- Sendo expulso?
        A voz de Gilan soou incrivelmente alta.
        -- No lhe passou pela cabea que Duncan poderia
ter mandado execut-lo?
        Halt deu de ombros. Mas no foi um gesto de
zombaria. Foi apenas um gesto de resignao.
        -- No achei que ele fosse fazer isso. Eu tinha que
arriscar.
        -- Bem, expulso ou no, eu vou com voc -- Gi-
lan afirmou balanando a cabea com tristeza.
        Halt desviou o olhar, respirou fundo e soltou o ar
dos pulmes. Tinha que admitir que estava tentado a acei-
tar. Ele iria enfrentar uma jornada longa, dura e perigosa
em que a companhia de Gilan seria bem-vinda, e sua es-
pada poderia ser muito til. Mas Gilan tinha uma obriga-
o a cumprir e Halt, j sobrecarregado por ter trado o
prprio dever, no podia permitir que o jovem rapaz fi-
zesse o mesmo.
        -- Gilan, voc no pode -- ele disse simplesmente.
        Gilan inspirou antes de responder e Halt levantou a
mo para impedi-lo.
        -- Olhe, pedi para ser liberado para ir procurar Will
-- ele disse e eles me disseram que eu era necessrio aqui.
        Ele parou e Gilan fez que sim, mostrando que
compreendia.
        -- Bem, acho que no era to necessrio assim.
Mas essa  minha opinio e posso estar errado. Essa situa-
o com Foldar  mesmo muito perigosa e  um mal que
precisa ser cortado pela raiz. Ele precisa ser perseguido,
encontrado e pego numa cilada. E, francamente, no con-
sigo pensar num arqueiro melhor do que voc para reali-
zar esse trabalho.
       -- Depois de voc -- Gilan ajuntou e Halt reco-
nheceu o fato com uma leve inclinao da cabea.
       Ele no estava sendo orgulhoso, era uma avaliao
honesta da verdade.
       -- Pode ser. Mas isso refora minha opinio. Se
ns dois desaparecermos, Crowley vai ter que encontrar
outra pessoa para lazer o servio.
       -- No me importo -- Gilan retrucou teimoso,
torcendo as rdeas nas mos, formando um pequeno n e
depois as soltando outra vez.
       Halt sorriu gentilmente para ele.
       -- Eu me importo, Gilan. Eu sei como  quebrar a
confiana desse jeito.  uma dor profunda e amarga, acre-
dite em mim. E no vou permitir que voc passe por isso.
       -- Mas, Halt -- Gilan disse com tristeza, e o ho-
mem grisalho e mais baixo pde sentir que as lgrimas no
estavam longe de escorrer de seus olhos. -- Fui o respon-
svel por deixar Will. Eu abandonei ele em Cltica! Se ti-
vesse ficado com Will, ele nunca teria sido capturado pe-
los escandinavos!
       -- Voc no pode se culpar por isso -- Halt repli-
cou. -- Voc fez a coisa certa na poca. Culpe a mim por
recrutar um garoto com a honra e a coragem para agir
como ele fez. E por t-lo treinado de um jeito que nunca
deixaria dvidas de que ele agiria dessa forma.
        Ele fez uma pausa para ver se suas palavras estavam
tendo algum eleito. Ele sabia que Gilan estava hesitante.
Halt acrescentou o toque final.
        -- Gilan, voc no percebe que  por saber que es-
t aqui que posso desertar de meu posto desse jeito? Por-
que sei que vai me substituir. Mas, se voc se recusar a
fazer isso, eu tambm no vou poder ir.
        E, quando ouviu isso, Gilan encolheu os ombros
submisso e abaixou os olhos.
        -- Tudo bem, Halt. Mas encontre-o. Encontre-o e
traga-o de volta, expulso ou no -- ele disse com voz
rouca.
        Halt sorriu para ele e se inclinou para segurar o
ombro de Gilan.
        --  s um ano -- ele disse. -- Vamos estar de
volta antes que voc perceba. At logo, Gilan.
        -- Felicidades, Halt -- o arqueiro disse com a voz
trmula.
        Sua vista foi obscurecida pelas lgrimas e ele ouviu
o bater seco dos cascos dos cavalos na estrada molhada
quando Abelard e Puxo se afastaram na direo da costa.
        O vento atingia o rosto de Halt, enquanto ele ca-
valgava pelo caminho, e fazia a chuva leve bater em seu
corpo. Ela formava pequenas gotas no seu rosto castigado
pelo tempo, gotas que rolavam por sua lace.
        Estranhamente, algumas delas tinham gosto de sal.
O    navio estava em pssimas condies. Ele navegava
desajeitadamente de lado, na direo da praia coberta de
pedregulhos, onde a tripulao do navio de Erak saa das
cabanas para olhar a chegada. Estava fortemente inclinado
e muito mais dentro da gua do que devia. A balaustrada
estava a apenas dez centmetros da gua.
       --  o navio de Slagor! -- um dos escandinavos
gritou da praia, reconhecendo a cabea de lobo na ponta
da proa.
       -- O que ele est fazendo aqui? -- outro marinhei-
ro perguntou. -- Ele estava em segurana na Escandin-
via, quando samos de Araluen.
       Will veio correndo das pedras onde estava jogando
pedaos de madeira na gua. Ele viu Evanlyn saindo da
varanda e se juntou a ela. O aborrecimento de antes desa-
pareceu com esses novos acontecimentos.
       -- De onde veio esse navio? -- ela perguntou, e
Will deu de ombros.
       -- No tenho ideia. Eu estava nas pedras, olhei pa-
ra o mar e l estava ele.
       O navio j estava bem perto. Will notou que a tri-
pulao parecia abatida e exausta. Naquele momento, ele
podia ver falhas em vrias tbuas que formavam o casco, e
o toco onde o mastro tinha se quebrado e cado no mar.
Os escandinavos que estavam parados ao redor deles vi-
ram esses fatos e comentavam sobre eles.
       -- Slagor! -- Erak chamou por cima da gua tran-
quila. De que raio de lugar voc surgiu?
       O homem corpulento que estava na popa contro-
lando o leme cumprimentou-o com um aceno de mo. Ele
estava visivelmente exausto e satisfeito por poder ancorar.
       Um dos tripulantes estava parado na proa do navio
e jogou uma corda pesada para os homens de Erak que
esperavam na praia. Em alguns segundos, uma dzia deles
apanhou a corda e comeou a puxar a embarcao pelos
ltimos metros. Agradecidos, os remadores, sem energia
para guardar os remos, se recostaram nos bancos. Os pe-
sados remos esculpidos em carvalho pendiam na gua e
batiam nas laterais do navio com um som surdo quando
giravam nos seus orifcios.
       A quilha raspou nos pedregulhos, e o navio parou.
Como estava mais baixo na gua do que o Wolfwind, no
era possvel faz-lo subir a mesma distncia na praia, pois
a proa logo ficou presa na areia.
       Os homens a bordo comearam a desembarcar, sal-
tando sobre a amurada e caindo na praia. Cambaleando,
os remadores foram para a terra seca e se estenderam no
cho com gemidos de cansao, largando o corpo na areia
e nas pedras speras, ficando ali deitados como mortos.
Um dos ltimos a ir para a terra firme foi Slagor, o capi-
to.
       Ele se deixou cair na praia. Sua barba e seu cabelo
estavam manchados e salpicados de branco do sal. Seus
olhos estavam vermelhos e tinham uma expresso assus-
tada. Ele e Erak se encararam. Estranhamente, eles no se
cumprimentaram com o gesto normal de braos entrela-
ados. Will sups que os dois homens no se gostassem
muito.
       -- O que voc est fazendo aqui nesta poca do
ano? -- Erak perguntou ao outro marinheiro.
       Desgostoso, Slagor balanou a cabea.
       -- Temos muita sorte de estar aqui. Dois dias de-
pois de sairmos de Hallasholm, a tempestade nos atingiu.
As ondas eram grandes como castelos, e o vento vinha
direto do polo. O mastro se quebrou na primeira hora e
no conseguimos solt-lo. Perdemos dois homens tentan-
do arranc-lo. Ento a ponta ficou batendo na linha de
gua e, antes que ns percebssemos, ela tinha feito um
buraco nas tbuas.
       Um dos compartimentos ficou inundado antes que
soubssemos o que estava acontecendo e tivemos vaza-
mentos em outros trs.
       Os navios, embora se parecessem com botes aber-
tos, na verdade eram muito resistentes para viagens no
mar. Em grande parte, isso se devia ao fato de que o pro-
jeto dividia os cascos em quatro compartimentos separa-
dos  prova de gua debaixo do convs principal e entre
as duas galerias inferiores onde se sentavam os remadores.
Era o poder de flutuao desses compartimentos que
mantinha os navios  tona mesmo quando eram atingidos
pelas ondas enormes que se agitavam no violento mar
Stormwhite.
       Will olhou para Erak. Ele viu que o robusto jarl es-
tava ouvindo as palavras de Slagor de cenho franzido.
       -- O que voc estava fazendo no mar, para come-
ar? -- Erak perguntou. -- Agora no  o momento de
tentar cruzar o Stormwhite.
       Slagor aceitou um copo de madeira com conhaque
oferecido por um dos homens de Erak. Em volta do pe-
queno porto, a tripulao do navio de Erak trazia bebidas
para os conterrneos exaustos e, em alguns casos, cuidava
de ferimentos evidentemente surgidos quando navio tinha
sido sacudido e agitado pela tempestade. Slagor no fez
nenhum gesto de agradecimento, e Erak fez cara feia. No-
vamente Will sentiu a animosidade existente entre os dois
capites. A atitude de Slagor foi agressiva at mesmo
quando descreveu seu infortnio, como se, de alguma
forma, a situao o deixasse na defensiva. Ele tomou o
conhaque num s gole e enxugou a boca com as costas da
mo antes de responder.
       -- O tempo estava claro em Hallasholm -- ele
contou resumidamente. -- Achei que teramos uma pausa
longa o suficiente para cruzar a rea de tempestades.
       Erak arregalou os olhos sem acreditar no que ouvia.
       -- Nesta poca do ano? Voc ficou louco?
       -- Pensei que amos conseguir -- Slagor repeliu
teimoso, e Will notou a expresso zangada de Erak.
       O jarl robusto baixou a voz para que os membros
da tripulao no ouvissem. Somente Will e Evanlyn o
escutaram.
       -- Maldito seja, Slagor -- ele disse amargo. -- Vo-
c estava tentando tomar a dianteira na estao de saques?
       -- E se estivesse? -- Slagor retrucou, olhando o
outro capito com raiva. -- Como capito, eu, e mais nin-
gum, tenho o direito de tomar essa deciso, Erak.
       -- E sua deciso custou a vida de dois homens --
Erak ressaltou. -- Dois homens que juraram obedec-las,
por mais tolas que fossem. Qualquer homem com mais de
cinco minutos de experincia saberia que  cedo demais
para fazer essa travessia!
       -- Houve uma calmaria! -- o outro homem dispa-
rou, e Erak grunhiu aborrecido.
       -- Uma calmaria! Sempre h uma calmaria! Elas
duram um ou dois dias. Mas isso no  suficiente para fa-
zer a travessia, e voc sabe disso. Maldito seja por sua ga-
nncia, Slagor!
       -- Voc no tem o direito de me julgar, Erak --
Slagor respondeu, levantando-se. -- Voc sabe que o ca-
pito  dono do seu navio. Como voc, sou livre para es-
colher quando e para onde vou.
       Ele falava mais alto do que Erak, e Will percebeu
que ele estava perdendo a pacincia.
       -- E estou lembrando que voc decidiu no se jun-
tar a ns na guerra que acabamos de lutar -- Erak repli-
cou num tom de zombaria. -- Voc se satisfez em ficar
sentado em casa e ento sair sorrateiramente e auferir lu-
cros fceis antes que outros capites estivessem prontos
para partir.
       -- A opo foi minha -- Slagor repetiu -- e muito
sbia, como ficou provado.
       A voz dele se transformou num sorriso cheio de
desprezo.
       -- Percebo que voc no teve exatamente um tre-
mendo sucesso em sua invaso, teve, jarl Erak?
       Com os olhos brilhantes de raiva, Erak se aproxi-
mou do outro homem.
       -- Veja como fala, seu ladro trapaceiro. Perdi
bons amigos ali.
       -- E mais do que amigos, ouvi falar -- Slagor res-
pondeu encorajado. -- Voc vai receber muitos agrade-
cimentos de Ragnak por deixar o filho dele para trs tam-
bm.
       -- Gronel foi capturado na batalha? -- Erak inda-
gou surpreso, dando um passo para trs.
       -- Capturado, no. Ouvi dizer que ele foi morto na
batalha de Thorntree. Alguns dos navios conseguiram vol-
tar para a Escandinvia antes que a tempestade comeasse
-- Slagor contou, balanando a cabea e sorrindo ao ver o
oponente perder a calma.
       Will olhou para cima depressa. Wolfwind, o navio
de Erak, tinha sido o ltimo a deixar a costa de Araluen. A
tripulao ainda estava esperando a volta de Erak, quando
os sobreviventes da expedio fracassada de Horth conse-
guiram retornar aos navios levando notcias sobre a derro-
ta e partindo. Mais tarde, Will ouviria a tripulao do
Wolfwind falar sobre a batalha de Thorntree. Dois arquei-
ros, um baixo e grisalho, e outro jovem e alto, tinham
conduzido as foras do rei que dizimaram o exrcito es-
candinavo quando marchou para se aproximar da fora
principal de Duncan pela retaguarda. De algum modo,
Will sabia, no fundo do corao, que estavam falando de
Halt e Gilan.
       -- Gronel era um bom homem -- Erak balanou a
cabea com tristeza. -- Sentiremos muito a falta dele.
       -- O pai dele tambm. Ele jurou aplicar um vallas-
vow contra Duncan.
       -- Isso no pode ser verdade -- Erak disse sem a-
creditar. -- Um vallasvow s  aplicado em caso de trai-
o ou assassinato.
       -- Ele  o oberjarl -- Slagor disse dando de om-
bros. Ele pode lazer o que bem entender. Agora, por pie-
dade, voc tem comida nessa ilha abandonada por Deus?
Nossas provises foram estragadas pela gua do mar.
       Erak, ainda distrado pelas notcias que tinha aca-
bado de ouvir, se deu conta da presena de Will e Evan-
lyn. Ele fez um sinal com a cabea na direo das cabanas.
       -- Acendam o fogo -- ordenou a eles. -- Esses
homens precisam de comida quente.
       Estava zangado por Slagor ter lhe lembrado de seu
dever. Ele podia no gostar do outro homem, mas sua
tripulao merecia ajuda e ateno depois de tudo o que
tinha passado. Ele empurrou Will com grosseria na dire-
o da cabana. O garoto cambaleou e comeou a correr
acompanhado de perto por Evanlyn.
       Will estava com uma sensao desagradvel na boca
do estmago. Ele no tinha ideia do que um vallasvow
poderia ser, mas sabia de uma coisa: de repente, manter a
identidade de Evanlyn em segredo tinha se tornado uma
questo de vida ou morte.
A estrada estava chegando perto do oceano, e os bosques
dos dois lados se aproximavam cada vez mais,  medida
que campos frteis e cultivados davam lugar ao terreno
coberto por florestas mais densas.
       Era o tipo de lugar em que viajantes tranquilos po-
diam temer bandidos, j que as rvores cerradas perto da
estrada davam ampla cobertura para uma emboscada.
Halt, contudo, no tinha esses receios. Na verdade, seu
estado de nimo estava to sombrio que ele teria recebido
bem uma tentativa de bandidos de lhe roubarem os pou-
cos pertences.
       Sua pesada faca de caa e a faca de atirar estavam 
mo debaixo da capa, e ele levava o arco preparado, apoi-
ado na parte mais alta da sela,  moda dos arqueiros. Uma
ponta de sua capa, especialmente feita para atender a esse
objetivo, formava uma dobra no ombro, deixando as ex-
tremidades adornadas de pena das duas dzias de flechas
na aljava prontas para serem apanhadas rapidamente. Di-
zia-se que todos os arqueiros levavam as vidas de 24 ho-
mens na aljava, to boa e mortal era sua habilidade com o
arco.
       Alm dessas armas visveis e do prprio instinto
muito apurado para pressentir o perigo, Halt tinha duas
outras vantagens, no to bvias, em relao a quaisquer
possveis atacantes. Os dois cavalos de arqueiros, Puxo e
Abelard, eram treinados para avisar discretamente a pre-
sena de estranhos. E naquele momento, enquanto Halt
cavalgava, as orelhas de Abelard estremeceram vrias ve-
zes e ele e Puxo viraram a cabea e resfolegaram.
       Halt estendeu a mo e acariciou o pescoo do cava-
lo com delicadeza.
       -- Bons garotos -- ele disse com suavidade para os
dois pequenos animais atarracados.
       Eles balanaram as orelhas, reconhecendo as pala-
vras. Para qualquer observador, o cavaleiro oculto debaixo
da capa estava apenas acalmando sua montaria, uma atitu-
de perfeitamente normal. Na verdade, seus sentidos ti-
nham sido aguados e sua mente trabalhava a toda veloci-
dade. Ele falou novamente, apenas uma palavra.
       -- Onde?
       Abelard inclinou a cabea levemente para a esquer-
da, apontando para um arvoredo mais prximo da estrada
do que os demais, a uns 50 metros de distncia. Halt o-
lhou rapidamente sobre o ombro e percebeu que Puxo,
que trotava calmamente atrs dele, estava olhando na
mesma direo. Os dois cavalos tinham percebido a pre-
sena de um ou mais estranhos nas rvores. E ento Halt
falou novamente.
       --  vontade.
       E os dois cavalos, sabendo que o aviso tinha sido
recebido e o lugar notado, viraram as cabeas para a estra-
da. Era esse tipo de habilidade especial que dava aos ar-
queiros uma tremenda capacidade de sobreviver e prever
problemas.
       Ainda fingindo ignorar totalmente a presena de
qualquer pessoa nas rvores, Halt continuou cavalgando
no mesmo ritmo tranquilo. Ele sorriu tristemente para si
mesmo ao pensar no fato de que os cavalos s podiam lhe
dizer que havia algum ali. Eles no podiam prever suas
intenes ou se era ou no um inimigo.
       Ele pensou que fazer isso seria, realmente, um po-
der sobrenatural.
       Ele j estava a 40 metros das rvores. Havia umas
seis delas, frondosas e cercadas por vrios arbustos. Elas
ofereciam uma cobertura perfeita para uma emboscada.
Ou, ele raciocinou, para algum que quisesse simplesmen-
te se proteger da chuva fina que vinha caindo pelas lti-
mas 10 horas. Debaixo do capuz, escondidos e invisveis
para qualquer observador, os olhos de Halt disparavam e
examinavam o esconderijo denso. Abelard, mais perto do
perigo em potencial, soltou um grunhido rouco. O som
quase no podia ser ouvido e foi encarado por seu cavalei-
ro mais como uma vibrao no peito largo do animal do
que qualquer outra coisa. Halt lhe deu um cutuco com o
joelho.
       -- Eu sei -- ele murmurou, sabendo que a sombra
do capuz esconderia qualquer movimento de seus lbios.
       Halt decidiu que aquela distncia era suficiente. O
arco lhe dava vantagem contanto que ficasse a distncia.
Ele puxou as rdeas de leve e Abelard parou, enquanto
Puxo deu mais um passo antes de parar tambm.
       Com um movimento tranquilo e desembaraado,
Halt pegou uma flecha da aljava e a ajeitou na corda do
arco. Ele no tentou atirar. Anos de prtica constante o
tornaram capaz de pegar o arco, mirar, atirar e atingir o
alvo um piscar de olhos.
       -- Eu gostaria de ver voc abertamente -- ele disse
em voz alta. Houve um momento de hesitao e ento um
vulto robusto, montado num cavalo, saiu do meio das r-
vores e parou na beira da estrada.
       Halt constatou que se tratava de um guerreiro, ao
notar o brilho opaco da malha de ferro nos braos e em
volta do pescoo. Ele tambm usava uma capa para se
proteger da chuva. Um capacete de ao cnico e simples
estava pendurado na sela e um escudo redondo e sem bra-
so pendia de suas costas. Halt no viu sinal de espada ou
outra arma, mas sabia que elas normalmente eram carre-
gadas do lado esquerdo, o lado que no via bem. Era se-
guro supor que o cavaleiro estaria carregando algum tipo
de arma. Afinal, no havia sentido em usar meia armadura
e no estar armado.
       O vulto, porm lhe lembrava algum. Um momen-
to mais e Halt reconheceu o cavaleiro. Ele relaxou, reco-
locando a flecha na aljava com o mesmo movimento sua-
ve e experiente.
       Ele fez que Abelard fosse para a frente e se apro-
ximou para cumprimentar o outro cavaleiro.
       -- O que voc est fazendo aqui? -- ele perguntou,
j com uma boa ideia de qual poderia ser a resposta.
       -- Vou com voc -- Horace comunicou, confir-
mando a desconfiana de Halt. -- Voc vai procurar Will
e quero acompanhar voc.
       -- Entendo -- Halt disse, puxando as rdeas en-
quanto emparelhava o cavalo com o do rapaz.
       Horace era um garoto grande, e seu cavalo de bata-
lha era muitos palmos mais alto do que Abelard. O arquei-
ro teve que olhar para cima para falar com o jovem e no-
tou a expresso determinada do rapaz.
       -- E o que voc acha que seu mestre vai dizer so-
bre isso quando descobrir?
       -- Sir Rodney? -- Horace disse dando de ombros.
-- Ele j sabe. Eu disse que estava indo embora.
       Halt inclinou a cabea um tanto surpreso. Ele tinha
imaginado que Horace fosse simplesmente fugir em sua
tentativa de se juntar a ele. Mas o guerreiro aprendiz era
um tipo franco e no estava acostumado a enganar ou u-
sar subterfgios. Ele se deu conta de que o carter de Ho-
race no lhe permitia simplesmente fugir.
       -- E como ele recebeu essa importante notcia?
        Horace franziu a testa sem compreender.
        -- Como? -- ele perguntou indeciso, e Halt suspi-
rou baixinho.
        -- O que ele disse quando voc contou pra ele?
Suponho que tenha dado um safano na sua orelha...
        Rodney no era conhecido por sua tolerncia com
aprendizes desobedientes. Ele tinha um temperamento
irritadio e os garotos da escola de Guerra muitas vezes
sentiam sua fora na prpria pele.
        -- No -- Horace respondeu imperturbvel. --
Ele disse para lhe entregar uma mensagem.
        -- E qual  essa mensagem? -- Halt tornou, balan-
ando a cabea intrigado, notando que Horace se mexeu
na sela pouco  vontade antes de responder.
        -- Ele disse "boa sorte" -- o garoto declarou fi-
nalmente. -- E ele disse para lhe falar que vim com a a-
provao dele... extraoficialmente,  claro.
        --  claro -- Halt respondeu conseguindo escon-
der a surpresa que sentia diante desse inesperado gesto de
apoio vindo do comandante da Escola de Guerra. -- Ele
dificilmente poderia lhe dar aprovao oficial para fugir
com um criminoso banido, poderia?
        -- Acho que no -- Horace respondeu depois de
pensar no assunto. -- Ento, vai deixar que eu v com
voc?
        -- Claro que no -- ele disse rispidamente, balan-
ando a cabea. -- No tenho tempo para cuidar de voc
em todos os lugares.
       O rosto do garoto ficou vermelho de raiva diante
do tom de rejeio de Halt.
       -- Sir Rodney tambm disse para lhe informar que
uma espada poderia ser til para proteger voc em suas
viagens -- ele ajuntou.
       Halt olhou para o garoto alto com cuidado enquan-
to falava.
       -- Foi isso exatamente o que ele falou? -- ele per-
guntou, e Horace negou com a cabea.
       -- No exatamente.
       -- Ento me conte exatamente o que ele disse --
Halt pediu.
       -- Suas exatas palavras foram: "Uma boa espada
poderia ser til para proteg-lo".
       -- A quem ele se referia? -- Halt devolveu, escon-
dendo um sorriso.
       Horace se ajeitou no cavalo, corando furiosamente,
e no respondeu. Aquela era a melhor resposta que ele
poderia ter dado. Halt o examinava com cuidado. Ele no
estava desconsiderando a recomendao de Rodney e sa-
bia que o garoto tinha coragem de sobra. Ele tinha prova-
do isso ao desafiar Morgarath para um combate direto nas
Plancies de Uthal.
       Mas havia a possibilidade de ele ter se tornado or-
gulhoso e superconfiante. De que adulao e elogios de-
mais tivessem lhe subido  cabea. Entretanto, se esse fos-
se o caso, ele teria respondido a pergunta sarcstica de
Hall de imediato. O fato de no ter respondido, mas sim-
plesmente ter permanecido parado na sua frente com a
expresso determinada dizia muito sobre seu carter. "
estranho como eles se transformam", Halt pensou. Ele se
lembrava de Horace como um menino um tanto valento
quando mais jovem. Era evidente que a disciplina da Es-
cola de Guerra e alguns anos de maturidade tinham pro-
vocado certas mudanas interessantes.
        Ele analisou o garoto mais uma vez. Para falar a
verdade, seria bom ter um companheiro. Ele tinha recusa-
do Gilan porque sabia que o outro arqueiro era necessrio
em Araluen. Mas com Horace a questo era diferente. Seu
mestre de ofcio tinha lhe dado permisso, extraoficial-
mente, e Horace era um espadachim bastante competente,
leal e confivel tambm.
        E, alm disso, Halt tinha que admitir que, como
Will tinha sido capturado, ele sentia falta de algum mais
novo ao seu lado. Ele sentia falta do entusiasmo e da ansi-
edade que acompanhava os jovens. E, por incrvel que
parecesse, ele at sentia falta das interminveis perguntas
que vinham com eles tambm.
        Ele notou que Horace o olhava ansiosamente. O
garoto estava esperando uma deciso e, at aquele mo-
mento, no tinha recebido nada mais do que uma pergun-
ta irnica de Halt sobre a "boa espada" sugerida por sir
Rodney. Ele soltou um suspiro profundo e deixou uma
carranca zangada cobrir seu rosto.
        -- Voc vai me bombardear com perguntas dia e
noite?
       Horace deixou os ombros carem com esse tom de
voz e ento, de repente, compreendeu o significado dessas
palavras. Seu rosto ficou radiante e ele levantou os om-
bros novamente.
       -- Voc quer dizer que vai aceitar minha compa-
nhia? -- ele indagou num tom de voz que o entusiasmo
deixou muito mais agudo do que pretendia.
       Halt olhou para baixo e ajeitou uma ala da sacola
pendurada na sela que no precisava de ajuste nenhum.
De nada serviria se o garoto visse o leve sorriso que en-
crespava seu rosto cansado.
       -- Parece que no tenho escolha -- ele disse com
relutncia. -- Dificilmente voc pode voltar para sir Rod-
ney agora que fugiu, no  mesmo?
       -- No, no posso! Quer dizer... isso  maravilho!
Obrigado, Halt! Voc no vai se arrepender, juro!  que
eu prometi para mim mesmo que eu encontraria Will e
que ajudaria a resgat-lo.
       O menino estava praticamente gaguejando por cau-
sa do prazer de ser aceito. Halt cutucou Abelard com o
joelho e comeou a cavalgar, seguido tranquilamente por
Puxo. Horace deu impulso para seu cavalo de batalha
acompanhar Halt e continuou a derramar palavras de a-
gradecimento.
       -- Eu sabia que voc iria atrs dele, Halt. Eu sabia
que foi por isso que fingiu estar zangado com o rei Dun-
can! Ningum em Redmont acreditou quando ouviu o que
tinha acontecido, mas eu sabia que assim voc poderia ir e
resgatar Will dos escandinavos...
       -- Chega! -- Halt disse finalmente, levantando a
mo para impedir o fluxo de palavras, o que fez Horace
parar no meio da sentena e curvar a cabea num gesto de
desculpas.
       -- Sim, claro. Desculpe. Nem mais uma palavra --
ele disse.
       -- Assim  melhor -- Halt assentiu agradecido.
       Corrigido, Horace cavalgou em silncio ao lado do
novo mestre, enquanto se dirigiam para a costa leste. Eles
tinham percorrido outros 100 metros quando ele final-
mente no aguentou mais.
       -- Onde vamos encontrar um navio? -- ele quis
saber. -- Vamos navegar diretamente para a Escandinvia
atrs dos piratas. Podemos atravessar o mar nesta poca
do ano?
       Halt se virou na sela e jogou um olhar furioso para
o jovem rapaz.
       -- Estou vendo que j comeou -- ele disse irrita-
do.
       Mas, dentro do peito, seu corao estava leve como
h semanas no sentia.
A   chegada inesperada da embarcao de Slagor, Wolf
Fang, tornou a vida em Skorghijl ainda mais desagradvel.
       Por causa do espao limitado, as condies de vida
estavam agora piores do que antes, com duas tripulaes
amontoadas no local destinado para s uma. E com o ex-
cesso de pessoas vieram as brigas. Os escandinavos no
estavam acostumados a longas horas de inatividade, ento
enchiam o tempo bebendo e jogando: uma receita quase
certa para problemas. Quando s os membros de uma
tripulao estavam envolvidos, os desentendimentos que
surgiam geralmente eram resolvidos e esquecidos rapida-
mente. Mas a lealdade dos dois grupos incendiava a situa-
o de modo que as discusses se inflamavam, a pacincia
se perdia e, s vezes, armas eram empunhadas antes que
Erak pudesse intervir.
       "Percebe-se", Will pensou, "que Slagor nunca le-
vanta a voz para parar as brigas". Quanto mais observava
o capito do Wolf Fang, mais ele compreendia que o ho-
mem tinha pouca autoridade real e impunha muito pouco
respeito aos outros escandinavos. A prpria tripulao
trabalhava por dinheiro, e no por um sentimento de leal-
dade.
       Naturalmente, havia duas vezes mais trabalho para
Will e Evanlyn. As tarefas de cozinhar, servir e limpar ti-
nham dobrado e havia o dobro de escandinavos que exigi-
am que eles fizessem todos os servios que achassem ne-
cessrios. Mas, pelo menos, eles tinham conservado seu
espao. A varanda era pequena demais para que qualquer
um dos imensos escandinavos sequer pensasse em solici-
t-la para uso prprio. Will pensou que essa era uma das
compensaes por terem sido capturados por gigantes.
       Mas no eram somente as brigas e o trabalho extra
que tinham tornado a vida de Will e Evanlyn insuportvel.
As informaes sobre o misterioso vallasvow feito por
Ragnak tinham sido devastadoras para a princesa. A vida
dela agora corria risco e o menor erro, a menor palavra
descuidada de qualquer um deles poderia significar a mor-
te dela. Ela pediu a Will para ser cuidadoso, para continuar
a trat-la como uma igual, como sempre tinha feito antes
de conhecer sua verdadeira identidade. O menor sinal de
deferncia da parte dele, o menor gesto de respeito pode-
ria muito bem levantar suspeitas e representar o fim para
ela.
       Naturalmente, Will garantiu a ela que guardaria seu
segredo. Ele treinou para nunca pensar nela como Cas-
sandra e sempre usar o nome de Evanlyn, mesmo em
pensamento. Mas, quanto mais ele tentava evitar o nome,
mais ele parecia querer saltar para sua lngua, sem convite.
Ele vivia constantemente apavorado de que pudesse tra-la
inadvertidamente.
        O clima desagradvel entre eles, provocado pelo
tdio e pela frustrao, alm de outras coisas, tinha desa-
parecido diante desse novo perigo muito real. Eles eram
amigos e aliados outra vez e sua determinao em se aju-
dar e apoiar mutuamente recuperou a fora e a convico
que tinham experimentado no curto tempo que passaram
juntos em Cltica.
         verdade que o plano de Evanlyn de ser resgatada
tinha ido totalmente por gua abaixo. Ela nunca poderia
se revelar para um homem que tinha jurado matar todos
os membros de sua famlia Compreender esse fato, alm
da obrigao de realizar tarefas domsticas e desagrad-
veis, tinha tornado a sua vida em Skorghijl horrvel. O -
nico ponto luminoso em seus dias era Will, sempre alegre,
sempre otimista, sempre encorajador. Ela percebeu como
ele assumia discretamente os trabalhos piores e mais sujos,
sempre que possvel, e se sentia agradecida por isso. Ela se
sentia envergonhada ao relembrar como o tinha tratado
alguns dias antes. Mas quando tentou se desculpar, e ela
era franca o bastante para admitir que tinha errado, ele
apenas riu.
        -- Todos ns estamos um pouco amalucados --
ele disse. -- Quanto antes fugirmos, melhor.
        Ele ainda planejava escapar, e ela compreendeu que
tinha que acompanh-lo. Ela sabia que Will tinha algo em
mente, mas ele estava trabalhando em seu plano e, por
enquanto no tinha lhe contado os detalhes.
       Naquele momento, o jantar tinha terminado e havia
uma pilha enorme de pratos, colheres e canecas de madei-
ra para lavar na gua do mar e no cascalho fino na beira da
praia. Suspirando, Evanlyn se inclinou para peg-las. Ela
estava exausta e quase no aguentava lembrar que teria
que se agachar na altura dos tornozelos na gua fria para
esfregar a gordura.
       -- Eu lavo isso -- Will ofereceu em voz baixa.
       Ele olhou  sua volta para se certificar que nenhum
dos escandinavos estava olhando e ento pegou o saco
pesado das mos dela.
       -- No -- ela protestou. -- No  justo...
       Mas ele levantou a mo para interromp-la.
       -- De qualquer jeito, tem uma coisa que preciso
verificar. E isso vai ser um bom disfarce -- ele disse. --
Alm disso, voc teve uns dias difceis. V e descanse um
pouco -- ele sugeriu sorrindo. -- Se isso a fizer se sentir
melhor, amanh vai ter muita loua para lavar. E no dia
seguinte. E voc pode cuidar dela enquanto eu vou para l
sem que ningum perceba.
       Evanlyn lhe deu um sorriso cansado e tocou sua
mo num gesto de gratido. Pensar em se estender na ca-
ma dura, sem fazer nada, era quase bom demais para ser
verdade.
       -- Obrigada -- ela disse simplesmente.
        O sorriso de Will se alargou e ela soube que ele ti-
nha ficado verdadeiramente satisfeito de o relacionamento
entre os dois ter voltado ao normal.
        -- Pelo menos, os nossos anfitries comem com
entusiasmo -- ele comentou contente. -- Eles no dei-
xam muita coisa no prato.
        Ele pendurou o saco e seu contedo barulhento no
ombro e foi at a praia. Sorrindo para si mesma, Evanlyn
se inclinou e entrou na varanda.
        Jarl Erak saiu da confuso barulhenta e cheia de
fumaa que havia na cabana e deixou que o ar frio do mar
entrasse em seus pulmes. A vida na ilha estava deixando-
o deprimido, principalmente pelo fato de Slagor no ten-
tar manter a disciplina. "O homem  um bbado intil",
Erak pensou zangado. E ele no era um guerreiro: todos
sabiam que escolhia apenas alvos mal vigiados para suas
invases e nunca participava da luta. Erak tinha sido obri-
gado a intervir na briga entre um de seus homens e um
membro da tripulao de criminosos do Wolf Fang. O
homem de Slagor estava usando dados viciados e, quando
foi questionado, tentou atacar o oponente com a faca de
caa.
        Erak interveio e derrubou o marinheiro do Wolf
Fang com um soco poderoso. Ento, para mostrar que
estava sendo imparcial, foi obrigado a derrubar seu pr-
prio tripulante.
       "Imparcial, ao estilo dos escandinavos", ele pensou
cansado. Um gancho de esquerda e uma cruzada de direi-
ta.
       Ele ouviu o ranger de passos no cascalho da praia e
viu um vulto escuro se dirigindo para a beira da gua. Ele
franziu a testa pensativo. Era o garoto de Araluen.
       Furtivamente, comeou a seguir o menino. Ele ou-
viu o bater de pratos e canecas sendo derrubadas na ria e
ento o barulho da escova. "Talvez ele esteja apenas la-
vando a loua", pensou. "Talvez no." Andando com cui-
dado, chegou mais perto.
       A ideia de se aproximar sorrateiramente no se
comparava exatamente aos padres dos arqueiros. Will
estava esfregando os pratos quando ouviu a aproximao
do escandinavo grandalho. Ou era isso, ou um leo-
marinho estava se arrastando nos pedregulhos.
       Virando-se para olhar, reconheceu o vulto robusto
de Erak, que parecia ainda maior na escurido por causa
do casaco de pele de urso que usava para se proteger do
vento frio e cortante. Hesitante, Will comeou a se levan-
tar, mas o jarl acenou para que ficasse onde estava.
       -- Continue seu trabalho -- ele disse irritado.
       Will continuou a esfregar, espiando o lder dos es-
candinavos com o canto do olho ao mesmo tempo em
que olhava o ancoradouro e sentia o cheiro de tempestade
no ar.
       -- L dentro cheira mal -- Erak resmungou final-
mente.
        -- Pessoas demais num espao muito pequeno --
Will arriscou, de olhos baixos e esfregando um prato.
        Erak o interessava. Ele era um homem duro e um
lutador implacvel, mas no era realmente cruel. s vezes,
de um jeito spero, conseguia parecer quase simptico.
        Erak, por sua vez, analisava Will. O que ele preten-
dia? Provavelmente estava tentando descobrir uma forma
de escapar. Era isso o que faria no lugar do garoto. O a-
prendiz de arqueiro era esperto e habilidoso e tambm
determinado. Erak tinha reparado em como ele insistia em
manter seu programa de exerccios estafante correndo pe-
la praia, fizesse sol ou chuva.
        Novamente, ele sentiu uma onda de respeito pelo
aprendiz de arqueiro. E pela garota. Ela tambm tinha
mostrado muita coragem.
        Pensar na menina o fez franzir a testa. Cedo ou tar-
de, haveria problemas em relao a ela. Principalmente
com Slagor e seus homens. A tripulao do Wolf Fang era
uma turma deplorvel: na maioria, prisioneiros, crimino-
sos de menor importncia. Bons tripulantes no se dispu-
nham a trabalhar com Slagor.
        "Bem", ele pensou filosoficamente, "se isso acon-
tecer, vou ter que bater algumas cabeas umas nas outras".
Ele no iria permitir que sua autoridade fosse desafiada
por uma turba como os homens de Slagor. Os dois escra-
vos lhe pertenciam. Eles seriam seu nico lucro nessa via-
gem desastrosa para Araluen e, se algum tentasse machu-
car qualquer um deles, teria que se ver com ele. Enquanto
pensava nisso, tentou dizer a si mesmo que estava apenas
protegendo seu investimento. Mas ele no tinha certeza de
que isso era totalmente verdadeiro.
       -- Jarl Erak? -- o garoto chamou na escurido
com incerteza na voz, j que no sabia se deveria fazer
perguntas ao lder escandinavo.
       Erak grunhiu. O som foi neutro, mas Will o enten-
deu como uma permisso para continuar.
       -- O que  o vallasvow de que jarl Slagor falou? --
ele quis saber tentando parecer casual.
       Erak franziu a testa quando ouviu o ttulo.
       -- Slagor no  um "jarl" -- ele corrigiu. -- Ele 
apenas um skirl, o capito de um navio.
       -- Desculpe -- Will retrucou com humildade.
       Deixar Erak zangado era a ltima coisa que queria.
Era bvio que, ao se referir a Slagor como seu igual, Will
tinha se arriscado a isso. Ele hesitou, mas o aborrecimento
de Erak parecia ter diminudo, ento ele tornou a pergun-
tar.
       -- E o vallasvow? -- ele insistiu.
       Erak arrotou baixinho e se inclinou para o lado pa-
ra poder coar as costas. Ele tinha certeza de que a tripu-
lao de Slagor tinha trazido pulgas para a cabana. Aquele
era um desconforto que no tinham tido que suportar at
aquele momento. Frio, umidade, fumaa e mau cheiro. E
agora todos podiam acrescentar pulgas. Ele desejou, no
pela primeira vez, que o navio de Slagor tivesse naufraga-
do no mar de Stormwhite.
       --  um juramento -- ele comeou de m vontade
-- feito por Ragnak. No que ele tivesse algum motivo --
acrescentou. -- Voc no irrita os Vallas por bobagens.
No se voc tem bom senso.
       -- Os Vallas? -- Will perguntou. -- Quem so e-
les?
       Erak olhou para o vulto agachado abaixo dele e ba-
lanou a cabea espantado. Como o povo de Araluen era
ignorante!
       -- Nunca ouviu falar dos Vallas? O que eles ensi-
nam  vocs naquela pequena ilha mida onde vocs mo-
ram? -- ele indagou.
       Will, sabiamente, no respondeu. Houve alguns
momentos de silncio e ento Erak continuou.
       -- Os Vallas, garoto, so os trs deuses da vingan-
a. Eles tomam a forma de um tubaro, um urso e um
urubu.
       Ele fez uma pausa para ver se Will tinha entendido.
O menino achou que agora deveria fazer algum coment-
rio.
       -- Entendo -- ele disse devagar. Erak grunhiu
num gesto de zombaria.
       -- Tenho certeza de que no entendeu. Ningum
que tenha algum bom senso vai querer ver os Vallas. Nin-
gum que no esteja louco pensa em fazer um juramento
para eles.
        -- Ento um vallasvow  um juramento de vingan-
a? -- Will perguntou depois de pensar um pouco, e Erak
assentiu.
        -- Vingana total -- ele respondeu. --  quando
se odeia tanto algum que se promete vingana, no ape-
nas para a pessoa que fez mal para voc, mas para todos
os membros de sua famlia tambm.
        -- Todos os membros? -- Will se espantou.
        Por um momento, Erak se perguntou se havia al-
gum motivo para esse tipo de pergunta. Mas ele no con-
seguia entender como aquelas informaes poderiam aju-
dar numa tentativa de fuga e ento continuou.
        -- At o ltimo -- ele contou. --  um juramento
de morte,  claro, e no pode ser quebrado. Se a pessoa
que fez o juramento mudar de ideia, os Vallas tomaro a
ela e sua famlia em vez das vtimas originais. Eles no so
do tipo de deuses com quem voc gostaria de lidar, acredi-
te em mim.
        Novamente, um breve silncio. Will se perguntou
se ele tinha feito perguntas suficientes e decidiu que pode-
ria continuar mais um pouco.
        -- Ento, se eles so to terrveis, por que Rag-
nak...? -- ele comeou, mas Erak o interrompeu.
        -- Porque ele  louco! -- ele disparou. -- Eu lhe
disse, somente um louco faria um juramento para os Val-
las! Ragnak nunca foi muito bom da cabea... e agora 
evidente que a perda do filho o fez perder a razo de vez.
       Erak fez um gesto de desagrado. Ele parecia estar
cansado de falar sobre Ragnak e os assustadores Vallas.
       -- Apenas fique agradecido por no pertencer 
famlia de Duncan, garoto. Ou de Ragnak.
       Ele se virou para ver a luz do fogo que aparecia en-
tre as vrias frestas e aberturas nas paredes da cabana, jo-
gando desenhos estranhos e alongados de luz no cascalho
molhado.
       -- Agora, volte ao trabalho -- ele mandou zangado
e voltou para o calor e o mau cheiro da cabana.
       Enquanto mergulhava lentamente o ltimo prato na
gua fria do mar, Will observou Erak.
       -- Ns precisamos muito sair daqui -- ele disse
baixinho para si mesmo.
Havia tanta coisa para ver e ouvir que Horace no sabia
para que lado devia virar a cabea em primeiro lugar.
       Em toda a sua volta, a cidade porturia de La Riva-
ge fervilhava de vida. As docas estavam lotadas de embar-
caes; simples barcos pesqueiros e navios de dois mas-
tros estavam ancorados lado a lado e criavam uma floresta
de mastros e adrias que pareciam se estender at onde a
vista alcanava. Os ouvidos do garoto zumbiam com os
gritos agudos das gaivotas que brigavam umas com as ou-
tras pelos restos jogados no porto pelos marinheiros que
limpavam os peixes apanhados. Os navios, grandes e pe-
quenos, subiam e desciam e balanavam com as leves on-
das dentro do porto, que nunca ficava imvel um instante
sequer. Atrs das vozes agudas das gaivotas, havia os
constantes chiados e grunhidos de centenas de cercas de
vime que protegiam os cascos.
       As narinas de Horace se encheram com o cheiro de
fumaa e o aroma de comida, mas era um cheiro diferente
das refeies simples que se preparavam no Castelo Red-
mont. Ali o aroma tinha um toque especial, algo extico,
estimulante e estranho.
        Ele pensou que isso seria de esperar, j que estava
pondo os ps num pas estrangeiro pela primeira vez na
sua jovem vida. Ele tinha viajado para Cltica,  verdade,
mas isso no contava. Cltica era apenas um prolonga-
mento de Araluen. Aquele lugar era totalmente diferente.
Ao seu redor, as vozes se levantavam, zangadas ou diver-
tidas, rindo, chamando e insultando uns aos outros. E ele
no conseguia entender uma s palavra daquele idioma
estranho.
        Ele estava parado no cais onde tinham aportado,
segurando as rdeas dos trs cavalos enquanto Halt paga-
va o dono do pequeno e pesado cargueiro que os tinha
transportado pelo Mar Estreito -- com uma carga mal-
cheirosa de peles destinadas aos curtumes de Glica. De-
pois de quatro dias muito prximo das pilhas enrijecidas
de peles de animais, Horace se viu imaginando se conse-
guiria voltar a usar qualquer coisa feita de couro.
        Uma mo puxou seu cinto, e ele se virou espanta-
do.
        Uma velha curvada e enrugada estava sorrindo para
ele, mostrando as gengivas sem dentes e estendendo a
mo.
        As roupas estavam em farrapos, e a cabea envolvi-
da numa bandana que talvez tivesse sido colorida, mas
naquele momento estava to suja que no se podia ter cer-
teza. Ela disse algo na lngua local, e tudo o que ele pde
fazer foi dar de ombros. Ele no tinha mesmo dinheiro e
estava claro que a mulher era uma mendiga.
        O sorriso obsequioso se transformou numa careta
feia e ela disparou algumas palavras irritadas para eles.
Mesmo sem conhecer o idioma, ele soube que no era um
cumprimento. Em seguida, ela se virou e saiu mancando,
fazendo um estranho gesto em cruz no ar entre eles. Ho-
race balanou a cabea sem saber o que fazer.
        Uma gargalhada o distraiu, ele se virou e viu trs
garotas jovens, talvez uns poucos anos mais novas do que
ele, que tinham testemunhado a conversa entre ele e a ve-
lha mulher. Sem se conter, ele as admirou de boca aberta.
As meninas, todas muito atraentes, estavam vestidas com
trajes que s poderiam ser descritos como excessivamente
pequenos. Uma delas usava uma saia to curta que termi-
nava bem acima dos joelhos.
        As meninas gesticularam para ele novamente, imi-
tando a sua expresso de espanto. Rapidamente, ele fe-
chou a boca e elas riram ainda mais alto. Uma delas disse
algo para ele, chamando-o. Ele no entendeu uma palavra
do que ela disse e, sentindo-se ignorante e estranho, per-
cebeu que suas faces estavam muito vermelhas.
        E tudo isso fez as garotas rirem com mais vontade.
Elas levantaram as mos at os prprios rostos, imitando
o seu rubor e tagarelando umas com as outras em sua ln-
gua estranha.
        -- Parece que voc j est fazendo amigos -- Halt
disse atrs dele, e ele se virou com ar de culpa.
        O arqueiro, Horace nunca conseguia pensar nele de
modo diferente, estava olhando para ele e as trs garotas
com um qu divertido no olhar.
        -- Voc fala essa lngua, Halt? -- ele perguntou.
        Era estranho, mas ele no estava surpreso com esse
fato. Ele sempre tinha imaginado que os arqueiros eram
dotados de uma ampla variedade de habilidades misterio-
sas e, at ali, os acontecimentos tinham provado que isso
era verdade. Seu companheiro assentiu.
        -- O bastante para me virar -- ele respondeu com
calma. Horace fez um gesto o mais discreto possvel na
direo das meninas.
        -- O que elas esto dizendo? -- ele quis saber.
        O arqueiro assumiu a expresso vazia que Horace
estava aprendendo a conhecer to bem.
        -- Talvez seja melhor voc no saber -- Halt res-
pondeu por fim. Horace concordou, sem realmente com-
preender, mas no querendo parecer mais bobo do que se
sentia.
        -- Talvez -- ele concordou.
        Halt estava saltando com facilidade para a sela de
Abelard e Horace o imitou, montando Kicker, seu cavalo
de batalha. O movimento provocou um coro de exclama-
es admiradas das meninas. Ele sentiu o rosto ficar ver-
melho de novo. Halt olhou para ele de um jeito que pare-
cia pena misturada com divertimento. Balanando a cabe-
a, ele fez o cavalo se afastar do cais pela rua lotada e es-
treita nas margens da gua.
       Montado, Horace sentiu a onda habitual de confi-
ana que sentia ao montar no lombo de um cavalo. E com
ela veio a sensao de igualdade em relao queles es-
trangeiros apressados e tagarelas. Agora, parecia que nin-
gum estava correndo para se divertir s custas dele, pe-
dir-lhe esmolas ou disparar insultos em seu rosto. Havia
um respeito natural das pessoas que andavam a p em re-
lao a homens montados e armados. Sempre tinha sido
dessa maneira em Araluen, mas parecia que em Glica a
vantagem era ainda maior. As pessoas ali se moviam com
mais entusiasmo para abrir caminho para os dois cavalei-
ros e o pequeno cavalo robusto de carga que os seguia.
       Ocorreu a Horace que talvez as leis no fossem to
imparciais em Glica como em sua terra natal. Em Aralu-
en, os pedestres davam lugar a homens montados por
uma questo de bom senso. Ali eles pareciam apreensivos
e at temerosos. Ele ia perguntar a Halt sobre a diferena
e tinha at respirado fundo para comear a falar quando se
interrompeu. Halt o censurava constantemente por causa
de suas perguntas e, decidido a controlar a curiosidade,
resolveu falar no assunto quando parassem para a refeio
do meio-dia.
       Satisfeito com a deciso, acenou com a cabea para
si mesmo. Ento outro pensamento lhe ocorreu e, antes
que pudesse impedir, tinha comeado a fazer outra per-
gunta.
       -- Halt? -- ele chamou tmido.
       Ele ouviu um suspiro profundo vindo do homem
baixo e magro que cavalgava a seu lado. Mentalmente, deu
um chute em si mesmo.
       -- Pensei que voc estava doente -- Halt disse s-
rio. -- No se passaram mais de 2 ou 3 minutos desde
que voc me fez uma pergunta.
       Decidido, Horace continuou.
       -- Uma daquelas meninas... -- ele comeou e ime-
diatamente sentiu os olhos do arqueiro sobre ele. -- ...
estava usando uma saia muito curta.
       Houve uma pausa muito breve.
       -- Sim? -- Halt replicou sem ter certeza do rumo
que a conversa ia tomar.
       Horace deu de ombros, pouco  vontade. A lem-
brana da menina e de suas pernas bem feitas fez suas fa-
ces corarem de constrangimento novamente.
       -- Bem -- ele continuou hesitante. -- Eu s me
perguntei se isso  normal, isso  tudo.
       Halt analisou o jovem rosto srio ao seu lado. Ele
pigarreou vrias vezes.
       -- Acho que s vezes as meninas de Glica aceitam
emprego como mensageiras -- ele contou.
       -- Mensageiras? -- Horace repetiu com a testa
franzida. Mensageiras. Elas levam mensagens de uma pes-
soa para outra.
       Ou de uma oficina para outra nas cidades e vilas --
Halt verificou se Horace dava a impresso de estar acredi-
tando nele. Parecia no haver motivos para pensar de ou-
tra forma. -- Mensagens urgentes -- ele acrescentou.
       Mensagens urgentes -- Horace repetiu, ainda sem
entender a ligao.
       Mas ele parecia inclinado a acreditar no que Halt
lhe dizia, de modo que o homem mais velho continuou.
       -- E eu acho que, quando a mensagem  realmente
muito urgente,  preciso correr.
       Ento ele viu um brilho de compreenso nos olhos
do garoto. Horace assentiu vrias vezes quando finalmen-
te ligou os fatos.
       Ento, as saias curtas... servem para ajudar as meni-
nas a correrem com mais facilidade? -- ele indagou, e
Halt assentiu.
       -- Certamente  um traje mais adequado do que
saias compridas, se voc precisa correr muito.
       Ele lanou um olhar rpido para Horace para ver se
a brincadeira no iria se voltar contra ele: na verdade, para
verificar se o garoto tinha percebido que Halt estava fa-
lando bobagens e simplesmente pregando uma pea nele.
Contudo, a expresso de Horace se mostrava aberta e cr-
dula.
       Acho que sim -- Horace respondeu finalmente. --
E elas tambm ficam muito mais bonitas desse jeito -- ele
acrescentou em voz baixa.
       Halt olhou para ele de novo, mas Horace parecia
estar contente com a resposta. Por um momento, Halt se
arrependeu de sua artimanha e sentiu uma ponta de culpa.
Afinal, Horace era uma pessoa que confiava totalmente
nele, por isso era fcil brincar com ele dessa forma. Ento
o arqueiro olhou para aqueles lmpidos olhos azuis e para
o rosto honesto e satisfeito do aprendiz de guerreiro e
afastou qualquer sentimento de arrependimento. Horace
tinha muito tempo para aprender sobre o lado mais desa-
gradvel da vida. Ele podia conservar a inocncia por um
pouco mais de tempo.
       Eles deixaram La Rivage pelo porto norte e se di-
rigiram para as fazendas que a cercavam. A curiosidade de
Horace continuou forte como sempre, e ele olhava de um
lado para outro, enquanto a estrada os levava pelos cam-
pos, plantaes e casas. O interior era diferente em Aralu-
en. Ali havia diferentes variedades de rvores e, como re-
sultado, havia diversos tons de verde. Algumas das planta-
es tambm eram desconhecidas: folhas grandes e largas
sobre hastes da altura de um homem eram deixadas para
secar e, aparentemente, para murchar na haste antes de
serem colhidas. Em vrios lugares, Horace viu as mesmas
folhas penduradas em grandes galpes sem paredes, se-
cando ainda mais. Ele se perguntou que tipo de planta
seria aquela. Mas, como antes, decidiu guardar as pergun-
tas para depois.
       Havia outra diferena, apesar de mais sutil. Durante
algum tempo, Horace nem mesmo a percebeu. Os cam-
pos e plantaes pareciam um tanto abandonados. Elas
recebiam cuidados,  verdade, e alguns dos campos ti-
nham sido arados, mas parecia lhes faltar o cuidado cari-
nhoso e meticuloso que se via nos campos e plantaes
em casa. Era possvel perceber a falta de ateno dos fa-
zendeiros e, em alguns lugares, as ervas daninhas eram
claramente visveis.
       --  a terra que sofre quando os homens lutam --
Halt murmurou com um suspiro.
       Horace olhou para ele. No era comum o prprio
arqueiro quebrar o silncio.
       -- Quem est lutando? -- ele perguntou com sbi-
to interesse.
       -- O povo de Glica -- Halt respondeu coando a
barba. -- No h uma lei central forte aqui. H dzias de
nobres e bares de menor importncia. Opressores, se
voc preferir. Eles esto constantemente atacando uns aos
outros e lutando entre si.  por esse motivo que os cam-
pos esto tratados com tanto desleixo. Metade dos fazen-
deiros foi recrutada por algum exrcito.
       Horace olhou para os campos que margeavam os
dois lados da estrada. No havia sinais de batalha ali. Ape-
nas negligncia. Um pensamento lhe veio  cabea.
       --  por isso que as pessoas pareciam um pouco...
nervosas com a nossa presena? -- ele perguntou, e Halt
assentiu com ar de aprovao.
       -- Voc percebeu isso, no foi? Bom garoto. Ento
ainda existe esperana para voc. Sim -- ele continuou,
respondendo a pergunta de Horace --, homens armados e
montados neste pas so vistos como possvel ameaa, no
como defensores da paz.
        Em Araluen, os fazendeiros procuravam os solda-
dos para proteg-los, assim como a seus campos, da ame-
aa de possveis invasores. Ali, Horace percebeu que os
prprios soldados eram a ameaa.
        -- O pas est vivendo numa grande agitao --
Halt continuou. -- O rei Henri  fraco e no tem verda-
deiro poder. Assim, os bares lutam, discutem e matam
uns aos outros. Se bem que isso no  uma grande perda.
Mas  muito injusto quando matam os pobres fazendeiros
tambm, simplesmente porque eles atrapalham. Isso pode
ser um problema para ns, mas ns s temos que... ah,
droga.
        As duas ltimas palavras foram ditas em voz baixa,
mas no com menos intensidade. Horace, seguindo o o-
lhar de Halt, observou a estrada.
        Eles estavam descendo uma pequena colina em que
o caminho era cercado dos dois lados por um arvoredo
espesso. No p da colina, atravessado por uma ponte de
pedra, um pequeno riacho corria entre os campos e as r-
vores. Era uma cena tranquila e bastante normal e, de seu
jeito, muito bonita.
        Mas no foram as rvores, nem a ponte, nem o ria-
cho que tinham provocado o comentrio de Halt. Era o
guerreiro montado e armado que estava com o cavalo no
meio da estrada bloqueando a passagem.
Evanlyn sentiu o leve toque de Will no ombro. A surpre-
sa a fez estremecer. Apesar de estar acordada, no tinha
ouvido sua aproximao.
        -- Est tudo bem -- ela disse baixinho. -- Estou
acordada.
        -- A Lua est escondida -- Will respondeu com a
voz igualmente baixa. --  hora de ir.
        Evanlyn jogou os cobertores para longe e se sen-
tou. Estava totalmente vestida, com exceo das botas.
Ela as pegou e comeou a cal-las. Will l estendeu um
amontoado de trapos que tinha cortado dos cobertores.
        -- Amarre isso nos seus ps -- ele disse. -- Eles
vo abafar o barulho no cascalho.
        Ela viu que ele tinha envolvido os ps em grandes
quantidades de tecido e se apressou em fazer o mesmo.
        Atravs da parede fina entre a varanda e o dormit-
rio, ela ouviu o ronco e os resmungos dos homens que
dormiam. Um dos escandinavos teve um acesso de tosse,
que deixou Will e Evanlyn paralisados, esperando para ver
se algum tinha acordado. Depois de alguns minutos, o
dormitrio ficou em silncio novamente. Evanlyn termi-
nou de envolver os ps com as tiras de pano, levantou-se
e seguiu Will at a porta.
       Ele tinha lubrificado as dobradias da porta da va-
randa com gordura da cozinha. Prendendo a respirao,
Will abriu a porta devagar; soltando um suspiro de alvio
quando ela no rangeu. Sem Lua, a praia era uma faixa
escura, e a gua um lenol negro que refletia levemente a
luz das estrelas. O tempo tinha estado bom nos ltimos
dias. A noite estava clara e o vento tinha diminudo consi-
deravelmente, mas eles ainda podiam ouvir o seco ribom-
bar das ondas batendo contra a face externa da ilha.
       Evanlyn mal enxergava o contorno imenso dos dois
navios puxados para a praia. De um lado, havia uma for-
ma menor: um bote, deixado ali por Svengal depois de sua
ltima pescaria. Era para l que eles estavam indo.
       Pacientemente, Will mostrou a rota que tinha esco-
lhido. Eles a tinham examinado antes, naquela noite, mas
ele queria ter certeza de que ela se lembrava. Mover-se
sem ser visto era quase uma segunda natureza para Will,
mas ele sabia que Evanlyn ficaria nervosa quando estives-
se do lado de fora e iria querer chegar aos navios depressa.
       E velocidade significava barulho e uma chance
maior de serem vistos ou ouvidos. Ele colocou a boca
bem junto do ouvido dela e sussurrou o mais baixo que
pde.
       -- Fique calma. Os bancos primeiro. Depois as pe-
dras. Depois os navios. Espere por mim ali.
        Ela assentiu. Will viu quando ela engoliu em seco
nervosa e percebeu que a respirao dela tinha se acelera-
do. Ele apertou o brao dela com delicadeza.
        -- Se acalme. E lembre: se algum sair, fique im-
vel. Onde voc estiver.
        Aquele era o segredo de um bom resultado num lo-
cal pouco iluminado como aquele. Um vigia poderia no
ver uma pessoa que estivesse totalmente imvel, mas o
menor movimento chamaria a ateno imediatamente.
        Ela assentiu novamente, e ele lhe deu um tapinha
no ombro.
        -- Agora v -- ele disse.
        Evanlyn respirou fundo outra vez e saiu para o ar
livre. Ela se sentiu terrivelmente exposta ao andar na dire-
o do abrigo dos bancos e da mesa a dez metros de dis-
tncia das cabanas. As fracas luzes das estrelas agora pare-
ciam to brilhantes quanto a do dia e Evanlyn se obrigou a
caminhar devagar, pisando com cuidado, lutando contra a
tentao de correr para o esconderijo.
        Os panos que cobriam os ps resolveram o pro-
blema de abafar o som de seus passos, mas mesmo assim
o rangido do cascalho parecia ensurdecedor para ela. Qua-
tro passos a mais... trs... dois... um.
        Com o corao aos pulos e o pulso acelerado, ela
mergulhou agradecida na sombra da mesa e dos bancos
rsticos. Seu prximo alvo era um pequeno amontoado de
pedra a meio caminho da praia. Ela hesitou, querendo fi-
car na confortvel sombra oferecida pela mesa, mas sabia
que se no fosse logo talvez nunca tivesse coragem de se
mover. Saiu dali decidida, um p depois do outro, enco-
lhendo-se por causa dos rangidos abafados das pedras de-
baixo dos ps. Essa parte do trajeto a levou diretamente
para a frente da porta do dormitrio. Se algum dos escan-
dinavos sasse, ela seria vista.
       Ela chegou ao abrigo das pedras e sentiu a proteo
das sombras envolv-la mais uma vez. A parte mais difcil
da travessia tinha terminado. Ela esperou alguns segundos
at que sua pulsao se normalizasse e ento se dirigiu pa-
ra os navios. Agora que estava quase l, queria desespera-
damente correr. Mas lutou contra a tentao e andou de-
vagar e com cuidado na escurido ao lado do Wolf Fang.
       Extremamente cansada, deixou-se cair nas pedras
midas, recostou-se nas tbuas do navio e esperou que
Will a seguisse.
       Nuvens espalhadas atravessavam o cu e estendiam
vrias sombras mais escuras sobre a praia. Will fez seus
movimentos acompanharem o ritmo do vento e das nu-
vens e andou com passos firmes pela trilha que Evanlyn
tinha acabado de seguir. Surpresa, ela prendeu a respirao
quando teve a impresso de que ele desapareceu depois
dos primeiros metros, confundindo-se no movimento da
luz e da sombra e se tornando parte da paisagem. Ela o
viu de novo, rapidamente, nos bancos e depois nas pedras.
Depois ele pareceu surgir do cho a alguns metros dela.
Evanlyn balanou a cabea espantada. "No   toa que as
pessoas imaginam que os arqueiros so mgicos", ela pen-
sou. Sem perceber a reao dela, Will sorriu rapidamente e
se aproximou para que pudessem falar.
       -- Tudo bem? -- ele perguntou em voz baixa. --
Tem certeza de que quer fazer isso? -- acrescentou quan-
do ela assentiu.
       -- Tenho, sim -- Evanlyn respondeu sem hesita-
o.
       Ele lhe deu um aperto no ombro num gesto de en-
corajamento.
       -- Que bom.
       Will olhou ao redor. Agora eles estavam longe das
cabanas e havia poucas possibilidades de suas vozes serem
ouvidas. O vento, embora no to forte quanto antes,
tambm ajudava a disfar-las. Ele sentiu que algum est-
mulo seria bom para Evanlyn e ento apontou o bote.
       -- Lembre-se de que essa coisa  pequena. No 
como os navios. Ele vai navegar sobre ondas grandes, no
vai atravessar elas. Vamos ficar to seguros como se esti-
vssemos numa casa.
       Will no tinha muita certeza sobre as duas ltimas
afirmaes, mas elas lhe pareceram lgicas. Ele tinha ob-
servado as gaivotas e os pinguins ao redor da ilha flutuan-
do nas ondas imensas e pareceu que, quanto menor era o
objeto, mais seguro se estava.
       Ele estava carregando um odre de vinho roubado
da despensa. Tinha jogado fora a bebida e enchido o reci-
piente com gua. Ela no tinha um gosto muito bom, mas
os manteria vivos. "Alm disso", pensou filosoficamente,
"quanto pior for o gosto, mais tempo ela vai durar." Ele o
colocou com cuidado no fundo do bote e levou alguns
minutos para verificar se os remos, o leme e o pequeno
mastro e as velas estavam guardados em segurana. A ma-
r estava subindo e fazia a gua bater quase na borda do
barco. Will sabia que ela no iria subir mais e que em al-
guns minutos eles teriam que partir. E ele e Evanlyn esta-
riam a caminho. Vagamente, sabia que a costa da Teutnia
ficava em algum ponto ao sul de onde estavam. Ou talvez
eles encontrassem algum navio, j que parecia que as tem-
pestades de vero estavam desaparecendo. Ele no pensa-
va muito no futuro, s sabia que no podia continuar vi-
vendo como prisioneiro. Se fosse o caso, preferia morrer
tentando ser livre.
       -- No podemos ficar sentados aqui a noite toda
-- ele disse. -- V para o outro lado e vamos pr esse
bote na gua. Levante e depois empurre.
       Segurando nas laterais do barco, eles levantaram e
empurraram juntos. Primeiro, o bote ficou firmemente
preso no cascalho, mas depois de alguns minutos de es-
foro, ele comeou a deslizar com mais facilidade.
       Logo ele flutuou e os dois subiram a bordo. Will
deu um ltimo empurro com o p e o bote se afastou da
praia. O garoto sentiu uma onda de triunfo e ento perce-
beu que no tinha tempo para comemorar. Evanlyn, pli-
da e nervosa, estava se segurando nas amuradas de ambos
os lados enquanto o barco era balanado pelas pequenas
ondas.
        -- At agora, tudo certo -- ela disse.
        Mas a voz dela traa o nervosismo que sentia. Desa-
jeitado, Will ajeitou os remos nas forquetas. Ele tinha ob-
servado Svengal faz-lo dezenas de vezes, mas constatou
que ver e fazer eram duas coisas diferentes e, pela primeira
vez, sentiu uma pontada de dvida. Talvez ele estivesse
assumindo uma tarefa maior do que pudesse realizar. Sem
habilidade, tentou movimentar os remos, batendo na gua
e puxando. Ele errou do lado esquerdo, fazendo o bote
virar e quase caiu no cho.
        -- Devagar -- Evanlyn aconselhou e ele tentou
novamente com mais cuidado.
        Desta vez, ele sentiu um forte e bem-vindo impulso
para a frente. Will se lembrou de ter visto Svengal girando
os remos ao fim de cada movimento para evitar que as
lminas batessem na gua. Quando ele fez a mesma coisa,
sua tarefa ficou mais fcil. Mais confiante, continuou a
remar e o barco se moveu com mais suavidade. A mar
estava bem alta e, quando Evanlyn olhou para a praia, sen-
tiu uma onda de medo ao ver o quanto estavam longe.
        Will percebeu a reao dela.
        -- O barco vai andar mais depressa assim que esti-
vermos em alto-mar -- ele garantiu entre uma remada e
outra. -- Ns estamos bem onde as ondas quebram.
        -- Will! -- ela gritou alarmada. -- Tem gua no
bote!
        Os panos que envolviam os ps de Evanlyn tinham
evitado que ela sentisse a gua at aquele momento, mas,
quando ficaram encharcados, conseguiu v-la subindo e
descendo por entre as tbuas.
        --  s um pouco de espuma -- ele disse despreo-
cupado. -- Vamos tirar tudo quando estivermos mais
longe do porto.
        -- No  espuma! -- ela replicou com voz aguda.
-- O bote est fazendo gua! Olhe!
        Ele olhou para baixo e o corao comeou a bater
acelerado. Evanlyn tinha razo. A gua estava a vrios
centmetros acima das tbuas do fundo e parecia estar su-
bindo mais.
        -- Oh, meu Deus! -- ele exclamou. -- Comece a
tirar a gua, depressa!
        Havia um pequeno balde na popa. Evanlyn o pegou
e comeou a jogar gua sobre a beirada freneticamente.
Mas o nvel estava subindo lentamente e Will pde sentir
o bote responder mais pesadamente  medida que mais
gua entrava.
        -- Volte! Volte! -- Evanlyn gritou.
        Qualquer preocupao com a discrio tinha sido
abandonada. Will assentiu com um gesto de cabea, ocu-
pado demais para falar, e empurrou um dos remos deses-
perado, fazendo o bote virar em direo da praia. Agora
ele tinha que lutar contra a mar, e o pnico o deixava de-
sajeitado. Ele errou um movimento, perdeu o equilbrio e
quase soltou um dos remos. Com a boca seca de medo,
agarrou o remo, impedindo-o de cair na gua no ltimo
instante. Evanlyn, tirando a gua do barco desesperada,
percebeu que estava pondo tanta gua para dentro quanto
estava pondo para fora. Ela lutou contra a sensao de
pnico que tomava conta dela e se obrigou a baldear a -
gua com mais calma. "Assim  melhor", pensou. Mas a
gua ainda estava vencendo.
       Felizmente, Will teve o bom senso de mover o bote
para onde a correnteza no era to forte, fazendo que co-
measse a ganhar impulso. Mas ele ainda estava afundan-
do e, quanto mais afundava, mais depressa a gua entrava.
E mais difcil era remar.
       -- Continue remando! Reme com todas as suas
foras! -- Evanlyn estimulava.
       Ele grunhia, empurrando os remos desesperada-
mente, arrastando o bote lento de volta  praia. Eles quase
tinham conseguido. Estavam a trs metros da praia quan-
do o pequeno barco finalmente afundou. O mar subiu
pelas beiradas e, enquanto os dois se debatiam exaustos
com gua pela cintura, Will se deu conta de que, livre do
peso, o bole estava flutuando novamente logo abaixo da
superfcie. Ele o pegou e guiou de volta para a beirada,
seguido por Evanlyn.
       -- Tentando se matar? -- uma voz rspida pergun-
tou.
       Eles olharam e viram Erak parado na beira da gua.
Vrios de seus tripulantes estavam parados atrs dele com
um largo sorriso no rosto.
       -- Jarl Erak... -- Will comeou, mas parou em se-
guida.
       No havia nada a dizer. Erak estava virando um
pequeno objeto nas mos e o entregou a Will.
       -- Talvez voc tenha esquecido isso -- ele disse
com a voz ameaadora.
       Will analisou o objeto. Era um pequeno cilindro de
madeira de aproximadamente seis centmetros de com-
primento e dois de dimetro. Ele o examinou sem enten-
der.
       --  o que ns, simples marinheiros, chamamos de
tampo -- Erak explicou irnico. -- Ele impede a gua
de entrar no bote. Geralmente  uma boa ideia verificar se
est no lugar.
       O desnimo tomou conta de Will. Ele estava en-
charcado, exausto e trmulo por causa do imenso medo
sentido nos ltimos 10 minutos. E, principalmente, muito
desanimado por causa do fracasso. Um pedao de cortia!
Seus planos tinham sido arruinados por causa de um mal-
dito tampo de cortia! Ento uma mo forte agarrou a
frente de sua camisa e ele foi erguido do cho, ficando
com o rosto a poucos centmetros da expresso furiosa de
Erak.
       -- Nunca pense que sou um idiota, garoto! -- o
escandinavo rosnou para ele. -- Se voc tentar qualquer
coisa parecida com isso de novo, vou arrancar sua pele!
       Ele se virou para incluir Evanlyn na ameaa.
       -- Estou falando de vocs dois!
       Erak esperou at ter certeza de que o recado tinha
atingido o destino e ento soltou Will. Totalmente derro-
tado, o aprendiz, de arqueiro caiu estendido nas pedras
duras da praia.
      -- Agora voltem para, a cabana! -- Erak ordenou.
-- Estava fcil demais... -- Halt murmurou num tom
aborrecido.
       Um pouco mais adiante, a ponte em arco cobria o
pequeno riacho. Sentado em um cavalo entre os dois via-
jantes e a ponte, estava um cavaleiro usando uma armadu-
ra completa.
       Halt colocou a mo sobre o ombro e pegou uma
flecha da aljava. Posicionou-a no arco sem mesmo ver o
que estava fazendo.
       -- O que foi, Halt? -- Horace indagou.
       --  o tipo de bobagem que esses gauleses fazem
quando estou com pressa de seguir viagem -- ele resmun-
gou, balanando a cabea irritado. -- Esse idiota vai nos
cobrar algum pedgio para permitir que a gente atravesse
sua preciosa ponte.
       No exato momento em que falava, o homem de
armadura levantou a viseira com as costas da mo direita.
Foi um movimento desajeitado, agravado pelo fato de es-
tar segurando uma lana pesada de 3 metros nessa mo.
Ele quase a deixou cair e conseguiu bat-la contra a lateral
do capacete, uma ao que provocou um tinido que che-
gou at os dois viajantes.
        -- Arretez l ms seigneurs, avant de passer de pont-ci! --
ele disse num tom de voz um tanto agudo.
        Horace no compreendeu nada, mas o tom era in-
confundivelmente arrogante.
        -- O que ele disse? -- Horace quis saber, mas Halt
s fez um gesto de cabea para o cavaleiro.
        -- Que ele fale a nossa lngua, se quiser conversar
com a gente -- ele retrucou zangado. -- Araluenses! --
ele disse para o homem em voz alta.
        Mesmo daquela distncia, Horace percebeu o dar
de ombros desdenhoso do outro homem quando Halt
mencionou sua nacionalidade. Ento, o cavaleiro tornou a
falar, e seu sotaque forte deixava as palavras to difceis de
serem reconhecidas como quando tinha falado gals.
        -- Vocs, meus senhores, no podem cruzar a mi-
nha ponte sem pagar um tributo -- ele avisou.
        Horace franziu a testa.
        -- O qu? -- ele perguntou a Halt, e o arqueiro se
virou para ele.
        --  terrvel, no ? Os "senhores", isto , ns, 
claro, no podemos cruzar a ponte dele sem pagar um tri-
buto.
        -- Um tributo? -- Horace repetiu.
        --  uma forma de assalto de estrada -- Halt ex-
plicou. -- Se houvesse leis de verdade neste pas idiota,
pessoas como o nosso amigo ali nunca se safariam de uma
coisa dessas. Desse jeito, eles podem fazer o que bem en-
tendem. Cavaleiros se instalam em pontes ou encruzilha-
das e exigem que as pessoas paguem um tributo para pas-
sar. Se no puderem pagar, elas podem lutar com ele.
Como a maioria dos viajantes no est equipada para lutar
com um cavaleiro vestido com uma armadura completa,
eles pagam.
       Horace se acomodou na sela e estudou o homem
montado. Ele estava trotando com o cavalo de um lado
para outro numa clara demonstrao de fora que tinha a
inteno de desencorajar os viajantes. Seu escudo em for-
mato triangular exibia o braso com a cabea de um vea-
do. Ele usava uma armadura completa coberta por um
casaco azul que tambm mostrava o smbolo da cabea de
veado. Usava luvas de metal, grevas sobre as canelas e um
capacete arredondado com um visor deslizante, aberto
naquele momento. O rosto debaixo do visor era magro e
tinha um nariz proeminente e pontudo. Um bigode largo
saa de ambos os lados da abertura do visor.
       Horace imaginou que o cavaleiro enfiava suas pon-
tas para dentro quando o abaixava.
       -- Ento, o que vamos fazer? -- ele perguntou.
       -- Bom, acho que vou ter que atirar nesse idiota.
-- Halt replicou num tom de voz um tanto resignado. --
At parece que vou pagar tributo para todos os bandidos
que surgem na minha frente e pensam que o mundo deve
uma vida fcil para eles. Mas isso pode ser um grande a-
borrecimento.
        -- Por qu? -- Horace retrucou. -- Se ele anda
por a procurando briga, quem vai se importar se ele mor-
rer? Ele merece.
        Halt apoiou o arco com a flecha j posicionada e
pronta na sela.
        -- Tem a ver com o que esses idiotas chamam de
honra entre cavaleiros -- ele explicou. -- Se ele for morto
ou ferido por outro cavaleiro num combate, isso pode ser
perdoado.  lamentvel, mas perdovel. Por outro lado, se
eu colocar uma flecha naquela cabea vazia, isso seria con-
siderado uma trapaa. Ele certamente tem amigos ou pa-
rentes na regio. Esses tontos geralmente viajam em ban-
do, li, se eu matar ele, eles vo vir atrs de ns. Como eu
disse,  um tremendo aborrecimento.
        Suspirando, ele comeou a levantar o arco.
        Horace olhou mais uma vez para a figura imperiosa
 frente deles. O homem parecia totalmente indiferente ao
fato de estar a segundos de um final bastante complicado.
Naturalmente, ele no conhecia muito sobre arqueiros e
estava confiante por usar uma armadura. Ele parecia no
ter ideia de que Halt podia atirar uma flecha no visor fe-
chado do capacete, se quisesse. O visor aberto parecia um
alvo quase fcil demais para algum com a habilidade de
Halt.
        -- Voc quer que eu cuide disso? -- Horace final-
mente se ofereceu, embora um pouco hesitante.
        Halt, com o arco quase pronto para atirar, reagiu
com surpresa.
       -- Voc? -- ele perguntou.
       -- Voc sabe que ainda no sou um cavaleiro com-
pleto, mas acho que posso dar conta dele. E, enquanto os
amigos dele acreditarem que ele foi derrotado por outro
cavaleiro, ningum vai vir atrs de ns, certo?
       -- Senhores! -- o homem gritou impaciente. --
Obedeam  minha ordem!
       Horace olhou para Halt de um jeito interrogativo.
       -- Precisamos responder. Tem certeza de que no
est assumindo uma tarefa grande demais para voc? -- o
arqueiro perguntou. -- Afinal, ele  um cavaleiro total-
mente qualificado.
       -- Bem... sim -- Horace disse sem jeito.
       Ele no queria que Halt pensasse que estava se ga-
bando.
       -- Mas ele no  mesmo muito bom, ?
       -- No ? -- Halt retrucou irnico e, para sua sur-
presa, o garoto negou com um gesto de cabea.
       -- No, no muito. Veja como ele se senta no ca-
valo. O equilbrio dele  pssimo. E ele j est segurando a
lana com muita fora, entendeu? E tem tambm o escu-
do. Ele est baixo demais para se proteger de um repenti-
no juliette, voc no concorda?
       -- E o que  um juliette? -- Halt perguntou curio-
so.
       --  quando se muda o alvo da lana de repente --
Horace explicou srio sem perceber a nota de sarcasmo na
voz do arqueiro. -- Voc comea visando ao escudo na
altura do peito e ento, no ltimo momento, levanta a
ponta na direo do capacete.
       Ele fez uma pausa e ento acrescentou com um le-
ve tom de desculpas:
       -- Eu no sei por que se chama juliette. S sei que
 assim.
       Houve um longo silncio entre eles. Halt podia ver
que o menino no estava se gabando. Ele realmente pare-
cia saber do que falava. Pensativo, o arqueiro coou o ros-
to. Talvez fosse til verificar se Horace era mesmo bom.
Se as coisas ficassem difceis para o lado dele, Halt sempre
poderia voltar para o Plano A e simplesmente atirar no
tagarela vigia da ponte. Contudo, havia um pequeno pro-
blema.
       -- Mas voc no vai poder realizar nenhum "juliet-
te". Parece que voc no tem uma lana.
       --  verdade -- Horace assentiu. -- Vou ter que
usar o primeiro movimento para derrubar a lana dele.
Isso no deve ser um grande problema.
       -- Senhores! -- o cavaleiro gritou. -- A sua res-
posta!
       -- Ah, cale a boca -- Halt resmungou para o ho-
mem. -- Ento isso no deve ser um problema, certo?
       Horace apertou os lbios e balanou a cabea num
gesto determinado.
       -- Bom, olhe para ele, Halt. Ele quase deixou a
lana cair trs vezes enquanto estamos aqui. Uma criana
poderia tirar ela dele.
       Halt teve de sorrir quando ouviu aquilo. Ali estava
Horace, pouco mais que um garoto, declarando que uma
criana poderia tirar a lana do cavaleiro que bloqueava a
passagem deles. Ento Halt se lembrou do que ele fazia
quando tinha a idade de Horace e da batalha do garoto
contra Morgarath, um oponente muito mais perigoso do
que a figura ridcula na ponte. Ele avaliou o menino mais
uma vez e viu nada alm de determinao e uma confiana
tranquila ali.
       -- Voc sabe mesmo do que est falando, no ?
-- ele indagou. E, apesar de ter feito uma pergunta, suas
palavras eram mais uma constatao. Horace assentiu
mais uma vez.
       -- No sei como, Halt. S tenho um pressentimen-
to para coisas desse tipo. Sir Rodney disse que tenho uma
habilidade inata.
       Gilan tinha dito a mesma coisa para Halt depois do
combate nas Plancies de Uthal. De repente, Halt tomou
uma deciso.
       Tudo bem -- ele concordou. -- Vamos tentar do
seu jeito. Ele se virou para o cavaleiro impaciente e falou
com ele em voz alta.
       -- Sir, meu companheiro prefere enfrentar o se-
nhor numa batalha de cavaleiros! -- ele avisou.
       O homem ficou rgido e ajeitou o corpo na sela.
Halt percebeu que ele quase perdeu o equilbrio diante
daquele comunicado inesperado.
       -- De cavaleiros? -- ele repetiu. -- O seu compa-
nheiro no  um cavaleiro!
       Halt assentiu com exagero, certificando-se de que o
homem veria o gesto.
       -- Ah, sim, ele ! -- Halt contou. -- Ele  sir Ho-
race, da Ordem da Feuille du Chne.
       Ele fez uma pausa e murmurou para si mesmo.
       -- Ou eu deveria ter dito Crepe du Chne? No im-
porta.
       -- O que voc disse a ele? -- Horace perguntou,
tirando o escudo das costas e ajeitando-o no brao es-
querdo.
       -- Eu disse que voc  sir Horace da Ordem da
Folha do Carvalho -- Halt contou. -- Pelo menos, acho
que foi isso o que eu disse -- ele acrescentou indeciso. --
Talvez eu tenha dito que voc pertence  Ordem da Pan-
queca.
       Horace olhou para ele com uma leve ponta de de-
sapontamento no olhar. Ele levava as regras da tica da
cavalaria muito a srio e sabia que ainda no tinha o direi-
to de usar o ttulo de "sir Horace".
       -- Isso foi mesmo necessrio? -- ele perguntou, e
o arqueiro assentiu.
       -- Ah, sim. Voc sabe que ele no vai lutar com
qualquer um. Precisa ser um cavaleiro. No acho que ele
tenha percebido que voc est sem armadura -- ele acres-
centou, quando Horace ajeitou com firmeza o capacete
cnico na cabea.
       Ele j tinha arrumado a malha de ferro que levava
jogada sobre os ombros, debaixo da capa. Ele a desamar-
rou e procurou um lugar para deix-la, mas Halt estendeu
a mo para peg-la.
       -- Deixe que eu seguro -- ele se ofereceu, pegando
a vestimenta e dobrando-a sobre a sela.
       Horace percebeu que, quando fez isso, Halt tomou
cuidado para no cobrir o arco. O aprendiz fez um gesto
na direo da arma.
       -- Voc no vai precisar disso -- ele garantiu.
       -- J ouvi isso antes -- Halt respondeu e ento o-
lhou novamente para a ponte quando o vigia chamou ou-
tra vez.
       -- O seu amigo no tem lana -- ele disse, gesticu-
lando com a arma de 3 metros de comprimento coroada
por uma ponta de ferro.
       -- Sir Horace prope que vocs lutem com a espa-
da -- Halt respondeu, e o cavaleiro balanou a cabea
violentamente.
       -- No! No! Eu vou usar a minha lana!
       Halt ergueu uma sobrancelha na direo de Horace.
       -- Parece que ele no se importa se voc  cavalei-
ro ou no, mas esquea tudo, se isso representar esquecer
uma vantagem de 3 metros ele disse em voz baixa.
       -- Isso no  problema -- Horace disse com cal-
ma, dando de ombros.
       Ento, um pensamento lhe veio  cabea.
       -- Halt, tenho mesmo que matar ele? Quer dizer,
posso lidar com ele sem ter que ir to longe.
       Halt pensou na pergunta.
       -- Bom, no  obrigatrio -- ele disse ao aprendiz.
-- Mas no se arrisque. Afinal, ele merece ser morto. Tal-
vez ele no ficasse to ansioso em cobrar tributos dos pas-
santes depois disso.
       Foi a vez de Horace olhar para Halt intrigado. O
arqueiro deu de ombros.
       -- Bem, voc sabe o que eu quis dizer -- ele repli-
cou. -- Apenas se certifique de que voc esteja bem antes
de deixar ele ir embora.
       -- Seigneur! -- o cavaleiro gritou, colocando a lana
debaixo do brao e batendo as esporas nos flancos do ca-
valo. -- En garde! Vou acabar com voc!
       Houve um rpido raspar de ao sobre couro, quan-
do Horace puxou a longa espada da bainha e virou Kicker
para ficar de frente para o oponente, pronto para atac-lo.
       -- No vou demorar nem um minuto -- ele disse a
Halt, e ento Kicker se afastou, atingindo alta velocidade
no espao de alguns metros.
Depois da tentativa frustrada de fuga, Will e Evanlyn fo-
ram proibidos de se afastar mais de cinquenta metros das
cabanas. No houve mais corridas nem exerccios. Erak
encontrou uma nova srie de tarefas para os dois prisio-
neiros realizarem, desde consertar os colches de corda
no dormitrio a vedar as tbuas do casco do Wolfwind
com piche e pedaos de corda rasgados. Era um trabalho
pesado e desagradvel, mas Evanlyn e Will o aceitaram
sabiamente.
        Confinados dessa maneira, eles no podiam evitar
perceber a crescente tenso entre os dois grupos de es-
candinavos. Slagor e seus homens, aborrecidos e procu-
rando distrao, tinham sugerido em voz alta que os dois
araluenses fossem chicoteados. Slagor, lambendo os l-
bios, tinha at se oferecido para ele mesmo realizar a tare-
fa.
        Com aspereza, Erak mandou Slagor cuidar da pr-
pria vida. Ele estava ficando cada vez mais cansado dos
modos zombeteiros e exibicionistas do capito e da ma-
neira dissimulada como seus homens roubavam a tripula-
o do Wolfwind e escarneciam dela. Slagor era um co-
varde e um encrenqueiro e, quando Erak o comparava aos
dois prisioneiros, se surpreendia ao descobrir que tinha
mais em comum com Will e Evanlyn do que com seu
conterrneo. Ele no guardava rancor contra os dois, por
tentarem escapar. Se estivesse no lugar deles, teria tentado
fazer a mesma coisa. E ter Slagor perseguindo-os para um
divertimento perverso fazia que ele, de certa forma, se
aproximasse dos garotos.
       Quanto aos homens de Slagor, Erak tinha a forte
opinio que eles eram o lixo coletivo que empesteava o ar
fresco de Skorghijl.
       A situao explodiu numa noite durante o jantar.
Will estava colocando pratos e vrias facas para carne nu-
ma das mesas e Evanlyn estava servindo sopa onde Erak e
Slagor estavam sentados com os chefes de suas tripula-
es. Quando ela se inclinou entre Slagor e seu primeiro
colega, o capito se virou na cadeira, abrindo os braos
largamente, enquanto ria do comentrio de um dos seus
homens. Sua mo bateu com fora contra o prato cheio,
derramando sopa quente no brao nu.
       Slagor gritou de dor e agarrou Evanlyn pelo pulso,
arrastou-a para a frente e torceu o brao dela cruelmente,
fazendo que ela se dobrasse desajeitadamente sobre a me-
sa. A panela de sopa e o prato caram no cho com es-
trondo.
       -- Garota maldita! Voc me escaldou! Olhe para is-
so, sua porca preguiosa de Araluen!
       Ele sacudiu o brao molhado perto do rosto dela,
enquanto a segurava com a outra mo. Evanlyn ouvia a
respirao ofegante nas narinas dele e sentiu o desagrad-
vel cheiro de seu corpo sujo.
       -- Sinto muito -- ela disse depressa, encolhendo-
se por causa da dor no brao que ele torcia com fora ca-
da vez maior. -- Mas voc bateu na concha.
       -- Ento a culpa foi minha? Vou ensinar voc a
no responder para um capito!
       O rosto dele mostrava fria quando estendeu a mo
para pegar o chicote curto de trs tiras de couro que leva-
va no cinto. Ele o chamava de "encorajador" e alegava
que o usava em remadores preguiosos: uma afirmao
negada pelos que o conheciam. Todos sabiam que ele no
teria coragem de atacar um remador corpulento.
       Mas uma jovem garota era diferente. Principalmen-
te naquele momento em que estava bbado e zangado.
       O aposento ficou em silncio. Do lado de fora, o
sempre presente vento gemia contra as tbuas da cabana.
Do lado de dentro, a cena parecia ler ficado congelada por
um momento na luz enfumaada e incerta do fogo e das
lamparinas a leo em volta do aposento.
       Erak, sentado do lado oposto de Slagor, praguejou
baixinho. Do outro lado da sala, Will colocou a pilha de
pratos na mesa devagar. Seu olhar, como o de todos os
outros, estava em Slagor: na cor avermelhada e doentia do
rosto e dos olhos, provocada pelo lcool, e na forma co-
mo sua lngua continuava a disparar para fora, entre os
dentes manchados e quebrados, para molhar os lbios
grossos. Sem ser notado, o aprendiz de arqueiro ficou
com uma das facas, uma faca pesada de dois gumes usada
para cortar carne de porco salgada na mesa. Com cerca de
20 centmetros de comprimento, era parecida com uma
pequena faca de caa, aquela que ele conhecia muito bem
depois de horas de treinamento com Halt.
       Finalmente, Erak falou. Sua voz saiu baixa e o tom
era moderado. S isso foi suficiente para que sua tripula-
o se levantasse e ficasse atenta. Quando Erak esbraveja-
va e gritava, normalmente estava brincando. Quando fica-
va quieto e intenso, eles sabiam que ele estava mostrando
seu lado mais perigoso.
       -- Solte a menina, Slagor -- ele ordenou.
       Slagor fez cara feia, furioso com a ordem e o tom
confiante de comando atrs dele.
       -- Ela me queimou! -- ele berrou. -- Ela fez de
propsito e vai ser castigada!
       Erak pegou seu copo e tomou um longo gole de
cerveja. Quando falou de novo, mostrou todo o cansao e
aborrecimento que sentia em relao ao capito.
       -- Vou dizer s mais uma vez. Solte a garota. Ela 
minha escrava.
       -- Escravos precisam de disciplina -- Slagor retru-
cou lanando um olhar rpido ao redor da sala. -- Todos
vimos que voc no est disposto a fazer o que  preciso,
portanto chegou o momento de algum tomar uma atitu-
de!
       Percebendo que o capito estava distrado, Evanlyn
tentou se libertar, mas ele sentiu seu movimento e a segu-
rou com facilidade.
       Vrios membros da tripulao do Wolf Fang, aque-
les que mais tinham bebido, concordaram com aquelas
palavras.
       Erak hesitou. Ele podia simplesmente se inclinar e
nocautear Slagor. Ele podia fazer isso at mesmo sem sair
da cadeira. Mas isso no seria suficiente. Todos no apo-
sento sabiam que ele poderia vencer Slagor numa luta e
fazer isso no provaria nada. Ele estava cansado do ho-
mem e queria humilh-lo e envergonh-lo. Slagor no me-
recia menos e Erak sabia como atingir seu objetivo.
       Ele suspirou, como se estivesse cansado de toda
aquela situao, inclinou-se sobre a mesa e falou devagar,
como se estivesse se dirigindo para um ser de inteligncia
inferior. O que, ele refletiu, resumia muito bem as capaci-
dades mentais de Slagor.
       -- Slagor, enfrentei uma campanha dura, e esses
dois so meu nico lucro. No vou permitir que voc seja
responsvel pela morte de um deles.
       -- Voc ficou muito mole com eles, Erak -- Slagor
sorriu com crueldade. -- Estou lhe fazendo um favor.
Alm disso, umas boas chicotadas no vo matar a garota,
s vo deixar ela mais obediente no futuro.
       -- Eu no estava falando sobre a garota -- Erak
retrucou com calma. -- Eu me referi ao menino ali.
       Ele fez um gesto com a cabea at onde Will estava
em p nas sombras tremeluzentes. Slagor seguiu seu olhar,
assim como os outros.
       -- O menino? -- ele franziu a testa sem compre-
ender. -- No tenho inteno de machucar ele.
       -- Sei disso -- Erak concordou. -- Mas, se voc
tocar na garota com esse chicote,  quase certo que ele vai
matar voc. E ento, para castigar o menino, vou ter que
matar ele. E no estou preparado para perder todo esse
lucro. Portanto, solte a menina.
       Slagor franziu ainda mais a testa e sua expresso se
encheu de raiva. Ele detestava ser motivo de piada para
Erak e pensou, e quase todos os outros tambm, que o
jarl apenas o estava subestimando ao insinuar que o pe-
queno garoto araluense podia venc-lo numa briga.
       -- Voc perdeu a cabea, Erak -- ele rosnou. -- O
garoto  to perigoso quanto um rato do campo. Posso
quebrar ele ao meio com uma das mos.
       Ele fez um gesto com a mo livre, a que no estava
segurando o brao de Evanlyn.
       Erak sorriu para ele, mas no havia sinal de humor
nesse sorriso.
       -- Ele pode matar voc antes que d um passo na
direo dele. O tom extremamente calmo mostrou que ele
no estava brincando.
       Todos na sala perceberam isso e ficaram muito qui-
etos. Slagor tambm percebeu. Ele franziu o cenho, ten-
tando descobrir um meio de se livrar daquela situao. O
lcool tinha confundido seu raciocnio. Havia uma coisa
que ele no estava entendendo. Ele comeou a falar, mas
Erak levantou a mo para impedi-lo.
       -- Acho que no podemos permitir que ele mate
voc para provar que estou certo -- Erak afirmou pare-
cendo relutante.
       Ele procurou algo pela sala e seus olhos se ilumina-
ram ao ver um pequeno barril de conhaque pela metade
na extremidade da mesa.
       -- Empurre esse barril para c -- ele ordenou a
Svengal.
       Seu segundo no comando ps uma das mos no
pequeno barril e o fez deslizar sobre a mesa rstica at
chegar ao capito. Erak o examinou com ateno.
       -- Esse barril tem o tamanho da sua cabea gorda,
Slagor -- ele afirmou com um leve sorriso.
       Ento ele pegou a sua faca, que estava na mesa, e
rapidamente fez duas marcas claras na madeira escura do
casco.
       -- Vamos fazer de conta que estes so seus olhos.
       Ele puxou o barril por cima da mesa e o colocou ao
lado de Slagor, quase tocando o cotovelo dele. Murmrios
de expectativa atravessaram o aposento, enquanto os ho-
mens observam tudo se perguntando o que aconteceria
em seguida. Apenas Svengal e Horak, que tinham estado
com Erak na ponte, tinham uma vaga ideia do que seu jarl
estava prestes a fazer. Eles sabiam que o garoto era a-
prendiz de arqueiro e tinham visto, em primeira mo, que
ele era um adversrio de respeito. Mas o garoto estava
sem o arco, e os homens no sabiam o que Erak tinha vis-
to: a faca que Will segurava escondida debaixo do brao
direito.
       -- Bem, garoto -- Erak continuou --, esses olhos
so um pouco prximos um do outro, mas os de Slagor
tambm.
       Houve um sussurro divertido entre os escandinavos
e Erak agora falou diretamente com eles.
       -- O que vocs acham de todos olharmos com a-
teno e ver se alguma coisa aparece entre eles?
       E, ao dizer isso, ele fingiu olhar bem para o barril
sobre a mesa. Era quase inevitvel que todos na sala se-
guissem seu exemplo. Will hesitou um segundo, mas sen-
tiu que poderia confiar em Erak. A mensagem que o lder
dos escandinavos mandava era muito clara. Rapidamente,
ele deu um impulso com o brao, e a faca atravessou gi-
rando o aposento.
       Houve um leve claro quando o instrumento em
movimento passou pela luz avermelhada das lamparinas a
leo e do fogo. Ento, com um forte "plac" a lmina afia-
da entrou na madeira, quase no centro do espao entre as
duas marcas. O barril chegou a deslizar para trs uns dez
centmetros por causa do impacto.
       Slagor soltou um grito espantado e saltou para trs.
Inadvertidamente, soltou o brao de Evanlyn. A garota se
afastou dele depressa e ento, quando Erak fez um gesto
de cabea na direo da porta, ela saiu correndo do apo-
sento despercebida na confuso.
       Houve gritos sobressaltados por alguns momentos,
e os homens de Erak comearam a rir e a aplaudir o feito
notvel. At os homens de Slagor acabaram por participar,
enquanto o skirl permanecia sentado observando-os car-
rancudo. Ele no era uma pessoa popular. Seus homens
apenas o seguiam porque ele era rico o bastante para ter
um navio para as suas pilhagens. Agora, muitos deles imi-
tavam o grito rouco que ele tinha emitido quando a faca
entrou no barril com um rudo forte.
       Erak se levantou do banco e deu a volta na mesa,
enquanto falava.
       -- Como voc v, Slagor, se o garoto tivesse mira-
do a cabea de madeira errada, voc certamente estaria
morto agora e eu teria que castigar ele com a morte.
       Ele parou perto de Will, sorrindo para Slagor, en-
quanto o skirl se curvava no banco, esperando o que viria
em seguida.
       -- Desse jeito -- Erak continuou --, eu simples-
mente vou repreender ele por assustar algum to impor-
tante quanto voc.
       E, antes que Will percebesse, Erak lhe deu um mur-
ro, com o punho fechado no lado da cabea, que o jogou
sem sentidos no cho. Ele olhou para Svengal e fez um
gesto na direo do vulto desacordado no cho de madei-
ra spera da cabana.
       -- Jogue esse sujeito desrespeitoso no quarto dele
-- Erak ordenou.
       Ento, dando as costas para todos, saiu para a noi-
te.
       Do lado de fora, no ar frio e lmpido, ele olhou pa-
ra cima. O cu estava claro. O vento ainda soprava, mas
estava calmo e se dirigia para o leste. Os ventos de vero
tinham terminado.
       -- Chegou a hora de sair daqui -- ele disse para as
estrelas.
A batalha, se pudesse ser chamada assim, no durou mais
que alguns segundos.
        Os dois guerreiros montados dispararam na direo
um do outro, fazendo os cascos de seus cavalos de batalha
retumbarem na superfcie no pavimentada da estrada, os
torres de terra girarem no ar atrs deles e a poeira se le-
vantar numa nuvem que marcava a passagem dos dois.
        O cavaleiro gals estava com a lana estendida. Halt
podia ver agora a falha que Horace tinha percebido na
tcnica do seu oponente. Segura com muita firmeza no
comeo, a ponta da lana oscilava e se agitava com o mo-
vimento do cavalo. Se ele a segurasse com mais leveza e
flexibilidade, a arma poderia ter mantido a ponta centrada
no alvo. Daquela forma, a lana mergulhava, levantava e
tremia a cada passo do animal.
        Horace, por outro lado, cavalgava tranquilamente
com a espada pousada num dos ombros, satisfeito em
conservar a fora at que chegasse o momento de agir.
        Eles se aproximaram um do outro, escudo diante
de escudo, como era normal. Halt tinha esperado de certa
forma ver Horace repetir a manobra usada contra Morga-
rath e virar o cavalo para o outro lado no ltimo momen-
to. Entretanto, o aprendiz continuou, mantendo a linha de
ataque. Quando estava a cerca de 10 metros de distncia,
ele tirou a espada da posio de descanso e a fez descrever
crculos no ar. Quando a ponta da lana se aproximou do
escudo de Horace, a espada, ainda formando um crculo, a
atingiu em cheio e a jogou para o alto, por cima da cabea
do garoto.
        O movimento pareceu enganosamente fcil, mas
Halt percebeu, enquanto observava, que o menino domi-
nava a arte do manejo das armas com naturalidade. O ca-
valeiro gals, preparado para o impacto de sua lana no
escudo de Horace, de repente se viu jogando o corpo con-
tra o vazio. Ele vacilou, sentindo-se cair. Numa tentativa
desesperada de autopreservao, agarrou-se  ala da sela.
        Ele teve a m sorte de escolher se segurar com a
mo direita, que tambm tentava manter o controle da
lana pesada. Virada para cima pela ponta da espada, ela
estava agora descrevendo um arco gigante por conta pr-
pria. O cavaleiro gals no conseguiu manter o equilbrio e
segurar a lana ao mesmo tempo, e uma praga abafada
saiu de dentro de seu capacete quando ele se viu obrigado
a deixar a lana cair.
        Enraivecido, procurou o punho da espada s cegas,
tentando tir-la da bainha para o segundo golpe.
        Infelizmente para ele, haveria somente um primeiro
golpe. Halt balanou a cabea numa admirao silenciosa
quando Horace, j com a lana fora da jogada, instantane-
amente fez Kicker parar e se virar e usou os joelhos e a
mo que segurava o escudo nas rdeas para fazer o cavalo
se empinar nas patas traseiras, antes de o cavaleiro gals
passar por ele.
       A espada, ainda descrevendo aqueles crculos fceis
que mantinham o punho se movimentando com leveza e
naturalidade, fez outro movimento em arco e atingiu as
costas do capacete do outro homem com um tinido alto e
forte.
       Halt se encolheu, imaginando qual teria sido o som
dentro do pote de ao. Seria esperar demais que apenas
um golpe atravessasse o metal rgido. Seriam necessrios
vrios golpes fortes para conseguir isso. Mas Horace dei-
xou uma marca profunda no capacete, e o choque da pan-
cada atravessou diretamente o ao e foi at o crnio do
cavaleiro.
       Invisveis aos dois araluenses, os olhos dele ficaram
embaados, ligeiramente tortos e depois se normalizaram.
       Ento, muito devagar, ele caiu para o lado da sela,
despencou na terra da estrada e l ficou deitado e imvel.
Seu cavalo continuou a galopar por mais alguns metros.
Mas, percebendo que ningum o estava dirigindo, desace-
lerou, baixou a cabea e comeou a comer o capim com-
prido ao longo da estrada.
       Horace fez o cavalo trotar lentamente de volta, pa-
rando no ponto em que o cavaleiro gals estava estendido
no cho.
       -- Eu disse que ele no era muito bom -- ele rea-
firmou um tanto srio para Halt.
       O arqueiro, que se orgulhava de suas maneiras
normalmente taciturnas, no conseguiu evitar que um lar-
go sorriso se espalhasse em seu rosto.
       -- Bem, talvez ele no seja -- ele disse para o jo-
vem diante dele.
       -- Mas voc certamente pareceu bastante eficiente.
       -- Fui treinado para isso -- ele respondeu com
simplicidade, dando de ombros.
       Halt se deu conta de que o garoto simplesmente
no gostava de se gabar. A Escola de Guerra certamente
tinha exercido um bom eleito nele. Ele fez um gesto para
o cavaleiro que estava comeando a recuperar a conscin-
cia. Os braos e as pernas do homem faziam pequenos
movimentos leves e descoordenados, dando-lhe a aparn-
cia de um caranguejo semimorto.
       -- Ele tambm deveria estar treinado para isso --
Halt respondeu.
       -- Muito benfeito, jovem Horace -- ele acrescen-
tou.
       O garoto corou de prazer com o elogio de Halt. Ele
sabia que o arqueiro no costumava cumprimentar as pes-
soas em vo.
       -- Ento, o que vamos fazer com ele agora? -- ele
perguntou, indicando o adversrio cado com a ponta da
espada.
        Halt deslizou rapidamente da sela e se aproximou
do homem.
        -- Deixe que eu cuido disso -- ele disse. -- Vai ser
um prazer. Ele agarrou o homem por um brao e o arras-
tou at que se sentasse. O cavaleiro atordoado resmungou
dentro do capacete e, agora que tinha tempo para notar
esses detalhes, Horace viu que as pontas do bigode se pro-
jetavam para fora dos lados do visor fechado.
        -- Obrigado, senhor -- o cavaleiro murmurou de
modo incoerente quando Halt o sentou.
        Seus ps patinaram na estrada quando ele tentou se
levantar, mas Halt o impediu com um empurro sem gen-
tileza.
        -- Nada de obrigado -- o arqueiro replicou.
        Ele colocou a mo sob o queixo do homem, e Ho-
race se deu conta de que ele segurava a menor de suas fa-
cas. Por um momento, o garoto horrorizado ficou con-
vencido de que Halt pretendia cortar a garganta do estra-
nho. Ento, com um golpe habilidoso, o arqueiro cortou a
tira de couro que prendia o capacete na cabea do ho-
mem. Depois de cort-la, Halt tirou o capacete e o jogou
nos arbustos  beira da estrada. O cavaleiro soltou um le-
ve gemido de dor quando as pontas de seu bigode foram
puxadas pelo visor ainda fechado.
        Horace embainhou a espada, finalmente seguro de
que o cavaleiro no representava mais ameaa. Este, por
sua vez, muito srio, espiava Halt e a figura sobre o cava-
lo. Ele ainda no enxergava muito bem.
       -- Vamos continuar a luta no cho -- ele declarou
trmulo. Halt lhe deu um tapa forte nas costas, fazendo os
olhos do homem girarem mais uma vez.
       -- Vai coisa nenhuma. Voc foi derrotado, meu
amigo. Caiu de quatro no cho. Sir Horace, cavaleiro da
Ordem du Feuille du Chne, concordou em poupar sua vida.
       -- Oh... obrigado -- disse o homem abalado, fa-
zendo um gesto vago de saudao na direo de Horace.
       -- Entretanto -- Halt continuou, permitindo que
um tom sombrio de divertimento tomasse conta de sua
voz -- de acordo com as regras dos cavaleiros, as suas
armas, a armadura, o cavalo e outros pertences passaro
para sir Horace.
       --  mesmo? -- Horace perguntou sem acreditar.
Halt assentiu.
       O cavaleiro tentou se levantar outra vez, mas, como
antes, Halt o segurou no cho.
       -- Mas, senhor... -- ele protestou fracamente. --
As armas e a armadura? Claro que no...
       -- Claro que sim -- Halt replicou.
       O rosto do homem, j abatido e plido, ficou ainda
mais atordoado quando se deu conta da importncia do
que o estranho vestido com a capa cinza lhe dizia.
       -- Halt -- Horace interrompeu --, ele no vai fi-
car meio indefeso sem as armas... e o cavalo?
       -- Sim, com certeza -- foi a resposta satisfeita. --
O que vai dificultar muito para ele a tarefa de roubar via-
jantes inocentes que querem atravessar essa ponte.
       -- Ah -- Horace respondeu pensativo finalmente
entendendo.
       -- Exatamente -- Halt reforou, olhando para ele
com um ar significativo. -- Voc teve um bom dia de tra-
balho aqui, Horace. Pense bem, voc mal levou 2 minutos
para acabar com ele -- Halt acrescentou. -- Mas voc vai
manter esse predador longe da atividade e deixar a estrada
um pouco mais segura para os habitantes da regio. E, 
claro, ns vamos ter um belo conjunto de malha de ferro,
uma espada, um escudo e um belo cavalo para vender na
prxima vila.
       -- Voc tem certeza de que as regras so essas? --
Horace perguntou, e Halt lhe deu um sorriso largo.
       -- Ah, sim.  totalmente justo e aprovado. Ele sa-
bia disso. Ele simplesmente deveria ter olhado com mais
ateno quando nos desafiou. Agora, minha beleza -- ele
disse para o abatido cavaleiro sentado aos seus ps --,
vamos tirar essa sua malha de ferro.
       O cavaleiro atordoado comeou a obedecer de m
vontade. Halt olhou radiante para o companheiro.
       -- Estou comeando a gostar um pouco mais de
Glica do que esperava -- ele comentou.
Dois dias depois, o Wolfwind deixou o porto de Skorghi-
jl e se dirigiu para a Escandinvia, a nordeste. Slagor e seus
homens ficaram para trs, com a tarefa de fazer reparos
temporrios no navio antes de tentarem voltar para o por-
to de origem. O navio estava muito danificado para conti-
nuar a navegar para o Ocidente e participar da temporada
de pirataria. A deciso de Slagor de deixar o porto cedo
mostrou ser custosa.
        O vento, que durante semanas tinha soprado para o
norte, agora soprava para o oeste, permitindo aos escan-
dinavos iar a grande vela principal. O Wolfwind navegava
com tranquilidade no mar cinzento e formava uma trilha
de espuma atrs de si. O movimento era estimulante e li-
bertador,  medida que os quilmetros passavam sob o
casco e, quanto mais se aproximavam da terra natal, mais
o nimo da tripulao melhorava.
        Apenas Will e Evanlyn no sentiam o esprito mais
leve. Skorghijl tinha sido um lugar terrvel, deserto e ina-
mistoso, mas pelo menos os meses ali passados haviam
adiado o momento de sua separao. Eles sabiam que se-
riam vendidos como escravos em Hallasholm e que havia
grandes possibilidades de irem para lugares diferentes.
       Certa vez, Will tinha tentado alegrar Evanlyn sobre
sua possvel separao.
       -- Eles dizem que Hallasholm no  uma cidade
grande -- ele falou --, ento mesmo que a gente v para
lugares diferentes talvez ainda possa se ver. Afinal, eles
no podem esperar que a gente trabalhe 24 horas por dias,
7 dias por semana.
       Evanlyn no tinha respondido. Sua experincia com
os escandinavos at ali lhe dizia que era isso exatamente o
que deveriam esperar.
       Erak notou o silncio e a disposio melanclica
que tinham tomado conta deles e sentiu uma ponta de
solidariedade. Ele se perguntou se no haveria um modo
de fazer que continuassem juntos.
        claro que sempre poderia mant-los como seus
escravos, mas ele no precisava de escravos pessoais. Co-
mo um lder guerreiro dos escandinavos, ele vivia nas ten-
das dos oficiais onde suas necessidades eram atendidas
por ordenanas. Se ficasse com os dois araluenses, teria
que pagar para aliment-los e vesti-los. Ele afastou a ideia
com um gesto irritado de cabea.
       Para o inferno com eles -- murmurou aborrecido,
afastando-os de sua mente e se concentrando em manter
o navio no curso certo, observando a bssola flutuando
nas argolas suspensas junto ao leme.
       No dcimo segundo dia da travessia, eles consegui-
ram ver a costa escandinava. Exatamente onde Erak tinha
previsto que iriam chegar. Por causa dos olhares de admi-
rao dos homens para o jarl, Will soube que aquele tinha
sido um grande feito.
       Durante os dias seguintes, eles navegaram mais per-
to da praia at que Will e Evanlyn conseguiram enxergar
mais detalhes. Penhascos altos e montanhas cobertas de
neve pareciam ser as caractersticas dominantes da Escan-
dinvia.
       -- Ele tomou a corrente de Loka com perfeio --
Svengal disse a eles enquanto se preparava para subir ao
ponto de observao no alto do mastro.
       O alegre segundo no comando tinha desenvolvido
um certo afeto por Will e Evanlyn. Ele sabia que suas vi-
das como escravos seriam duras e impiedosas e tentava
compens-los com algumas palavras simpticas, sempre
que possvel. Infelizmente, seu prximo comentrio, feito
com boas intenes, serviu pouco para tranquilizar os
dois.
       -- Ah, bom -- ele disse segurando uma adria para
escalar at o topo do mastro --, acho que vamos chegar
em casa dentro de 2 ou 3 horas.
       Contudo, ele estava enganado. O navio, finalmente
dirigido por remos, passou pela nvoa espessa que envol-
via o porto de Hallasholm cerca de 1 hora e 15 minutos
depois. Will e Evanlyn ficaram parados em silncio, no
meio do navio, enquanto a cidade aparecia ao longe.
       No era um lugar grande. Aninhada ao p de mon-
tanhas altas cobertas de pinheiros, Hallasholm no tinha
mais que 50 casas, todas de um andar e, aparentemente,
feitas de troncos de pinheiros e cobertas por telhados de
folhas e turfa.
       As casas estavam agrupadas ao redor das margens
do porto, onde mais ou menos uma dzia de navios estava
atracada ao cais, alguns estavam em terra firme, tombados
de lado, enquanto homens trabalhavam nos cascos, en-
frentando uma batalha interminvel contra os ataques de
parasitas marinhos, que constantemente roam as tbuas
de madeira. Anis de fumaa subiam de quase todas as
chamins, e o ar frio estava perfumado com um cheiro
forte do pinho que queimava.
       O prdio principal, a Grande Manso de Ragnak,
era construdo com os mesmos troncos de pinho que o
resto das casas da cidade, mas era maior, mais comprido e
largo e tinha um telhado inclinado que se erguia acima dos
demais. Ele ficava no centro da cidade, dominando a pai-
sagem, cercado por um fosso seco e uma paliada que,
conforme Will notou, tambm era feita de troncos de pi-
nheiro. Estava claro que esses troncos eram o material de
construo mais comum na Escandinvia. Uma estrada
longa e larga que saa do cais principal levava para o por-
to na paliada.
       Ao observar a cidade por cima da gua lisa como
vidro do porto, Will pensou que, numa outra poca e em
outras condies, provavelmente acharia as casas bem or-
denadas, e as imensas montanhas cobertas de neve atrs
delas muito bonitas.
       Naquele momento, contudo, ele no via nada que
lhe agradasse em seu novo lar. Enquanto os dois jovens
observavam, uma neve fina comeou a esvoaar o redor
deles.
       -- Acho que aqui  bem frio -- Will comentou em
voz baixa.
       Ele sentiu a mo gelada de Evanlyn se enroscar na
dele. Will a apertou com delicadeza, esperando dar a ela
um pouco de coragem. Uma coragem que ele mesmo es-
tava longe de sentir naquele momento.
-- Eu disse que esse smbolo no seu escudo facilitaria a
viagem -- Halt comentou com Horace.
       Eles estavam tranquilamente acomodados em suas
selas, Halt com uma das pernas apoiada na ala, enquanto
observavam o cavaleiro gals que tinha barrado a passa-
gem deles bater as esporas no cavalo e sair a galope at a
segurana de uma cidade prxima. Horace olhou para a
folha de carvalho verde que Halt tinha pintado em seu
escudo antes sem adornos.
       -- Voc sabe -- ele disse com um leve tom de de-
saprovao na voz --, no tenho direito a um braso de
armas at ser formalmente nomeado cavaleiro.
       O treinamento com sir Rodney tinha sido muito r-
gido e s vezes ele sentia que Halt no dava bastante aten-
o ao protocolo da cavalaria. O arqueiro barbado olhou
para ele de lado e deu de ombros.
       Alis, voc tambm no tem o direito de lutar com
nenhum desses cavaleiros antes de ser nomeado -- ele
lembrou. -- Mas no vi isso impedir voc.
       Desde o primeiro encontro na ponte, os dois via-
jantes foram parados em meia dzia de ocasies por cava-
leiros piratas que guardavam encruzilhadas, pontes e vales
estreitos. Todos eles tinham sido despachados com facili-
dade quase desdenhosa pelo jovem e musculoso aprendiz.
Halt estava muito impressionado com a tcnica e habili-
dade natural do jovem rapaz. Um depois do outro, Horace
tinha feito os vigias de beira de estrada carem das selas,
primeiro com alguns golpes destramente aplicados com a
espada e, mais recentemente -- ele havia conseguido uma
lana resistente, com o equilbrio e o peso que lhe agrada-
vam --, em um ataque retumbante que tinha arrancado o
oponente da sela e feito que casse vrios metros atrs do
cavalo a galope. Naquele momento, os dois viajantes ti-
nham reunido um bom estoque de armaduras e armas que
carregavam amarradas s selas dos cavalos que tinham
capturado. Halt pretendia vender os animais, as armas e
armaduras na prxima cidade grande que encontrassem.
       Apesar da admirao pela habilidade de Horace e
do fato de sentir uma estranha satisfao por ver os abu-
tres encrenqueiros serem postos fora de ao, Halt se res-
sentia dos contnuos atrasos que isso causava  sua via-
gem. Mesmo sem eles, ele e Horace dificilmente atingiri-
am a distante fronteira da Escandinvia antes que as pri-
meiras nevascas de inverno as tornassem intransponveis.
Assim, cinco noites antes, quando acamparam num celeiro
semidestrudo de uma fazenda deserta, ele tinha remexido
em pilhas de velhas ferramentas enferrujadas e sacos ras-
gados at encontrar uma pequena lata de tinta verde e um
velho pincel seco. Com eles, tinha pintado uma folha de
carvalho verde no escudo de Horace. O resultado foi o
esperado. A reputao de sir Horace da Ordem da Folha
de Carvalho os tinha ultrapassado. Agora, com muita fre-
quncia, quando cavaleiros salteadores viam sua aproxi-
mao, viravam e fugiam ao enxergar o desenho no escu-
do de Horace.
        -- No posso dizer que estou sentido por ver ele ir
embora -- Horace observou delicadamente, fazendo que
Kicker andasse at a encruzilhada agora deserta. -- O
meu ombro ainda no sarou totalmente.
        Seu oponente anterior tinha sido consideravelmente
mais hbil do que os habituais guerreiros de estrada. Sem
medo do emblema da folha de carvalho no escudo e obvi-
amente no perturbado pela reputao de Horace, ele ti-
nha participado do combate com animao. A luta tinha
durado vrios minutos e, durante o seu desenrolar, um
golpe de clava arrancou o alto da borda do escudo de Ho-
race e atingiu a parte superior de seu brao.
        Felizmente, o escudo tinha recebido a maior parte
do impacto ou muito provavelmente o brao de Horace
estaria quebrado. Como resultado, ele estava bastante feri-
do e ainda no conseguia movimentar o brao como gos-
taria.
        Praticamente meio segundo aps a clava t-lo ma-
chucado, a espada de Horace bateu com fora na frente
do capacete do outro homem, deixando uma marca pro-
funda e fazendo o cavaleiro cair estendido inconsciente,
com uma grave concusso, no cho da floresta.
        Agora, Horace estava aliviado por no ter precisado
lutar desde ento.
        -- Vamos passar a noite na cidade -- Halt avisou.
-- Talvez a gente consiga algumas ervas para eu colocar
um cataplasma nesse brao -- ele acrescentou, ao notar
que o garoto estava protegendo o brao.
        Apesar de no ter se queixado, era evidente que o
ferimento causava muita dor.
        -- Isso seria bom -- Horace concordou. -- Uma
noite numa cama de verdade seria uma mudana agradvel
depois de dormir no cho por tanto tempo.
        --  evidente que a Escola de Guerra no  mais o
que costumava ser -- Halt replicou. --  muito bom
quando um velho como eu pode dormir ao ar livre, en-
quanto um garoto fica todo dolorido e reumtico por cau-
sa disso.
        -- Isso no importa -- Horace deu de ombros. --
Ainda vou ficar satisfeito por dormir numa cama hoje 
noite.
        Na verdade, Halt sentia a mesma coisa, mas no di-
ria isso a Horace.
        -- Talvez a gente deva se apressar -- ele disse --
para colocar voc numa boa cama confortvel antes que
suas juntas fiquem todas entrevadas.
        E ele fez Abelard trotar levemente. Atrs dele, Pu-
xo aumentou 0 ritmo no mesmo instante para acompa-
nh-lo. Horace, pego de surpresa e impedido pelos cava-
los capturados que conduzia, demorou um pouco para
segui-los.
        A fila de cavalos de batalha, carregados com a ar-
madura e as armas, despertou bastante interesse na cidade
quando eles cavalgaram pelas ruas. Horace percebeu mais
uma vez como as pessoas corriam para abrir caminho para
seu cavalo. Ele notou olhares furtivos lanados para o seu
lado e mais de uma vez ouviu a expresso "Chevalier du
chne" sussurrada enquanto passava. Ele olhou curioso
para Halt.
        -- O que eles esto dizendo?
        Halt mostrou o smbolo da folha de carvalho no
escudo que estava pendurado no alto da sela do garoto.
        -- Eles esto comentando sobre a "chne", que
quer dizer carvalho. Eles esto falando sobre voc, o cava-
leiro do carvalho. Aparentemente, a sua fama se espalhou.
        Horace franziu a testa. Ele no tinha certeza de es-
tar satisfeito com isso.
        -- Vamos esperar que isso no cause nenhum pro-
blema -- ele disse indeciso, e Halt simplesmente deu de
ombros.
        -- Numa cidade pequena como esta? Acho muito
improvvel. Espero que acontea o contrrio.
        Pois, na verdade, era uma cidade pequena, quase
pouco mais que um vilarejo. A rua principal era estreita e
quase no tinha espao para os dois cavalos andarem lado
a lado. Os pedestres tinham que sair do caminho, ir para
ruas laterais, para que os cavaleiros pudessem passar, e
ficar ali, enquanto a pequena fila de cavalos de batalha ca-
valgava calmamente atrs deles.
        A rua no pavimentada era uma mera trilha poei-
renta que se transformava num lamaal grudento, quando
chovia. As casas eram pequenas, geralmente trreas, apa-
rentemente construdas numa escala menor do que a
normal.
        -- Fique de olhos abertos para encontrar uma pou-
sada -- Hall disse devagar.
        Viajar com um companheiro famoso era uma expe-
rincia nova para Halt. Em Araluen, ele estava acostuma-
do com a desconfiana e, s vezes, o medo com que os
membros do corpo de arqueiros eram recebidos. As capas
manchadas e os capuzes grandes eram uma imagem co-
nhecida para o povo do reino. Ali, em Glica, ele ficou
bastante satisfeito em perceber que o uniforme dos ar-
queiros, alm do arco e das flechas e das facas duplas, seu
armamento caracterstico, parecia despertar pouco ou ne-
nhum interesse.
        Com Horace as coisas eram diferentes. Era bvio
que a reputao do rapaz tinha se adiantado a eles, e as
pessoas o olhavam com o mesmo jeito desconfiado e
cheio de dvida com que Halt tinha se acostumado ao
longo dos anos. A situao agradava muito a Halt. No ca-
so de qualquer problema, ela daria aos dois uma vantagem
definitiva, caso as pessoas j tivessem decidido que o prin-
cipal perigo vinha do jovem rapaz que usava a armadura.
       A verdade era que o homem mais velho e grisalho
na capa de cores um tanto indefinidas era um possvel i-
nimigo muito menos perigoso.
       -- Logo ali -- Horace avisou, despertando Halt de
seus pensamentos. Ele seguiu a direo do dedo do garoto
e viu um prdio maior que os outros com um segundo
andar precariamente inclinado sobre a rua, sustentado sem
muita firmeza por vigas de carvalho que se projetavam
para fora na altura do primeiro andar. Uma placa um pou-
co gasta pelo tempo balanava delicadamente na brisa e
tinha o desenho rstico de um copo de vinho e um prato
de comida feitos com tinta que j escamava.
       -- No fique muito esperanoso de encontrar uma
boa cama macia para passar a noite -- Halt avisou o a-
prendiz. --  capaz de a gente dormir melhor na floresta.
       Ele no acrescentou que provavelmente tambm
dormiriam num lugar mais limpo.
       Mas, na verdade, constataram que ele tinha sido in-
justo com a pousada. Ela era pequena, e as paredes no
eram muito retas. O teto era baixo e irregular, e as escadas
pareciam se inclinar para um lado quando subiram para
examinar o quarto que lhes tinha sido oferecido.
       Mas, pelo menos, o lugar era limpo, e o quarto ti-
nha uma janela grande envidraada que estava bem aberta
para deixar entrar a fresca brisa da tarde. O cheiro dos
campos recm-arados chegou at eles, quando olharam
para fora e viram a confuso de telhados inclinados da
cidade.
        O dono da pousada e sua esposa eram idosos e pa-
reciam hospitaleiros e amistosos com seus dois hspedes
principalmente depois de terem visto as armas e a arma-
dura empilhadas nos cavalos sem cavaleiro alinhados na
rua. Para eles, estava claro que o jovem cavaleiro era uma
pessoa de posses. E tambm uma pessoa de considervel
importncia, a julgar pela maneira como ele deixava todas
as negociaes para o seu empregado, o sujeito um tanto
mal-humorado que usava uma capa cinza-esverdeado. Sa-
tisfazia ao esnobismo do senhorio pensar que pessoas
nascidas em bero nobre no se dignavam a mostrar inte-
resse por assuntos comerciais, como o preo de um quar-
to para dormir.
        Tendo verificado que no havia mercado na cidade
onde poderiam converter o produto de seus combates em
dinheiro, Halt deixou que o cavalario da pousada aco-
modasse os cavalos para a noite. Todos, exceto Abelard e
Puxo,  claro. Ele cuidou deles pessoalmente e ficou sa-
tisfeito em ver que Horace fez o mesmo com Kicker.
        Quando os cavalos estavam acomodados, os dois
companheiros voltaram para o quarto. A mulher do esta-
lajadeiro tinha dito que o jantar ficaria pronto somente
dali a 1 ou 2 horas.
        -- Vamos usar esse tempo para cuidar desse brao
-- Halt disse a Horace.
        O jovem rapaz se deixou cair na cama agradecido e
suspirou satisfeito. Ao contrrio da expectativa de Halt, as
camas eram macias e confortveis e eram cobertas por
lenis brancos perfumados e cobertores grossos e lim-
pos. A um gesto do arqueiro, o aprendiz se levantou e ti-
rou a malha de ferro e a tnica, gemendo levemente por
causa da dor quando levantou o brao na altura do om-
bro.
       O hematoma tinha se espalhado por todo o brao,
deixando uma mancha de carne descorada de um azul e-
negrecido com feias bordas amarelas. Halt tocou o feri-
mento com olhar crtico, apalpando para ter certeza de
que no havia ossos quebrados.
       -- Aai! -- Horace gritou quando os dedos do ar-
queiro apalparam o hematoma  procura de alguma coisa.
       -- Doeu? -- Halt perguntou, e Horace olhou para
ele desesperado.
       -- Claro que sim -- respondeu depressa. -- Foi
por isso que gritei.
       -- Hummm -- Halt resmungou pensativo.
       Levantando o brao, ele o virou de um lado para
outro, enquanto o rapaz rangia os dentes para no gritar
de dor. Finalmente, incapaz de conter seu aborrecimento
por mais tempo, ele se afastou de Halt.
       -- Voc acha mesmo que vai encontrar alguma coi-
sa aqui? -- ele perguntou num tom irritado. -- Ou voc
s est se divertindo em me causar dor?
       -- Estou tentando ajudar -- Halt disse com suavi-
dade. Ele tentou pegar o brao outra vez, mas Horace re-
cuou.
       -- Deixe as mos longe de mim -- ele disse. --
Voc s est me cutucando e me apalpando. No sei co-
mo isso pode ajudar.
       -- S estou tentando me certificar de que no tem
nada quebrado -- Halt explicou.
       Mas Horace balanou a cabea para o arqueiro.
       -- No quebrou nada. Estou machucado, s isso.
       Halt fez um gesto impotente e resignado. Ele abriu
a boca para falar, planejando tranquilizar Horace e garantir
que estava mesmo tentando ajudar.
       Houve uma leve batida na porta e, antes que o som
tivesse morrido, ela se abriu de repente e a mulher do es-
talajadeiro entrou com os braos cheios de travesseiros
novos para a cama. Ela sorriu para os dois e ento seu o-
lhar caiu sobre o brao do garoto. O sorriso desapareceu e
foi substitudo imediatamente por um ar de preocupao
maternal.
       Ela soltou uma torrente de palavras em gals, que
nenhum dos dois compreendeu, e se aproximou rapida-
mente de Horace, largando os travesseiros na cama. Ele a
observou com desconfiana quando ela estendeu a mo
para tocar seu brao ferido. Ela parou, apertou os lbios e
o encarou de um jeito tranquilizador. Satisfeito, ele deixou
que a mulher examinasse o ferimento.
       A mulher trabalhou com gestos delicados, leves e
quase imperceptveis. Horace, submetendo-se ao seu exa-
me, olhou para Halt de um jeito significativo. O arqueiro
ficou carrancudo e se sentou na cama para observar. Fi-
nalmente, a mulher recuou e, pegando o brao do rapaz,
fez que se sentasse na beira da cama e se virou para falar
com os dois homens, apontando o brao descorado.
       -- Ele no quebrou nenhum osso -- ela disse hesi-
tante, e Halt concordou.
       -- Pensei a mesma coisa -- ele retrucou, e Horace
fungou com desdm.
       A mulher as sentiu uma ou duas vezes e ento con-
tinuou, escolhendo as palavras com cuidado. Seu domnio
do idioma araluense era inexato, para dizer o mnimo.
       -- Hematomas -- ela disse. -- Hematomas feios.
Precisam... -- ela hesitou procurando a palavra e ento a
encontrou. -- Ervas... -- ela esfregou as duas mos, imi-
tando o ato de esfregar ervas umas nas outras para formar
um cataplasma. -- Esmagar ervas... pr aqui.
       Ela tocou o brao ferido mais uma vez, e Halt con-
cordou com um gesto.
       -- Bom -- ele disse a ela. -- Por favor, faa isso
depressa.
       Ele olhou para Horace.
       -- Estamos com sorte -- ele afirmou. -- Ela pare-
ce saber o que est fazendo.
       -- Voc quer dizer que eu estou com sorte -- Ho-
race disse preocupado. -- Se ficasse nas suas mos delica-
das, provavelmente estaria sem o brao agora.
       A mulher, ouvindo o tom de voz, mas sem com-
preender as palavras, apressou-se a tranquiliz-lo, emitin-
do sons montonos e tocando o ferimento com leveza.
       -- Dois dias... trs... sem ferimento, sem dor -- ela
garantiu, e Horace sorriu para ela.
       -- Obrigado, senhora -- ele agradeceu no tom e-
ducado que imaginou que um jovem cavaleiro galante de-
veria usar. -- Vou ficar lhe devendo a vida toda.
       Ela sorriu para ele e, com gestos outra vez, indicou
que ia pegar suas ervas e remdios. Horace se levantou e
fez uma curvatura desajeitada quando ela saiu do quarto,
rindo sozinha.
       -- Ah! Pooor favor -- Halt gemeu, revirando os
olhos para o alto.
O calor na sala de jantar de Ragnak era intenso. O grande
nmero de pessoas e o fogo imenso e aberto que se es-
tendia por quase toda a largura numa extremidade do apo-
sento combinavam-se para manter a temperatura descon-
fortavelmente quente, apesar da neve alta que cobria o
cho do lado de fora.
       A sala era imensa, comprida e de teto baixo, com
duas mesas que iam de uma ponta  outra e uma terceira,
a mesa de Ragnak, colocada transversalmente s outras na
ponta oposta ao fogo. As paredes eram de troncos de pi-
nho lisos, rusticamente cortados, e vedadas, onde seu
formato irregular tinha deixado aberturas, com uma mis-
tura de argila e lama dura como pedra.
       Mais troncos de pinho inclinavam-se para o alto
formando ngulos que sustentavam o telhado, feito de
uma camada firmemente entrelaada de junco e folhas
que, em certos lugares, atingia quase um metro de espes-
sura. Aparte interna no era revestida. Ripas menores de
madeira spera tinham sido presas nas vigas do teto para
sustentai o telhado.
       O barulho, causado por quase 150 escandinavos
bbados comendo, rindo e gritando era ensurdecedor. E-
rak olhou ao redor e sorriu. Era bom estar em casa outra
vez.
       Ele aceitou outra caneca de cerveja de Borsa, hilf-
mann de Ragnak. Enquanto Ragnak era o oberjarl, ou
principal jarl de todos os escandinavos, o hilfmann era o
administrador que cuidava das tarefas dirias de toda a
nao. Ele se certificava de que a terra fosse cultivada, que
os impostos fossem pagos e enviados na poca certa e de
que uma parte de todos os saques -- um quarto de tudo o
que tinha sido roubado -- fosse pago de imediato e con-
siderado justo pelos comandantes dos navios.
       -- Maus negcios em todo lugar, Erak -- ele disse.
       Eles estavam discutindo a expedio malsucedida
at Araluen.
       -- Nunca deveramos ter nos envolvido numa
guerra de to longa durao. No  nosso jogo. Ns fo-
mos feitos para invases rpidas. Entrar, agarrar o prmio
e partir novamente com a mar.  assim que agimos.
Sempre foi.
       Erak assentiu. Ele tinha pensado a mesma coisa
quando Ragnak o indicou para a expedio. Mas o oberjarl
no estava disposto a ouvir seu conselho.
       -- Mesmo assim, Morgarath nos pagou adiantado
-- o hilfmann continuou.
       Erak ergueu as sobrancelhas.
       -- Ele pagou?
        Era a primeira vez que ouvia essa informao. A-
creditava que ele e seus homens estavam lutando apenas
por qualquer prmio que encontrassem e que a expedio
tinha sido um fracasso total nesse aspecto. Mas seu com-
panheiro balanou a cabea enfaticamente.
        -- Ah, sim,  verdade. Ragnak no  bobo quando
se trata de dinheiro. Ele cobrou Morgarath por seus servi-
os e pelo dos seus homens. Vocs todos vo receber uma
parte.
        Erak pensou que, pelo menos, ele e seus homens
teriam algo para compensar os ltimos meses. Mas Borsa
ainda balanava a cabea por causa da campanha de Ara-
luen.
        -- Sabe qual  nosso maior problema? -- ele per-
guntou. -- No temos generais ou estrategistas -- ele
respondeu antes que Erak pudesse Calar. -- Os escandi-
navos lutam como indivduos. E, nesse aspecto, somos os
melhores do mundo. Mas, quando somos contratados
como mercenrios, no temos estrategistas nossos para
nos liderar. Assim, somos obrigados a confiar em idiotas
como Morgarath.
        -- Quando estivemos em Araluen, eu disse que os
planos dele eram complicados demais, que ele estava con-
fiante demais.
        Borsa apontou o dedo grosso para ele e Erak se es-
pantou com a veemncia do homem.
        -- E voc est certo! Ns podamos usar algumas
pessoas como aqueles arqueiros de Araluen -- ele acres-
centou.
        -- Voc est falando srio? -- Erak perguntou. --
Por que precisamos deles?
        -- No deles, literalmente. Eu me refiro a pessoas
como eles. Pessoas treinadas em planejamento e tticas,
com habilidade de ver os fatos como um todo e usar o
melhor das nossas tropas.
        Erak teve que concordar que o outro homem tinha
razo. Mas a meno aos arqueiros o fez lembrar a ques-
to de Will e Evanlyn. Agora ele viu uma forma de resol-
ver o problema de lidar com eles.
        -- Voc teria utilidade para dois novos escravos na
Grande Manso? -- ele perguntou como quem no quer
nada.
        Borsa as sentiu imediatamente.
        -- Sempre podemos usar algum a mais -- ele dis-
se. -- Voc tem algum em mente?
        -- Um garoto e uma menina -- Erak contou.
        Ele achou melhor no mencionar que Will era a-
prendiz de arqueiro.
        -- Os dois so fortes, saudveis e inteligentes. Ns
capturamos eles na fronteira celta. Eu ia vender os dois
para poder pagar minha tripulao por toda essa confuso.
Mas agora, se voc diz que vou receber mesmo assim, vou
ficar satisfeito em dar eles pra voc.
      -- Certamente vou poder usar eles -- Borsa con-
cordou agradecido. -- Mande os dois para mim amanh.
      -- Fechado! -- Erak retrucou alegre.
      Ele sentiu que um grande peso tinha sido tirado de
sua cabea. -- Agora, onde est a cerveja?




       Enquanto Erak estava decidindo o destino de Will
e Evanlyn, eles tinham sido mantidos trancados numa ca-
bana perto do porto, perto do lugar onde o Wolfwind es-
tava atracado. Na manh seguinte, eles foram acordados
por um escandinavo da equipe de Borsa que os levou 
Grande Manso. Ali, o hilfmann os examinou e analisou
com olho crtico. Ele pensou que a menina era atraente,
mas no parecia ter feito muito trabalho pesado na vida.
O garoto, por sua vez, era musculoso e preparado, embo-
ra um pouco pequeno.
       -- A garota pode ir para o salo de refeies e para
a cozinha -- ele disse ao assistente. -- Ponha o garoto no
ptio.
Uma hora depois do pr do sol, Halt e Horace deixaram
o quarto e desceram para a taberna da pousada para o jan-
tar.
       A mulher do estalajadeiro tinha preparado um sa-
boroso cozido que fervia numa panela enorme pendurada
sobre o grande fogo a lenha que dominava um lado do
aposento. Uma criada lhes trouxe grandes tigelas de ma-
deira com a comida fumegante e longos pes estranhos e
compridos, assados num formato que Horace nunca tinha
visto antes. Eles eram compridos e estreitos e se pareciam
mais com bengalas grossas do que com pes. Mas eram
crocantes do lado de fora e deliciosamente leves do lado
de dentro. E, o aprendiz logo descobriu, eram a ferramen-
ta ideal para recolher o delicioso molho do cozido.
       Halt tinha aceitado um grande copo de vinho tinto
para acompanhar a refeio, e Horace tinha escolhido -
gua. Agora, depois de apreciar uma poro generosa de
uma saborosa torta de framboesas, eles terminaram com
canecas de um excelente caf.
       Horace colocou uma boa poro de mel em sua ca-
neca, observado com cara feia pelo arqueiro.
       -- Destruindo o sabor de um bom caf -- Halt
resmungou para ele, mas Horace apenas sorriu.
       Ele j estava se acostumando  severidade zombe-
teira do companheiro.
       -- Esse  um hbito que aprendi com seu aprendiz.
Por um momento, os dois ficaram em silencio pensando
em Will, perguntando-se o que teria acontecido com ele e
Evanlyn e desejando que os dois estivessem bem e em
segurana.
       Halt finalmente os arrancou de seus pensamentos
ao fazer um gesto de cabea na direo do pequeno grupo
de habitantes locais sentados perto do fogo. Ele e Horace
tinham escolhido uma mesa no fundo da sala. Halt sempre
fazia isso, sentava-se de onde podia observar o resto do
lugar mantinha as costas voltadas para uma parede slida
e, ao mesmo tempo, no chamava muita ateno.
       -- Parece que o entretenimento vai comear -- ele
disse a Horace.
       E, enquanto falavam, as outras pessoas no aposen-
to comearam a puxar as cadeiras para mais perto do fogo
e pedir mais cerveja para o estalajadeiros e seus ajudantes.
       O tocador de gaita-de-fole comeou a tocar e o ins-
trumento de corda rapidamente o acompanhou com to-
ques rpidos e vibrantes para formar um fundo alto e a-
gudo para a melodia arrebatadora e sublime. As gaitas en-
chiam o aposento com um som selvagem e melanclico,
uma voz que atingia o fundo da alma e trazia para a mente
dos ouvintes lembranas de amigos que h muito tinham
partido e de tempos passados.
       Enquanto as notas ecoavam no aposento aquecido,
Halt se viu lembrando os longos dias de vero na floresta
que cercava o Castelo Redmont e uma pequena figura agi-
tada que fazia perguntas interminveis e trazia um novo
sentimento de energia e interesse  vida. No fundo de sua
mente, ele via o rosto de Will: os cabelos desmanchados
pelo capuz, os olhos castanhos vivos e cheios de uma ir-
reprimvel sensao de alegria. Ele se lembrava dele cui-
dando de Puxo, do orgulho que o garoto tinha mostrado
diante da perspectiva de ter um cavalo s seu e do elo es-
pecial que tinha se formado entre os dois.
       Talvez fosse porque Halt sentia os anos pesando
em suas costas  medida que os cabelos grisalhos na barba
tornavam-se mais a norma do que a exceo. Mas Will
tinha trazido uma sensao de juventude, alegria e vitali-
dade para a sua vida, uma sensao que era um contraste
bem-vindo aos caminhos escuros e perigosos que um ar-
queiro muitas vezes tinha que percorrer.
       Tambm se lembrava do orgulho que tinha sentido
quando Horace lhe contou da determinao de Will em
seguir o exrcito dos Wargals em Cltica e de como o ga-
roto tinha enfrentado sozinho os Wargals e os escandina-
vos enquanto Evanlyn trabalhava para garantir que o fogo
queimasse a ponte. Will tinha mais do que um esprito in-
domvel. Ele tinha coragem, engenhosidade e lealdade.
Halt pensou que o menino poderia ter se transformado
num grande arqueiro e ento abruptamente se deu conta
de que tinha pensado no garoto como se essa possibilida-
de no existisse mais. Lgrimas umedeceram seus olhos e
ele, desconfortvel, se mexeu no banco. Fazia muito tem-
po desde que Halt tinha mostrado qualquer sinal exterior
de emoo. Ento, ele deu de ombros. "Will vale pelo
menos algumas lgrimas de um velho acabado de cabelos
brancos como eu", Halt pensou e no fez nenhum gesto
para enxug-las. Ele olhou para Horace com o canto do
olho para ver se o garoto tinha percebido alguma coisa,
mas Horace estava entretido pela msica e, no banco que
dividiam, se inclinava para a frente com os lbios leve-
mente separados, um dedo batendo inconscientemente no
tampo da mesa rstica. " melhor assim", Halt pensou
sorrindo para si mesmo com tristeza. No seria bom que
o garoto o visse se desmanchando em lgrimas ao primei-
ro acorde de uma msica triste. Arqueiros, especialmente
ex-arqueiros traidores que tinham insultado o rei, deviam
mostrar uma expresso mais sria.
       Finalmente a msica terminou e foi aplaudida com
entusiasmo pelas pessoas no aposento. Halt e Horace as
acompanharam com animao, e Halt usou o momento
para disfaradamente passar a mo nos olhos e secar os
traos de lgrimas que havia l.
       Ele percebeu que o pblico jogava moedas para os
msicos num chapu que tinha sido habilmente colocado
no cho ao lado deles. Ele empurrou duas moedas na di-
reo de Horace e fez um sinal para os artistas.
       -- D isso para eles -- ele disse. -- Eles merece-
ram.
       Horace assentiu animado e se levantou para atra-
vessar o aposento, abaixando a cabea debaixo das vigas
pesadas que sustentavam o teto. Ele jogou as moedas no
chapu e foi o ltimo na sala a fazer isso. O tocador de
gaita olhou para ele, viu o rosto desconhecido e agradeceu
com um gesto. Ento, comeou a apertar os foles da gaita
com o cotovelo outra vez e, novamente, a voz persistente
do instrumento tomou corpo e comeou a encher o apo-
sento.
       Horace hesitou, sem querer se mexer agora que ou-
tra cano tinha comeado. Ele olhou para onde Halt es-
tava sentado nas sombras, deu de ombros e se ajeitou no
tampo de uma mesa junto da pequena multido que cer-
cava os artistas.
       Essa msica tinha um tom diferente. Na melodia,
havia uma nota sutil de triunfo que era aumentada pelos
acordes ousados e fortes proporcionados pelo instrumen-
to de corda que se destacava mais nessa cano. De fato,
no demorou muito para que as notas frgeis e ondulantes
do instrumento de forma arredondada arrebatassem o
comando das gaitas-de-fole e fizessem todos na sala as
acompanharem batendo palmas e ps. Um sorriso delicia-
do apareceu no rosto de Horace e, quando a porta da rua
se abriu e uma rajada de vento varreu o aposento, ele mal
notou o recm-chegado que entrou.
        Outras pessoas porm, notaram e Halt, com os sen-
tidos afiados ao extremo por ter vivido situaes perigosas
durante anos, sentiu lima mudana na atmosfera do lugar.
Uma sensao de apreenso e quase desconfiana pareceu
tomar conta das pessoas agrupadas em volta dos msicos.
        Houve at mesmo uma leve hesitao na msica
quando o gaiteiro olhou para cima e viu o homem que
tinha entrado. Era apenas uma interrupo quase imper-
ceptvel no ritmo, mas forte o suficiente para que Halt
notasse.
        Ele observou o recm-chegado. Um homem alto e
forte, talvez dez anos mais jovem do que ele. A barba pre-
ta, as sobrancelhas grossas e os cabelos tambm pretos lhe
davam uma aparncia ameaadora. Era evidente que ele
no era um dos simples moradores da vila. Quando tirou
o casaco, revelou uma malha de ferro coberta por um
manto negro que exibia a insgnia de um corvo branco.
        Na cintura, podia se ver o cabo da espada trabalha-
do com fios de ouro. O boto do punho, tambm de ou-
ro, emitia um brilho fraco. Botas altas de couro macio in-
dicavam que era um guerreiro montado -- um cavaleiro, a
julgar pela insgnia no manto. Halt no tinha dvidas de
que, amarrado do lado de fora da taverna, ele encontraria
um cavalo de batalha; mais provavelmente um totalmente
negro, a julgar pelas cores usadas pelo estranho.
       Era bvio que o recm-chegado estava procurando
algum. Seus olhos percorreram o aposento rapidamente,
passaram por Halt sem notar a figura sombria no fundo
da sala e finalmente pararam em Horace. Ele franziu um
pouco as sobrancelhas e assentiu, quase imperceptivel-
mente, para si mesmo. O garoto, enfeitiado pela msica,
mal tinha notado a chegada do cavaleiro e naquele mo-
mento no prestava ateno  anlise profunda a que era
submetido.
       Havia pessoas no aposento que viam o que aconte-
cia. Halt notou o aumento do interesse do estalajadeiro e
de sua mulher enquanto observavam e esperavam o rumo
dos acontecimentos. E vrios moradores locais mostra-
vam sinais de ansiedade, de que preferiam estar em outro
lugar.
       A mo de Halt procurou a aljava debaixo da mesa.
Como sempre, suas armas estavam facilmente ao alcance,
mesmo quando comia, e o arco encostado  parede atrs
dele j estava encordoado. Agora, ele tirou uma flecha da
aljava e a colocou na mesa diante dele enquanto a msica
chegava ao fim.
       Desta vez, no houve um coro de aplausos das pes-
soas na sala. Apenas Horace bateu palmas com entusias-
mo, e quando percebeu que era o nico que fazia isso,
parou confuso e ficou vermelho de vergonha.
       Ento ele tambm notou o homem armado na ta-
berna, parado a uma dzia de passos de distncia dele, que
o olhava com uma intensidade que beirava a agresso.
        O garoto recuperou a compostura e cumprimentou
o recm-chegado com um gesto de cabea. Halt ficou sa-
tisfeito ao ver que Horace teve a presena de esprito de
no olhar em sua direo. O aprendiz tinha sentido que
alguma coisa desagradvel podia estar prestes a acontecer
e entendeu a vantagem que teriam se Halt no fosse nota-
do.
        Finalmente, o homem falou com a voz grave e rou-
ca. Ele era encorpado e to alto quanto Horace. Halt con-
cluiu que aquele no era um guerreiro de estrada. Aquele
homem era perigoso.
        -- Voc  o cavaleiro da folha de carvalho? -- ele
perguntou num tom meio zombeteiro.
        Ele falava bem a lngua de Araluen, mas com um
forte sotaque gals.
        -- Acredito que me chamam assim -- Horace res-
pondeu depois de uma leve pausa.
        O cavaleiro pareceu pensar na resposta, balanou a
cabea e sorriu com desdm.
        -- Voc acredita? -- ele repetiu. -- Mas ser que
se pode acreditar em voc? Ou voc  um co araluense
que late nas sarjetas?
        Horace franziu a testa confuso. Aquela era um ten-
tativa desajeitada de insult-lo. Por algum motivo, o outro
homem estava tentando provocar uma briga. E isso, para
Horace, era motivo suficiente para no ser provocado.
        -- Se voc pensa assim -- ele respondeu com cal-
ma e com uma mscara de indiferena no rosto.
       Mas Halt tinha percebido como a mo esquerda do
garoto tinha se virado quase imperceptivelmente para o
quadril esquerdo onde ele normalmente levava a espada.
Agora, ela estava pendurada atrs da porta do quarto no
andar superior. Horace estava armado somente com a fa-
ca.
       O cavaleiro tambm notou o movimento involun-
trio. Ele sorriu, os lbios formando um arco cruel, e deu
um passo na direo do jovem e musculoso aprendiz. Ele
avaliou o jovem rapaz. Ombros largos, cintura delgada e
obviamente musculosa. E ele se movimentava bem, com a
graa e o equilbrio naturais que eram a marca de um guer-
reiro experiente.
       Mas o rosto era jovem e absolutamente sem mal-
cia. Aquele no era um oponente que tinha combatido
homens quase at a morte repetidas vezes. Aquele no era
um guerreiro que tinha aprendido as habilidades mais per-
versas na implacvel escola do combate mortal. O garoto
mal tinha comeado a se barbear. Sem dvida alguma, ele
era um lutador treinado e devia ser respeitado.
       Mas no temido.
       Depois de fazer sua avaliao, o homem mais velho
deu mais um passo na direo de Horace.
       -- Meu nome  Deparnieux -- ele se apresentou.
Obviamente, ele imaginava que o nome tivesse algum sig-
nificado.
       Horace apenas deu de ombros afavelmente.
       -- Bom para voc -- ele respondeu, fazendo que
as sobrancelhas negras se contrassem ainda mais.
       -- No sou nenhum caipira de beira de estrada que
voc pode derrotar com truques e comportamento deso-
nesto. Voc no vai me pegar despreparado com suas tti-
cas covardes como fez com tantos dos meus compatrio-
tas.
       Ele parou para ver se as palavras insultuosas esta-
vam exercendo o efeito desejado. Horace, contudo, era
esperto o bastante para no lazer objees. Ele apenas deu
de ombros novamente.
       -- Vou me lembrar disso, com toda certeza -- ele
respondeu com suavidade.
       Mais um passo e o cavaleiro de constituio robusta
ficou ao alcance do brao. Seu rosto se cobriu de raiva ao
ouvir a resposta de Horace e a recusa do garoto em ser
insultado.
       -- Sou o lder militar desta provncia! -- ele gritou.
-- Um guerreiro que liquidou mais intrusos estrangeiros e
mais covardes araluenses do que qualquer outro cavaleiro
nestas terras. Pergunte a eles se no  verdade!
       E fez um gesto com o brao mostrando as pessoas
nervosas sentadas as mesas ao redor do fogo. Por um
momento, no houve resposta, ento ele virou o olhar
afogueado para elas, desafiando-as a discordar.
       Todas baixaram os olhos ao mesmo tempo e con-
cordaram, resmungando de m vontade. Ento o olhar do
homem se voltou para Horace para desafi-lo outra vez.
O menino o retribuiu impassvel, mas um tom avermelha-
do estava comeando a colorir suas faces.
       -- Como eu disse -- ele respondeu com cuidado
--, vou me lembrar disso.
       Os olhos de Deparnieux brilharam.
       -- E eu afirmo que voc  um covarde e um ladro
que matou guerreiros galeses com subterfgios e trapaas
e roubou suas armaduras, seus cavalos e pertences! -- ele
concluiu com a voz cada vez mais alta.
       Houve um longo silncio no aposento. Finalmente,
Horace respondeu.
       -- Acho que est enganado -- ele disse no mesmo
tom suave que tinha mantido durante todo o confronto.
       Todos na sala respiraram fundo, e Deparnieux re-
cuou furioso.
       -- Est me chamando de mentiroso? -- ele inda-
gou.
       -- De jeito nenhum -- Horace negou balanando a
cabea. -- Estou dizendo que voc est cometendo um
erro. Pelo jeito, algum lhe deu uma informao errada.
       Deparnieux estendeu as mos e se dirigiu as presen-
tes.
       -- Vocs ouviram o que ele disse! Ele me chamou
de mentiroso! Isso  intolervel.
       E, como tinha planejado, no mesmo movimento no
qual estendeu as mos, puxou uma das luvas de baixo do
cinto e agora, antes que algum pudesse reagir, deu impul-
so para atingir o rosto de Horace com ela num desafio que
no podia ser ignorado.
       Com uma sensao de triunfo, Deparnieux come-
ou o movimento da mo para que a luva batesse no rosto
do garoto. Apenas para t-la arrancada da mo por dedos
invisveis e jogada para o outro lado do aposento, onde
parou pendurada numa das vigas de carvalho que susten-
tavam o teto.
"Ento, vamos ser separados afinal", Will pensou.
       Evanlyn foi levada para longe, tropeando ao se vi-
rar para olhar para ele com uma expresso preocupada no
rosto. Ele forou um sorriso de encorajamento e acenou
para ela, produzindo um gesto casual e alegre, como se
eles fossem se ver em breve.
       Sua tentativa de deix-la animada foi interrompida
por um forte tapa na cabea. Ele cambaleou por alguns
metros com os ouvidos assobiando.
       -- Mexa-se, escravo! -- rosnou Tirak, o supervisor
escandinavo do ptio. -- Vamos ver se voc tem mesmo
motivos para sorrir.
       Will logo descobriu que os motivos quase no exis-
tiam.
       De todos os prisioneiros dos escandinavos, os es-
cravos do ptio tinham as tarefas mais duras e desagrad-
veis. Os escravos domsticos, os que trabalhavam nas co-
zinhas e nas salas de refeies, tinham pelo menos o con-
forto de trabalhar e dormir num local aquecido. Eles po-
diam cair exaustos em suas cobertas no fim do dia, mas as
cobertas eram quentes.
       Por outro lado, os escravos do ptio faziam todas
as tarefas exteriores, rduas e desagradveis, que precisa-
vam ser realizadas: cortar lenha, limpar neve dos cami-
nhos, esvaziar as latrinas e se livrar de seu contedo, ali-
mentar e dar gua para os animais e limpar os estbulos.
Todos esses trabalhos tinham que ser feitos no frio cor-
tante. E, quando o esforo provocava suor, os escravos
eram deixados com as roupas midas que congelavam ne-
les depois que as tarefas eram concludas, sugando o calor
de seus corpos.
       Eles dormiam num velho celeiro em runas que ti-
nha poucas condies de manter o frio do lado de fora,
por causa das correntes de ar. Cada escravo recebia um
cobertor fino, uma proteo totalmente inadequada quan-
do as temperaturas caam abaixo de zero. Eles completa-
vam as cobertas com qualquer trapo ou saco que conse-
guiam encontrar. Eles os roubavam, mendigavam por eles.
E, muitas vezes, lutavam por eles. Nos seus primeiros di-
as, Will viu dois escravos machucados, quase mortos, por
causa de brigas por pedaos de sacos.
       Will percebeu que ser um escravo do ptio era mais
do que desagradvel. Era totalmente perigoso.
       O sistema sob o qual trabalhavam aumentava o pe-
rigo. Tirak era o chefe do ptio, mas ele delegava essa au-
toridade para uma pequena gangue corrupta conhecida
como o Comit. Ela era formada por meia dzia de escra-
vos antigos que caavam juntos e tinham poder de vida e
morte sobre os companheiros. Em troca de autoridade e
alguns confortos adicionais, como comida e cobertores,
eles mantinham uma disciplina brutal no ptio, organiza-
vam a lista de servios e distribuam tarefas para os outros
escravos. Os que se submetiam a eles e obedeciam recebi-
am as tarefas mais fceis. Os que resistiam se viam reali-
zando os trabalhos mais desagradveis, frios e perigosos.
Tirak ignorava os excessos. Ele simplesmente no se im-
portava com os escravos sob seu comando. Eles eram
dispensveis para ele e a vida dele era muito mais simples
quando usava o Comit para manter a ordem. Se o grupo
matasse ou aleijasse um ou outro rebelde, o preo a pagar
era baixo.
       Era inevitvel que Will, sendo a pessoa que era, en-
trasse em choque com o Comit. Isso aconteceu no seu
terceiro dia no ptio. Ele estava voltando da floresta onde
tinha ido apanhar lenha e arrastava um tren cheio pela
neve fina. Suas roupas estavam midas de suor e da neve
que derretia, e ele sabia que assim que parasse de se mo-
vimentar ficaria tremendo de frio. As pequenas raes que
recebiam para comer pouco ajudavam a restaurar o calor
do corpo e, a cada dia, ele sentia sua fora e resistncia
diminuindo um pouco mais.
       Quase dobrado em dois, ele arrastou o tren para o
ptio e o fez parar ao lado da cozinha, onde os escravos
da casa iriam descarreg-lo e levar a lenha para o calor das
grandes cozinhas. Sua cabea girou um pouco quando en-
direitou o corpo e ento, de trs de um dos anexos da co-
zinha, ele ouviu uma voz praguejando enquanto outra
choramingou de dor.
        Curioso, ele largou o tren e foi ver qual era a causa
da agitao. Um garoto magro e esfarrapado estava enco-
lhido no cho enquanto um jovem mais velho e forte batia
nele com um pedao de corda cheio de ns.
        -- Sinto muito, Egon! -- a vtima choramingou. --
Eu no sabia que era seu!
        Will percebeu que os dois eram escravos, mas o ra-
paz grande parecia bem alimentado e usava roupas quen-
tes, apesar de estarem rasgadas e manchadas. Will calculou
que ele tinha cerca de 20 anos. Will tinha notado que no
havia escravos mais velhos no ptio e teve a desagradvel
desconfiana de que isso acontecia porque os escravos
no viviam muito tempo.
        -- Voc  um ladro, Ulrich! -- acusou o rapaz
mais forte. -- Eu vou ensinar voc a no pegar as minhas
coisas!
        Ele estava mirando a cabea de sua vtima com a
corda nodosa e a batia no ar com fria. Will viu que o ros-
to do garoto estava muito ferido e, enquanto observava,
um corte se abriu exatamente debaixo do olho do menino
e o sangue cobriu seu rosto. Ulrich gritava e tentava cobrir
o rosto com os braos descobertos. Seu atormentador da-
va golpes cada vez mais violentos. Will no conseguiu
mais ficar parado, olhando. Ele se aproximou, pegou a
ponta da corda quando Egon ia atacar novamente e deu
um puxo para trs.
        Egon perdeu o equilbrio. Cambaleou e soltou a
corda, virando-se para olhar quem tinha ousado interrom-
p-lo. Ele esperava ver Tirak ou outro escandinavo parado
ali. Nenhuma outra pessoa teria coragem de se meter com
um membro do Comit. Para sua surpresa, ele se viu o-
lhando para um garoto baixo e magro que parecia ter uns
16 anos de idade.
        -- Acho que j foi o bastante -- Will disse jogando
a corda na neve suja do ptio da cozinha.
        Furioso, Egon deu um passo  frente. Ele era maior
e mais forte do que Will e estava pronto para castigar a-
quele estranho idiota. Ento algo no olhar desse estranho
e sua atitude determinada o impediram. Ele no viu medo
ali. E ele parecia preparado e disposto a lutar. Egon per-
cebeu que o rapaz era novo no ptio e ainda em condies
relativamente boas. Will no era um alvo fcil, como o
infeliz Ulrich.
        -- Desculpe, Egon -- o garoto maltrapilho gemeu.
        Ele rastejou at o membro do Comit e encostou a
cabea nas suas botas gastas.
        -- No vou fazer isso de novo.
        Egon j tinha perdido interesse em sua vtima inici-
al. Empurrou o garoto com o p.
        Ulrich olhou para cima e ao sentir que no estavam
prestando ateno nele aproveitou para fugir.
       Egon mal notou a fuga do garoto. Ele olhava para
Will e o avaliava. Aquela no seria uma vtima fcil, mas
havia outras formas de lidar com encrenqueiros.
       -- Como voc se chama? -- ele perguntou com os
olhos semicerrados e a voz baixa de raiva.
       -- Meu nome  Will -- disse o aprendiz de arquei-
ro, e Egon balanou a cabea devagar vrias vezes.
       -- Vou me lembrar disso -- ele garantiu.
       No dia seguinte, Will foi escolhido para trabalhar
com as ps.




        O trabalho nas ps era o mais temido entre os es-
cravos do palio. O suprimento de gua potvel de Halla-
sholm vinha de uma grande nascente no centro da praa
em frente  Grande Manso de Ragnak. Com a chegada
do inverno, se no se tomasse cuidado, a gua da nascente
iria congelar. Assim, os escandinavos tinham instalado
enormes ps de madeira que agitavam a gua constante-
mente e partiam o gelo antes que tudo se solidificasse.
Empurrar as manivelas que faziam as lminas de madeira,
difceis de lidar, girar na gua era um trabalho constante e
cansativo. Da mesma forma que limpar a neve era um tra-
balho mido, frio e muito debilitante. Ningum durava
muito tempo nas ps.
       Will tinha trabalhado metade da manh, mas j se
sentia exausto, todos os msculos dos braos, costas e
pernas doam por causa do esforo.
       Ele empurrava a manivela, lisa por causa dos anos
de manejo de uma sucesso de mos praticamente mortas.
Fazia apenas alguns minutos que tinha agitado a superfcie
da gua da nascente, mas uma fina camada de gelo j se
formava na superfcie. Ela se partiu quando a lmina de
madeira bateu nela e se moveu rapidamente de um lado a
outro. Do outro lado da nascente, um colega se retorcia e
virava sua p, mantendo a gua em movimento, impedin-
do-a de se congelar. Logo que chegou, Will tinha cumpri-
mentado o outro escravo com um aceno de cabea, mas
foi ignorado. Desde ento, com exceo dos gemidos
constantes provocados pelo esforo, eles tinham trabalha-
do em silncio.
       Uma pesada tira de couro, brandida pelo supervi-
sor, estalava em volta de seus ombros. Ele ouvia o baru-
lho, sentia o impacto. Mas no havia a sensao ardida do
golpe que era amortecida pelo frio.
       -- Mergulhe as ps mais fundo! -- o supervisor
rosnou. -- A gua embaixo vai congelar se voc s passar
as ps na superfcie.
       Gemendo baixinho, Will obedeceu e se levantou
nas pontas dos ps para mergulhar a p de madeira na -
gua gelada, respingando gua por todos os lados. Ele sen-
tiu o toque gelado da gua no corpo j totalmente molha-
do. Era quase impossvel ficar seco. Ele sabia que, quando
parasse para um dos breves momentos de descanso a que
tinham direito, as roupas congeladas iriam retirar o calor
do corpo e ele iria recomear a tremer.
       Eram os tremores incontrolveis que mais o assus-
tavam.  medida que ele esfriasse, seu corpo comearia a
sacudir. Ele tentou parar a tremedeira e sentiu que no
conseguiria. Desanimado, Will se deu conta de que tinha
perdido o controle sobre o prprio corpo. Seus dentes
batiam, suas mos balanavam, e ele no podia fazer nada.
A nica maneira de se aquecer outra vez era recomeando
a trabalhar.
       Finalmente, acabou. At os escandinavos reconhe-
ciam que ningum podia trabalhar mais do que 4 horas
nas ps. Trmulo e exausto, totalmente esgotado, Will
cambaleou para trs onde estava o celeiro com as camas.
Ele tropeou e caiu ao se aproximar do lugar que lhe tinha
sido destinado para dormir, sem se esforar para levantar
de novo. Ansioso para sentir o fraco calor oferecido pelo
cobertor fino, ele rastejou de quatro.
       Ento ele soltou um grito rouco de desespero. O
cobertor tinha sumido!
       Chorando, Will se encolheu no cho frio. Seus joe-
lhos estavam dobrados e ele os envolveu com os braos
numa tentativa de conservar o calor do corpo. Will lem-
brou o casaco de arqueiro, to quente, perdido ao ser cap-
turado por Erak e seus homens. Os tremores comearam
e ele sentiu o corpo todo ser dominado. O frio se enterra-
va no fundo de sua carne, atingia seus ossos e sua alma.
       No havia nada alm do frio. Seu mundo estava
cercado pelo frio. Ele era o frio. Inevitvel, insuportvel.
No havia a menor fasca de calor em seu mundo.
       No havia nada alm do frio.
       Will sentiu algo spero no rosto. Ele abriu os olhos
e viu algum inclinado sobre ele estendendo um pedao
de saco grosseiro sobre seu corpo trmulo. Ento uma
voz baixa falou ao seu ouvido.
       -- Fique calmo, amigo. Seja forte.
       A pessoa que falava era um escravo alto, barbado e
despenteado, mas foram os olhos dele que Will notou.
Eles estavam cheios de compreenso e solidariedade. Pa-
teticamente, Will puxou o tecido spero para perto do
queixo.
       -- Ouvi falar do que voc tentou fazer por Ulrich
-- seu salvador contou. -- Temos que ficar unidos se
quisermos sobreviver neste lugar. A propsito, meu nome
 Handel.
       Will tentou responder, mas seus dentes estavam ba-
tendo incontrolavelmente e sua voz tremia ao tentar for-
mar palavras. Era intil.
       -- Aqui, experimente isto -- Handel ofereceu, o-
lhando em volta para se certificar de que no estavam
sendo observados. -- Abra a boca.
       Will se esforou para separar os dentes e Handel
escorregou alguma coisa em sua boca que parecia um pu-
nhado de ervas secas.
       -- Ponha isso debaixo da lngua -- Handel sussur-
rou. -- Espere derreter. Voc vai ficar bem.
       E, depois de alguns momentos,  medida que a sa-
liva umedecia a substncia debaixo da lngua, Will sentiu a
melhor e mais fantstica onda de calor tomar conta de seu
corpo. O calor maravilhoso espantou o frio, espalhou-se
at a ponta dos dedos das mos e dos ps em vrias ondas
pulsantes. Ele nunca tinha sentido nada to maravilhoso
em toda a vida.
       O tremor diminuiu  medida que sucessivas ondas
de calor se espalhavam por sua pele. Seus msculos rgi-
dos relaxaram e foram dominados por uma deliciosa sen-
sao de paz e bem-estar. Ele olhou e viu Handel sorrindo
e balanando a cabea para ele. Aqueles maravilhosos o-
lhos calorosos sorriam para tranquiliz-lo e ele sabia que
tudo ficaria bem.
       -- O que  isso? -- ele perguntou, falando de um
jeito esquisito por causa do chumao ensopado que havia
em sua boca...
       --  a erva do calor -- Handel informou com deli-
cadeza. -- Ela nos mantm vivos.
       Das sombras de um canto afastado, Egon observa-
va os dois vultos e sorriu. Handel tinha feito um bom tra-
balho.
O    cavaleiro vestido de negro praguejou violentamente
quando a flecha arrancou a luva de sua mo e bateu com
estrondo, levando o apetrecho com ela, numa grossa viga
de carvalho.
        O impacto firme da flecha na viga atraiu seu olhar
por um segundo e ento ele se virou desconfiado para ve-
rificar de onde tinha vindo o projtil. Pela primeira vez,
constatou a presena de um vulto escuro e indistinto nas
sombras no fundo do aposento. Ento, quando Halt saiu
de trs da mesa e ficou visvel na luz, ele tambm enxer-
gou o arco em que uma segunda flecha estava pronta na
corda. O arqueiro no tinha se incomodado em levantar o
arco, mas Deparnieux tinha acabado de ver um exemplo
de sua habilidade. Ele sabia que estava em frente a um
mestre arqueiro, capaz de preparar o arco e atirar numa
questo de segundos. Ele ficou muito quieto, controlando
a raiva com dificuldade, pois sabia que sua vida bem pode-
ria depender de sua capacidade de fazer isso.
        -- Infelizmente para as normas dos cavaleiros --
Halt disse sir Horace, o cavaleiro da Ordem do Carvalho,
est indisposto devido a um ferimento na mo esquerda.
Assim, ele no vai poder responder ao gentil convite que o
senhor estava prestes a fazer.
       Halt tinha entrado ainda mais na luz e Deparnieux
podia enxergar seu rosto com mais clareza. Com a barba
por fazer e carrancudo, aquele era o rosto de um veterano
experiente. Os olhos eram frios e no apresentavam ne-
nhum sinal de indeciso. O cavaleiro soube de imediato
que aquele era um homem com quem se devia tomar cui-
dado.
       Ouviu-se um risinho baixo vindo de um dos mora-
dores da vila que estavam no aposento e, interiormente, o
cavaleiro gals ferveu de raiva. Seu olhar saltou para a fon-
te do barulho e viu um carpinteiro baixando o rosto para
esconder o sorriso. Deparnieux tomou nota do sujeito
mentalmente. Seu dia de prestar contas iria chegar. Exte-
riormente, porm, ele se obrigou a sorrir.
       -- Uma pena -- ele respondeu ao arqueiro. -- Eu
tinha esperanas de realizar um amistoso teste de armas
com o jovem cavaleiro. Sempre obedecendo ao esprito da
boa cavalaria,  claro.
       --  claro -- Halt respondeu simplesmente e De-
parnieux soube que no tinha conseguido engan-lo por
um momento sequer. -- Mas, como eu disse, talvez te-
nhamos que desapont-lo, j que estamos realizando uma
viagem numa busca urgente.
       --  mesmo? -- Deparnieux indagou levantando
as sobrancelhas intrigado. -- E para onde voc e o seu
jovem mestre esto indo?
       Ele acrescentou "jovem mestre" para verificar o e-
feito que as palavras iriam exercer no homem barbado
parado  sua frente. Era bvio quem era o patro ali, e
no era o jovem cavaleiro. Ele tinha esperado ferir o orgu-
lho do outro homem e possivelmente lev-lo a cometer
um erro.
       A esperana, porm, no durou muito. Ele perce-
beu um leve brilho divertido no olhar do arqueiro quando
ele reconheceu a manobra.
       -- Ah, para vrios lugares -- Halt respondeu va-
gamente. -- No  uma tarefa de interesse suficiente para
um comandante como o senhor.
       O tom de voz deixou claro para o cavaleiro que
Halt no iria responder perguntas casuais sobre seu desti-
no final ou o local para onde estavam viajando.
       -- Sir Horace -- ele acrescentou, ciente de que o
garoto ainda estava ao alcance do brao do cavaleiro ne-
gro --, por que no se senta ali e descansa o brao ma-
chucado?
       Horace olhou para ele e, quando compreendeu, a-
fastou-se e se sentou perto do logo. O silncio na sala era
absoluto. Os moradores da vila olhavam para os dois ho-
mens que se confrontavam, perguntando-se como aquela
situao iria terminar. Apenas duas pessoas no aposento,
Halt e Deparnieux, sabiam que o cavaleiro estava tentando
avaliar suas chances de puxar a espada e atingir o arqueiro
antes que ele pudesse atirar. Ao hesitar, Deparnieux en-
controu o olhar decidido do arqueiro.
       -- Eu no faria isso -- Halt disse com suavidade.
       O cavaleiro negro leu a mensagem nos olhos dele e
soube que, por mais rpido que fosse, a reao do outro
homem seria ainda mais rpida. Ele inclinou a cabea le-
vemente reconhecendo o fato. Aquele no era o momen-
to.
       Ele se obrigou a sorrir e se inclinou de modo zom-
beteiro na direo de Horace.
       -- Talvez algum outro dia, sir Horace -- ele disse
com indiferena. -- Vou esperar ansiosamente para lutar
com o senhor quando se recuperar.
       Desta vez ele notou que o garoto olhou rapidamen-
te para o companheiro mais velho antes de responder.
       -- Talvez algum outro dia -- Horace concordou.
       O cavaleiro olhou ao redor do aposento com um
sorriso frio, virou-se nos calcanhares e andou at a porta.
Ele parou ali um momento e procurou Halt com o olhar
mais uma vez. O sorriso desapareceu e a mensagem que
enviou era clara: Na prxima vez, meu amigo. Na prxima vez.
       A porta se fechou atrs dele e um suspiro coletivo
de alvio tomou conta do aposento. No mesmo instante,
todos os presentes comearam a conversar. Os msicos,
percebendo que seu momento tinha acabado por aquela
noite, guardaram os instrumentos e, agradecidos, aceita-
ram bebidas da empregada.
       Horace foi at a viga onde a flecha de Halt tinha
pregado a luva do cavaleiro. Ele soltou a flecha, jogou a
luva numa mesa e devolveu a flecha para Halt.
       -- O que foi tudo isso? -- ele perguntou um pou-
co sem flego.
       Halt voltou para a mesa nas sombras e recostou o
arco na parede novamente.
       -- Isso -- ele disse ao garoto --  o que acontece
quando voc comea a ganhar reputao. Obviamente,
nosso amigo Deparnieux  a pessoa que controla esta rea
e viu voc como um possvel desafio a esse controle. As-
sim, ele veio at aqui para matar voc.
       -- Mas... por qu? -- Horace perguntou balanan-
do a cabea espantado. -- No tenho nenhuma desavena
com o homem. Eu o ofendi de alguma maneira?  claro
que no tive a inteno -- ele afirmou.
       Halt as sentiu srio.
       -- No se trata disso -- ele explicou ao jovem a-
prendiz. -- Ele no liga a mnima para voc. Voc sim-
plesmente foi uma oportunidade para ele.
       -- Uma oportunidade? -- Horace perguntou. --
Para qu?
       -- Para reafirmar seu poder sobre as pessoas da re-
gio -- Halt explicou. -- Gente como ele governa pelo
medo na maior parte do tempo. Assim, quando um jovem
cavaleiro vem para a cidade com a reputao de campeo,
algum como Deparnieux encara o fato como uma opor-
tunidade. Ele provoca uma briga, mata voc e a reputao
dele fica mais forte. As pessoas o temem mais e tm me-
nos probabilidade de desafiar o controle que ele exerce
sobre elas. Entendeu?
       -- No devia ser assim -- o rapaz murmurou com
um tom de desapontamento na voz. -- No  assim que
os cavaleiros deveriam agir.
       -- Nesta parte do mundo  assim -- Halt retrucou.
Jarl   Erak, capito e membro do conselho central dos
jarls mais antigos, estivera fora de Hallasholm por vrias
semanas.
       Ele estava assobiando, enquanto atravessava os
portes abertos da residncia, com uma sensao de satis-
fao por um servio benfeito. Borsa o tinha mandado
navegar costa abaixo at um dos povoados do sul para
investigar uma aparente queda nos impostos pagos pelo
jarl local. Borsa tinha percebido o declnio nos ltimos
quatro ou cinco anos. Nada repentino demais para desper-
tar suspeitas, mas um pouco menos a cada ano.
       Tinha sido preciso uma mente esperta como a de
Borsa para notar a lenta discrepncia e para perceber que a
reduo gradativa na renda informada tinha coincidido
com a eleio de um novo jarl na vila. Pressentindo uma
fraude, o hilfmann tinha escolhido Erak para investigar --
e para convencer o jarl local de que a honestidade, no caso
de impostos devidos a Ragnak, era definitivamente a me-
lhor poltica.
        Deve-se admitir que a ideia que Erak fez de investi-
gar consistiu em agarrar o infeliz jarl pela barba enquanto
ele dormia na escurido antes do amanhecer. Erak ento
ameaou arrancar-lhe o crebro com uma enxada se ele
no fizesse um ajuste rpido para melhor a quantia de im-
postos que estava pagando para Hallasholm. As tticas
eram rudes e rpidas, mas eficazes. O jarl ficara extrema-
mente ansioso para pagar os impostos que faltavam.
        Foi por puro acaso que Erak atravessou os portes
no exato momento em que Will tropeou com a p para
limpar a neve alta que tinha cado dos caminhos na noite
anterior.
        Durante um momento, Erak no reconheceu a fi-
gura magra e trpega. Mas havia algo conhecido no ema-
ranhado cabelo castanho, mesmo manchado e sujo. Erak
parou para ver melhor.
        -- Deus da escurido, garoto! -- ele murmurou. --
 voc mesmo?
        O garoto se virou para olhar com uma expresso
vazia e indiferente. Ele estava reagindo apenas ao som de
uma voz. No havia sinal de ter reconhecido o capito.
Seus olhos estavam vermelhos e sem brilho quando ele
examinou o forte escandinavo. Erak sentiu um grande
tristeza tomar conta dele.
        Ele conhecia os sinais provocados pelo uso da erva
do calor e, claro, sabia que era usada para controlar os es-
cravos do ptio. E ele j tinha visto muitos deles morre-
rem por causa dos efeitos combinados do frio, da desnu-
trio e da falta de vontade de viver que resultava do vcio
na droga. Os dependentes da erva do calor no esperavam
nem planejavam mais nada. Consequentemente, no ti-
nham esperanas para levantar o nimo. Era isso, alm
dos outros fatores, que os matava ao longo do tempo.
        Erak sofria ao ver que o garoto tinha descido tanto,
de ver aqueles olhos antes to cheios de coragem e deter-
minao e que agora no refletiam nada alm do vazio
sem brilho da falta de esperana ou expectativa de um vi-
ciado.
        Will esperou alguns segundos, imaginando que re-
ceberia uma ordem. No fundo de si mesmo, uma leve
lembrana se agitou por 1 ou 2 segundos. A lembrana do
rosto  sua frente e da voz que tinha ouvido. Ento, o es-
foro de lembrar se tornou muito grande, a nvoa do vcio
muito espessa e, com um leve dar de ombros, ele se virou
e caminhou arrastando os ps at o porto para comear a
tirar a neve. Em alguns minutos, ele estaria encharcado do
suor provocado pelo trabalho pesado. Ento, a umidade
iria congelar em seu corpo e o frio iria comer as suas en-
tranhas outra vez. Agora ele conhecia o frio. Ele era o seu
companheiro constante. E com a lembrana do frio vinha
o desejo pelo prximo suprimento da erva. Os seus pou-
cos momentos de conforto.
        Erak observou Will se curvar lenta e desajeitada-
mente para realizar sua tarefa. Ele praguejou baixinho para
si mesmo e se virou Outros escravos do ptio j estavam
trabalhando nas ps na fonte de gua fresca, esmagando o
gelo espesso que tinha se formado durante a noite gelada.
       Erak passou por eles depressa, quase sem v-los. E
no estava mais assobiando.
       Dois dias depois, tarde da noite, Evanlyn foi cha-
mada para os aposentos de jarl Erak.
       Ela tinha conseguido um lugar para dormir perto o
bastante dos grandes fornos para se manter aquecida du-
rante a noite, mas no perto demais para se queimar. Ago-
ra, no fim de um longo dia, tinha estendido o cobertor nas
tbuas duras, deitado agradecida e se envolvido nele. O
travesseiro era um pequeno pedao de madeira da pilha de
lenha enrolado com uma camisa velha. Ela estava recosta-
da nele, escutando os barulhos  sua volta: uma tosse oca-
sional rouca que era resultado inevitvel de se viver na
neve e no gelo da Escandinvia, nessa poca do ano, e as
conversas murmuradas em voz baixa. Essa era uma das
poucas ocasies em que os escravos tinham permisso de
conversar. Geralmente, Evanlyn estava cansada demais
para aproveitar a ocasio.
       Ela ouviu que algum chamando seu nome e se
sentou com um pequeno gemido. Uma escrava dos quar-
tos estava passando entre as fileiras de corpos deitados,
ocasionalmente se inclinando para sacudir um ombro e
perguntar se algum sabia onde poderia encontrar a escra-
va de Araluen chamada Evanlyn. Na maioria das vezes, ela
recebia olhares indiferentes e gestos desinteressados. A
vida entre os escravos no era favorvel  formao de
novos amigos.
        -- Aqui! -- Evanlyn chamou, a escrava dos quar-
tos olhou para ver de onde tinha vindo a voz e ento ca-
minhou com cuidado entre os corpos para chegar at ela.
        -- Voc tem que vir comigo -- ela disse com um
tom de voz pomposo.
        Os escravos dos quartos, que cuidavam de quem
vivia na residncia, se consideravam seres superiores
comparados aos simples escravos da cozinha: uma raa de
pessoas que vivia num mundo de gordura, vinho derra-
mado e comida.
        -- Para onde? -- Evanlyn quis saber, e a garota
fungou com desdm para ela.
        -- Para onde mandarem -- ela respondeu.
        Ento, como Evanlyn no fez meno de se levan-
tar, ela se viu obrigada a acrescentar:
        -- Ordens de jarl Erak.
        Afinal, ela no tinha autoridade pessoal sobre os
escravos da cozinha, mesmo que se considerasse superior.
Os escandinavos no reconheciam essa diferena. Um
escravo era um escravo e, exceto os chefes da gangue no
ptio, eles eram todos iguais.
        Houve um pequeno movimento de interesse dos
outros que estavam sentados e deitados perto dela. No
era novidade que os oficiais superiores recrutassem escra-
vas pessoais entre as jovens garotas mais atraentes.
       Perguntando-se qual seria o significado de tudo a-
quilo, Evanlyn se levantou e dobrou o cobertor com cui-
dado, deixando-o para marcar seu lugar. Depois, fez um
gesto para a outra garota mostrar o caminho e a seguiu
para fora da cozinha.
       A Grande Manso de Ragnak era, na realidade, um
verdadeiro labirinto de passagens e quartos que saam do
Grande Salo central, com p-direito muito alto, onde se
serviam as refeies e se conduziam os negcios oficiais.
A garota levou Evanlyn por uma srie de passagens baixas
e mal iluminadas at chegarem ao que parecia ser um beco
sem sada. Havia uma porta no fim da parede e a escrava
de quarto a indicou para Evanlyn.
       -- Ali dentro -- a escrava disse simplesmente. --
 melhor bater primeiro -- ela ento acrescentou.
       Ento se virou e correu de volta pelo corredor es-
curo. Evanlyn hesitou um momento, sem saber do que se
tratava, e bateu na porta dura de carvalho com o n dos
dedos.
       -- Entre.
       Ela reconheceu, a voz que respondeu  batida. As
cordas vocais de Erak eram treinadas para conduzir seus
homens sobre as ondas do Mar Stormwhite. Parecia que
ele nunca baixava o volume. Havia um trinco do lado de
fora. Ela o levantou e entrou.
       Os aposentos de Erak eram simples. Inevitavel-
mente construdos de troncos de pinho, abrangiam uma
sala de estar e, fechado por uma cortina tecida em l, um
quarto de dormir num dos lados. A sala de estar tinha uma
pequena fogueira queimando numa extremidade, que en-
chia o lugar de um calor agradvel, e vrias cadeiras de
carvalho esculpidas. Uma tapearia muito cara, e, segundo
o que Evanlyn reconheceu, estrangeira, cobria o cho de
madeira. Ela adivinhou que era o resultado de uma das
pilhagens de Erak em Glica. Em seus anos no Castelo de
Araluen, ela tinha visto muitas peas semelhantes. Tecidas
pelos artistas de Tierre Valley durante longos perodos que
muitas vezes chegavam a dez ou vinte anos, os tapetes
geralmente trocavam de mos por uma pequena fortuna.
Por alguma razo, Evanlyn no acreditava que Erak tives-
se pago em dinheiro por ele.
       Recostado em uma das cadeiras esculpidas e de as-
pecto confortvel, o jarl estava sentado perto do fogo. Ele
fez sinal para ela e indicou uma garrafa e copos numa me-
sa baixa no centro do aposento.
       -- Entre, menina. Sirva um pouco de vinho para
ns e sente-se. Temos um assunto para conversar.
       Hesitante, ela atravessou o quarto e derramou o vi-
nho tinto em dois clices. Depois entregou um deles para
o escandinavo e se sentou na outra poltrona. Ao contrrio
de Erak, contudo, ela no se recostou confortavelmente.
Ela ficou ereta na beirada como se estivesse preparada
para fugir. O jarl a observou com o que pareceu ser um
pouco de tristeza e ento acenou para ela.
       -- Relaxe, menina! Ningum vai machucar voc;
muito menos eu. Beba o vinho.
        Lentamente, ela deu um gole e o achou surpreen-
dentemente bom. Erak a observava e viu a expresso in-
voluntria de surpresa em seu rosto.
        -- Ento voc conhece um bom vinho? -- ele per-
guntou. -- Eu peguei um barril desse de um navio floren-
tino na ltima estao de pirataria. Nada mal, no ?
        Ela concordou com um gesto. Ela estava comean-
do a relaxar um pouco e o vinho a deixou um tanto cora-
da. Evanlyn se deu conta de que no tinha tocado em ne-
nhum tipo de bebida alcolica por muitos meses. E lhe
ocorreu que seria melhor que vigiasse seus passos. E sua
lngua.
        Ela esperou que o capito escandinavo falasse. Ele
parecia hesitante, como se no tivesse certeza de que devia
continuar. O silncio cresceu entre eles at que, por fim,
ela no suportou mais. Evanlyn tomou outro gole de vi-
nho e perguntou:
        -- Por que mandou me chamar?
        Jarl Erak estava olhando para as chamas do peque-
no fogo. Surpreso, ele olhou para cima quando a garota
falou. Ele devia estar desacostumado a conversar com es-
cravos. Ento, Evanlyn deu de ombros. Eles podiam ficar
sentados ali, em silncio, a noite toda se ningum tomasse
a iniciativa. Ela estava intrigada por ver um leve sorriso
surgir no rosto barbado. Ocorreu a ela que em outro lu-
gar, em condies diferentes, ela at poderia gostar do
pirata escandinavo.
       -- Provavelmente no pelo motivo no qual voc
est pensando -- ele respondeu e, antes que a moa pu-
desse responder, ele continuou, quase para si mesmo. --
Mas algum tem que fazer alguma coisa e acho que voc 
a pessoa ideal para o trabalho.
       -- Fazer alguma coisa? -- Evanlyn repetiu. -- Fa-
zer alguma coisa sobre o qu?
       Nesse momento, Erak pareceu tomar uma deciso.
Ele soltou um suspiro profundo, tomou a ltima gota de
vinho do copo e se inclinou para a frente, os cotovelos
pousados nos joelhos, o rosto barbado e spero voltado
na direo dela.
       -- Voc tem visto o seu amigo ultimamente? -- ele
perguntou. -- O jovem Will?
       Evanlyn desviou o olhar. Sim, ela o tinha visto. Ou
melhor, ela tinha visto a figura trpega e indiferente na
qual ele tinha se transformado. Alguns dias antes, ele tinha
trabalhado do lado de fora da cozinha e ela lhe levara al-
guma comida. Will arrancou o po das mos dela e o de-
vorou como um animal. Mas, quando falou com ele, Will
apenas a encarou.
       Em duas curtas semanas, ele j tinha se esquecido
de Evanlyn, de Halt e da pequena cabana na beira da flo-
resta perto do Castelo Redmont. Ele tinha esquecido at
os importantes acontecimentos que haviam ocorrido nas
Plancies de Uthal, quando o exrcito do rei Duncan havia
enfrentado e derrotado os implacveis regimentos de
Wargals de Morgarath.
       No que dizia respeito a ele, esses acontecimentos e
todos os outros de sua jovem vida poderiam muito bem
ter ocorrido do lado oculto da lua. Atualmente, sua vida e
todo o seu ser se concentravam apenas em um pensamen-
to.
       Seu prximo suprimento de erva do calor.
       Um dos outros escravos, uma mulher mais velha,
tinha testemunhado o encontro e falou com suavidade
com Evanlyn quando ela voltou  cozinha.
       -- Esquea seu amigo. A droga tomou conta dele.
Ele j est morto.
       -- Eu o vi -- ela disse a Erak em voz baixa.
       -- Eu no tive nada a ver com isso -- ele retrucou
zangado surpreendendo Evanlyn com a intensidade da
resposta. -- Nada. Acredite em mim, menina, detesto a
maldita droga. J vi o que ela faz para as pessoas. Nin-
gum merece esse tipo de vida obscura.
       Evanlyn o encarou outra vez. Era evidente que E-
rak estava sendo sincero e que, igualmente evidente, que-
ria que ela reconhecesse isso. Evanlyn assentiu.
       -- Acredito em voc -- ela afirmou.
       Erak se levantou da poltrona inquieto e andou pelo
aposento pequeno e aquecido como se qualquer forma de
ao fsica pudesse aliviar a fria que estava se formando
dentro dele desde que tinha encontrado Will.
       -- Um garoto como ele, um verdadeiro guerreiro.
Ele pode ter a altura de um ano, mas tem o corao de
um verdadeiro escandinavo.
       -- Ele  um arqueiro -- Evanlyn contou em voz
baixa e ele assentiu.
       --  verdade. E ele merece mais do que isso. Essa
maldita droga! No sei por que Ragnak a tolera!
       Ele parou por um longo momento, tentando recu-
perar a calma, e ento se virou para ela e continuou.
       -- Quero que saiba que tentei manter vocs dois
juntos. No tinha ideia de que Borsa iria mand-lo para o
ptio. O homem no tem ideia de como tratar um inimigo
honrado. Mas o que se pode esperar? Borsa no  um
guerreiro. Ele conta sacos de cereais para viver.
       -- Entendo -- Evanlyn comentou com cuidado.
       Ela no tinha certeza disso, mas sentia que o capi-
to esperava alguma resposta dela. Erak olhou para a ga-
rota com ateno, avaliando-a. Ele parecia estar tentando
tomar alguma deciso.
       -- Ningum sobrevive no ptio -- ele acrescentou
com delicadeza, quase para si mesmo.
       Ao ouvir essas palavras, Evanlyn sentiu uma mo
fria envolver seu corao.
       -- Assim, depende de ns fazer alguma coisa a res-
peito -- ele concluiu.
       Evanlyn olhou para ele, a esperana crescendo em
seu peito quando Erak disse essas ltimas palavras.
       -- Exatamente em que tipo de coisa voc est pen-
sando? -- ela perguntou devagar, desejando, apesar de
todas as probabilidades em contrrio, que estivesse enten-
dendo a conversa corretamente.
       Erak fez uma pausa de 1 ou 2 segundos e ento
tomou a firme deciso de se comprometer.
       -- Voc vai escapar -- ele disse finalmente. -- Vai
lev-lo junto com voc e eu vou ajud-los.
Os dois viajantes passaram   uma noite agitada, fazendo
turnos para montar guarda. Nenhum deles tinha certeza
de que o comandante local no voltaria se esgueirando na
escurido. Contudo, eles constataram que seus temores
eram infundados. No houve mais nenhum sinal de De-
parnieux naquela noite.
       Na manh seguinte, enquanto selavam os cavalos
no celeiro no fundo do edifcio, o dono da pousada se
aproximou nervoso de Halt.
       -- Senhor, no posso dizer que esteja triste por v-
lo deixar minha pousada -- ele falou em tom de descul-
pas.
       Halt deu-lhe uns tapinhas no ombro para mostrar
que no estava ofendido.
       -- Posso entender sua posio, meu amigo. Receio
que o seu chefo no tenha gostado de ns.
       O dono da pousada olhou em volta inquieto antes
de concordar com Halt, como se tivesse medo de que al-
gum pudesse estar observando-os e fosse contar sobre
sua deslealdade para Deparnieux. Halt imaginou que pro-
vavelmente isso tivesse acontecido vrias vezes antes na-
quela cidade e sentiu pena do homem que tinha rido no
bar na noite anterior e tinha sido surpreendido pelo cava-
leiro negro.
        -- Ele  um homem muito, muito mau, senhor --
o dono da pousada admitiu em voz baixa. -- Mas o que
gente como ns pode fazer contra ele? Ele tem um pe-
queno exrcito  disposio, e ns somos apenas comerci-
antes, no guerreiros.
        -- Gostaria de poder ajudar vocs -- Halt disse,
mas temos que partir.
        Halt hesitou apenas um segundo e perguntou com
disfarada indiferena:
        -- A balsa em Les Sourges funciona todos os dias?
        Les Sourges era um rio que passava na cidade e ia
para o oeste, a uns 20 quilmetros dali. Halt e Horace es-
tavam viajando para o norte, mas o arqueiro tinha certeza
de que Deparnieux iria voltar e tentar saber para onde ti-
nham ido. Ele no esperava que o estalajadeiro guardasse
segredo sobre sua pergunta, tampouco iria censur-lo por
abrir a boca. O homem agora fazia que sim com a cabea,
confirmando o que Halt tinha perguntado.
        -- Sim, senhor, a balsa ainda est funcionando nes-
ta poca do ano. No ms que vem, quando a gua conge-
lar, ela vai parar e os viajantes vo ter que usar a ponte em
Colpennieres.
        Halt pulou para a sela. Horace j estava montado e
segurava a rdea principal que puxava o grupo de cavalos
capturados. Depois dos acontecimentos da noite anterior,
eles tinham decidido que seria sensato deixar a cidade o
mais depressa possvel.
        -- Ento vamos para a balsa -- Halt avisou em
voz alta. -- Acho que h uma bifurcao na estrada al-
guns quilmetros ao norte, certo?
        -- Isso mesmo, senhor -- o dono da pousada con-
firmou. --  o principal cruzamento que vai encontrar.
Pegue a estrada da direita e vai estar no caminho da balsa.
        Halt levantou a mo para agradecer e se despedir e,
cutucando Abelard com o joelho, saiu do ptio do estbu-
lo.
        Eles viajaram longamente naquele dia. Ao chegar
ao cruzamento, ignoraram a estrada da direita e continua-
ram em frente na direo do norte. No havia nenhum
sinal na estrada de que estivessem sendo perseguidos, mas
as colinas e os bosques que os cercavam poderiam escon-
der um exrcito, se necessrio. Halt no estava totalmente
convencido de que Deparnieux, que conhecia o campo,
no estava viajando paralelo a eles em algum lugar, talvez
usando atalhos para preparar uma emboscada em algum
ponto adiante na estrada.
        Foi quase um anticlmax quando, no meio da tarde,
eles chegaram a uma pequena ponte onde havia um cava-
leiro a espera barrando a passagem e lhes oferecendo a
escolha de pagar o pedgio ou lutar com ele.
        O cavaleiro, montado num cavalo castanho ossudo
que deveria ter sido aposentado dois ou trs anos antes,
estava a quilmetros de distncia do comandante que ti-
nham confrontado na noite anterior. Seu casaco estava
enlameado e rasgado. Talvez tivesse sido amarelo um dia,
mas tinha desbotado para um branco sujo. Sua armadura
tinha sido remendada em vrios lugares e era evidente que
sua lana era feita com o tronco cortado de uma rvore
nova. O escudo tinha a inscrio da cabea de um javali e
parecia apropriado para um homem desbotado, rasgado e
todo desgrenhado como ele.
       Eles pararam observando a cena. Halt suspirou de-
sanimado.
       -- Estou ficando muito cansado disso tudo -- ele
murmurou para Horace e comeou a desamarrar o arco
que estava pendurado em seu ombro.
       -- Um momento, Halt -- Horace pediu, enquanto
tirava o escudo redondo das costas e o ajeitava no brao
esquerdo. -- Por que no deixamos que ele veja a insgnia
da folha de carvalho e esperamos para ver se ele muda de
ideia sobre a proposta?
       Halt fez cara feia para a figura maltrapilha diante
deles, hesitando em estender a mo e pegar uma flecha.
       -- Bem, est certo -- ele disse relutante. -- Mas
vamos lhe dar somente uma chance. Depois, vou atraves-
sar ele com uma flecha. Estou profundamente cansado
dessas pessoas.
       Ele afundou na sela outra vez quando Horace ca-
valgou para encontrar o cavaleiro desmazelado. Halt no-
tou que, at aquele momento a figura no meio da estrada
no tinha emitido nenhum som e isso era incomum. Co-
mo regra geral, os guerreiros de estrada no conseguiam
esperar para apresentar desafios, geralmente apimentando
sua fala com expresses como " lacaio!", "Senhor cava-
leiro, queira tomar posio" e outras bobagens antiquadas
desse tipo.
        E, no exato momento em que o pensamento lhe
ocorreu, sinos de advertncia soaram em sua mente e ele
chamou o jovem aprendiz que j estava a uns 20 metros
de distncia, trotando sobre Kicker para encontrar seu
desafiante.
        -- Horace! Volte!  uma...
        Mas, antes que pudesse pronunciar a ltima palavra,
um vulto sem forma caiu dos galhos de um carvalho que
pendia sobre a estrada e envolveu a cabea e os ombros
do garoto. Por um momento, Horace lutou inutilmente
nas dobras da rede que o prendia. Ento, uma mo invis-
vel puxou uma corda e a rede se apertou em volta dele,
arrancando-o da sela e fazendo-o cair no cho.
        Assustado, Kicker se afastou de costas do cavaleiro
cado, trotou alguns metros e, percebendo que no estava
em perigo, parou e observou com as orelhas em p, caute-
loso.
        -- ...armadilha -- Halt terminou devagar e, zanga-
do com a falta de ateno. Distrado pela aparncia ridcu-
la do cavaleiro mal-arrumado, tinha permitido que seus
sentidos relaxassem, levando-os quela situao difcil.
        Ele tinha uma flecha pronta no arco, mas no havia
um alvo visvel, exceto pelo cavaleiro no velho cavalo de
batalha que ainda estava sentado em silncio no meio da
estrada. Ele no tinha mostrado nenhum sinal de surpresa
quando a rede caiu sobre Horace.
        -- Bem, amigo, voc pode pagar a sua parte nessa
trapaa. Halt murmurou e levantou o arco devagar, puxou
a corda at que a ponta da pena tivesse encostado em seu
rosto, bem acima da curva da boca.
        -- Eu no faria isso -- disse uma voz grave e fami-
liar.
        O cavaleiro enferrujado e esfarrapado levantou o
visor, revelando os traos carrancudos de Deparnieux.
        Halt praguejou baixinho. Ele hesitou, o arco ainda
totalmente puxado, e ouviu uma srie de pequenos baru-
lhos vindos dos arbustos de ambos os lados da estrada.
Lentamente, diminuiu a tenso da corda ao se dar conta
de que pelo menos uma dzia de vultos tinha se levantado
das plantas, todos carregando pequenas bestas mortais. E
todas estavam apontadas para ele.
        Halt recolocou a flecha na aljava pendurada s cos-
tas e baixou o arco at encost-lo na coxa. Sem saber o
que fazer, olhou para onde Horace ainda lutava contra a
malha fina tranada que o envolvia. Agora, mais homens
estavam saindo das rvores e arbustos e se aproximaram
do aprendiz. Enquanto quatro deles o cobriram com bes-
tas, outros trabalhavam para afrouxar as dobras da rede e
faz-lo se levantar com o rosto muito vermelho.
       Deparnieux, com um sorriso largo de satisfao no
rosto, fez o cavalo ossudo descer a estrada na direo de-
les. Ele parou numa distncia em que sua voz podia ser
ouvida e fez uma curvatura apressada at a cintura.
       -- Agora, cavaleiros -- ele disse em tom zombetei-
ro --, vou ter o privilgio de ter vocs como convidados
no Chteau Montsombre.
       -- Como poderamos recusar? -- Halt replicou er-
guendo uma sobrancelha surpreso.
Cinco    dias se passaram desde que Evanlyn tinha sido
convocada aos aposentos de Erak.
       Enquanto esperava outro contato dele, continuou
com a outra parte do plano que ele tinha apresentado,
queixando-se fortemente da possibilidade de ser destinada
a ser uma de suas escravas pessoais. Segundo a histria
que tinham combinado, ela terminaria a semana na cozi-
nha e ento assumiria as novas funes. Ela declarava seu
desagrado em relao a ele em geral, aos seus padres de
higiene em particular e falava sempre que possvel da cru-
eldade que ele tinha demonstrado na viagem a Halla-
sholm.
       Ouvir Erak ser descrito por Evanlyn naqueles pou-
cos dias dava a impresso de que ele era o pior dos dem-
nios do inferno e tinha um mau hlito insuportvel.
       Depois de vrios dias dessa encenao, Jana, uma
das escravas da cozinha mais antigas, no se conteve.
       -- Poderiam acontecer coisas piores para voc, mi-
nha menina. Trate de se acostumar.
       Ela se afastou, cansada das constantes queixas de
Evanlyn, pois, na verdade, a vida de um escravo pessoal
tinha algumas vantagens: roupas e comida melhores, e
quartos mais confortveis para todos.
       -- Prefiro me matar primeiro -- Evanlyn gritou
para ela satisfeita de ter a chance de tornar sua averso
pelo jarl mais pblica.
       Um ajudante da cozinha, um homem livre, no um
escravo, deu-lhe um forte cutuco na parte de trs da ca-
bea, fazendo seus ouvidos assobiarem.
        Se voc no voltar a trabalhar agora, eu mesmo
fao isto por voc  ele ameaou.
       Ela balanou a cabea, olhando-o com raiva pelas
costas e se apressou para servir cerveja a Ragnak e seus
companheiros de jantar.
       Como sempre, ela sentiu uma inquietante onda de
ansiedade quando entrou na sala de refeies e foi obser-
vada por Ragnak. Embora a razo lhe dissesse que era im-
provvel que ele a distinguisse entre as outras dezenas de
escravas ocupadas que serviam comida e bebida apressa-
damente, ela ainda vivia sob o constante medo de que, de
alguma forma, fosse reconhecida como a filha de Duncan.
Era aquela ansiedade, assim como o trabalho ininterrupto,
que a deixava esgotada e exausta no final de cada noite.
       Depois que terminavam o trabalho da noite, os es-
cravos iam agradecidos para seus espaos de dormir. E-
vanlyn notou preocupada que Jana, obviamente aborreci-
da com as constantes reclamaes da garota sobre Erak,
tinha mudado seu cobertor para o outro lado do quarto.
Ela estendeu o prprio cobertor e tornou a envolver com
pano o tronco que lhe servia de travesseiro. Enquanto
fazia isso, um pequeno pedao de papel caiu das dobras
da velha camisa que usava para cobrir a madeira.
       Com o corao aos pulos, Evanlyn cobriu rapida-
mente o bilhete com o p e olhou  sua volta para verifi-
car se alguma de suas vizinhas tinha percebido alguma
coisa. Aparentemente, ningum tinha notado. Todas con-
tinuavam com os preparativos para dormir. O mais casu-
almente que conseguiu, Evanlyn se deitou e, ao mesmo
tempo, apanhou o pequeno pedao de papel e puxou o
cobertor at o queixo, aproveitando a oportunidade para
dar uma olhada na nica mensagem escrita ali:
       "Hoje  noite."
       Um ajudante da cozinha entrou alguns minutos de-
pois e apagou as lanternas, deixando apenas as chamas
bruxuleantes do fogo. Exausta como estava, Evanlyn fi-
cou deitada de Costas de olhos muito abertos, o corao
acelerado, esperando o tempo passar.
       Aos poucos, as vozes no aposento ficaram em si-
lncio e foram substitudas pela respirao profunda e re-
gular dos escravos adormecidos. Aqui e ali se ouviam ron-
cos suaves ou uma tosse ocasional e, uma ou duas vezes,
uma voz atrapalhada e indistinta se manifestou quando
uma escrava teuta resmungou no sono.
       O fogo diminuiu e adquiriu uma cor vermelha sem
brilho e Evanlyn ouviu o relgio do porto batendo a meia-
noite. Aquele seria o ltimo toque at o amanhecer, por
volta das 7 horas. Ela se recostou para esperar. Erak tinha
dito que aguardasse at uma hora depois do toque do re-
lgio  meia-noite. "Isso vai dar tempo a eles para se dei-
tarem e dormirem profundamente", ele tinha dito quando
apresentou seu plano. "Se deixar para mais tarde, os que
tm sono leve e os escravos mais velhos vo comear a
acordar para ir ao banheiro."
        Apesar da tenso que sentia, suas plpebras come-
aram a se fechar e, com um sobressalto de pnico, ela
percebeu que quase tinha cado no sono. "Seria perfeito",
ela pensou com amargura, "fazer o jarl esperar por mim
do lado de fora da Grande Manso enquanto eu roncasse
alto debaixo da coberta". Ela se mexeu no cho duro e
escolheu uma posio menos confortvel. Enterrou as
unhas nas palmas das mos para que a dor a mantivesse
alerta. Ela comeou a contar para medir a passagem do
tempo e ento percebeu, quase tarde demais, que o efeito
soporfero da contagem quase a tinha posto para dormir
outra vez.
        Finalmente, deu de ombros aborrecida e chegou 
concluso que uma hora j devia ter passado. Parecia no
haver ningum acordado na cozinha quando Evanlyn pu-
xou a coberta e se levantou. Ela pensou que, se algum se
mexesse sempre poderia alegar que estava indo ao banhei-
ro. Ela tinha ido para a cama totalmente vestida, com ex-
ceo das botas. Agora, Evanlyn as levava enroladas no
cobertor. Como o fogo tinha diminudo, o quarto tinha
ficado muito frio e ela tremeu ao ser atingida pelo ar gela-
do.
        Ela teve a impresso de que a porta do ptio fez ba-
rulho suficiente para acordar os mortos quando tentou
abri-la. A estrutura girou nas pesadas dobradias com o
que pareceu ser um guincho ensurdecedor, encolhendo-se,
a garota a fechou com o mximo de cuidado, espantada
com o fato de que aparentemente ningum tinha sido per-
turbado pelo rudo.
        A Lua no brilhava. A noite estava tomada por
grossas nuvens, mas a neve que cobria o cho ainda refle-
tia a pouca luz que havia, facilitando ver os detalhes. A
massa negra que era o alojamento dos escravos do ptio,
um celeiro frio e sem conforto, estava facilmente visvel, a
30 ou 40 metros de distncia.
        Pulando ora num p, ora noutro, ela calou as bo-
tas. Em seguida, colada  parede do prdio principal, ela
virou  esquerda e se dirigiu at a esquina como Erak ti-
nha instrudo. Ao chegar ao fim da parede, soltou um gri-
to abafado de susto. Um vulto corpulento a esperava, en-
colhido sob a sombra do edifcio.
        Por um momento, sentiu uma onda de medo per-
correr seu corpo, mas logo percebeu que era jarl Erak.
        -- Voc est atrasada -- ele sussurrou zangado.
        Ela percebeu que possivelmente ele estava to ten-
so quanto ela. Jarl ou no, ele estava arriscando a vida para
ajudar um escravo a escapar e tinha plena conscincia des-
se fato.
       -- Alguns deles ainda no tinham dormido -- ela
mentiu. Parecia no haver sentido em dizer a ele que no
tinha como medir o tempo. Ele grunhiu em resposta e ela
entendeu que a desculpa tinha sido aceita.
       -- Tome -- Erak disse, enquanto empurrava um
pequeno saco na mo dela. -- Aqui tem algumas moedas
de prata. Voc provavelmente vai ter que subornar um
dos membros do Comit para tirar o garoto de l. Isso
deve ser suficiente. Se eu lhe der mais, eles vo suspeitar e
perguntar de onde veio o dinheiro.
       Evanlyn concordou. Eles tinham discutido tudo is-
so nos aposentos de Erak cinco noites antes. A fuga teria
que ser realizada sem que desconfiassem dele. Esse era o
motivo pelo qual ele tinha mandado que ela passasse os
ltimos dias se queixando da possibilidade de se tornar
sua escrava. Aquilo iria dar um pretexto para sua tentativa
de fuga.
       -- Pegue isso tambm -- ele continuou, e lhe en-
tregou uma pequena adaga num estojo de couro. -- Tal-
vez voc precise dela para que o rapaz cumpra a promessa
depois de ser subornado.
       Evanlyn pegou a arma e a guardou no cinto largo.
Ela usava calas e uma camisa e tinha enrolado o cobertor
nos ombros como uma capa.
       -- O que fao depois que tirar Will de l? -- ele
perguntou em voz baixa.
       Erak apontou para o caminho que levava para o
porto e para a vila de Hallasholm propriamente dita.
        -- Siga esse caminho. Perto do porto, voc vai ver
uma bifurcao para a esquerda subindo a colina. V por
ela. No caminho, amarrei um pnei com comida e roupas
quentes. Voc vai precisar do cavalo para manter Will em
movimento -- Erak hesitou e ento acrescentou: -- Voc
tambm vai encontrar um pequeno suprimento de erva do
calor na sacola pendurada na sela.
        Evanlyn olhou para ele surpresa. Na outra noite, ele
no tinha escondido sua averso ao narctico.
        -- Voc vai precisar dela para Will -- ele explicou
simplesmente. -- Quando uma pessoa fica viciada nessa
coisa, voc pode mat-la se parar o fornecimento de uma
vez. Voc vai ter que tir-la aos poucos, diminuindo a
quantidade a cada semana at que a mente dele se recupe-
re e ele possa ficar sem a droga.
        -- Vou fazer o melhor que puder -- ela garantiu e
ele apertou o pulso dela num gesto de encorajamento.
        Erak olhou para as nuvens baixas acima deles e
cheirou o ar.
        -- Vai nevar antes do amanhecer -- ele avisou. --
A neve vai cobrir suas pegadas. Alm disso, vou criar pis-
tas falsas. Simplesmente continue andando para as monta-
nhas. Siga o caminho at chegar a uma bifurcao na trilha
perto de trs pedras grandes, sendo que a do meio  a
maior. Ento vire  esquerda e voc vai chegar  cabana
em mais ou menos dois dias.
        Havia uma pequena cabana nas montanhas usada
como abrigo dos caadores durante o vero. Ela estaria
desocupada e forneceria um refgio relativamente seguro
para eles durante o inverno.
       -- Lembre-se, quando o gelo comear a derreter na
primavera, continue a viagem -- Erak aconselhou. -- O
garoto j dever estar recuperado at l. Mas voc no po-
de ser encontrada l em cima por caadores. Saia assim
que a neve desaparecer e continue andando para o sul.
       Ele hesitou e ento deu de ombros num tom de
desculpas.
       -- Sinto no poder fazer mais por vocs -- ele dis-
se. -- Isso foi o melhor que pude arranjar em to pouco
tempo e, se no fizermos alguma coisa agora, Will no vai
viver muito tempo mais.
       Evanlyn se ergueu na ponta dos ps e beijou a face
barbada de Erak.
       -- Voc est fazendo muito -- ela garantiu. --
Nunca vou me esquecer de voc por isso, jarl Erak. No
sei como lhe agradecer pelo que est fazendo.
       Desajeitado, ele dispensou o agradecimento. Erak
olhou para o cu mais uma vez e mostrou o alojamento
dos escravos com o polegar.
       --  melhor voc ir andando -- ele falou. -- Boa
sorte -- acrescentou.
       Evanlyn sorriu para ele brevemente e atravessou o
terreno deserto at as tendas. Ela se sentiu extremamente
exposta ao cruzar o ptio coberto de neve e quase esperou
ouvir um chamado s suas costas. Mas conseguiu chegar
ao prdio sem incidentes e, agradecida, mergulhou nas
sombras junto da parede.
         Evanlyn parou por alguns segundos para recuperar
o flego e esperar que o corao retomasse o ritmo nor-
mal. Em seguida, caminhou ao longo da parede at a por-
ta. Naturalmente, ela estava trancada, mas apenas do lado
de fora e s com um trinco simples. Ela o puxou para trs
e prendeu a respirao quando o metal raspou em outro
metal. Ento empurrou a porta fraca e entrou.
         Estava escuro no alojamento e no havia fogo para
iluminar o ambiente. Ela esperou enquanto deixava os
olhos se acostumarem  escurido. Aos poucos, Evanlyn
conseguiu discernir as formas dos escravos adormecidos,
espalhados no cho de terra e embrulhados em trapos e
tiras de cobertores. A luz, vinda dos espaos das paredes
rsticas de pinho do edifcio, caa sobre eles formando
listras.
         Erak tinha lhe dito que os membros do Comit fi-
cavam num quarto separado no fim do alojamento, onde
mantinham um fogo aceso para aquec-los. Mas havia
sempre a chance de que um deles estivesse de guarda no
alojamento principal. Foi por esse motivo que tinha lhe
dado a prata.
         E a adaga.
         Evanlyn encostou a mo no cabo frio da arma para
se acalmar. Ela tinha feito um reconhecimento dos aloja-
mentos vrios dias antes e tinha uma vaga noo de onde
Will dormia. Comeou a ir at o local, escolhendo o cami-
nho com cuidado entre os corpos estendidos. Os olhos de
Evanlyn se mexiam de um lado para outro, procurando
por ele, e ela sentiu uma crescente sensao de desespero
enquanto procurava. Ento enxergou um tufo de cabelos
inconfundvel acima de um cobertor esfarrapado e, com
um suspiro de alvio, aproximou-se dele.
       Pelo menos, no haveria problemas em fazer Will
se mover. Escravos de ptio, com os sentidos amortecidos
e as mentes vagarosas por causa da droga, obedeciam
qualquer comando que recebessem.
       Ela se agachou ao lado de Will e sacudiu o ombro
dele para acord-lo: primeiro com delicadeza e depois,
percebendo que por estar afetado pela droga ele iria dor-
mir como um morto, com fora cada vez maior.
       -- Will! -- ela sussurrou inclinando-se perto do
ouvido dele. -- Levante-se! Acorde!
       O garoto murmurou uma vez, mas seus olhos per-
maneceram firmemente fechados e a respirao pesada.
Ela o sacudiu de novo com uma crescente sensao de
pnico.
       -- Por favor, Will -- ela implorou. -- Acorde! --
ela repetiu batendo no rosto dele com a palma da mo.
       Isso resolveu a questo. Ele abriu os olhos e a enca-
rou como se no a enxergasse bem. No houve sinal de
reconhecimento, mas pelo menos ele estava acordado.
       -- Levante -- ela ordenou puxando-o pelo ombro
-- e me siga.
        O corao de Evanlyn deu um salto de alegria
quando ele obedeceu. Ele se moveu devagar, mas se mo-
veu, levantou-se cambaleante e ficou de p vacilante ao
lado dela, esperando mais instrues.
        Ela apontou a porta e a abriu, deixando uma faixa
de luz branca entrar no alojamento.
        -- V. Para a porta -- ela mandou.
        Ele comeou a se arrastar naquela direo, sem se
importar com onde punha os ps, chutando os outros es-
cravos adormecidos e tropeando neles. Surpreendente-
mente, quase no reagiram, apenas resmungavam ou se
mexiam em seu sono. Ela se virou para segui-lo, mas uma
voz fria vinda do outro lado do aposento a fez parar.
        -- S um momento, senhorita. Onde pensa que
vai?
        Era um membro do Comit. At pior, era Egon.
Jarl Erak estava certo. Eles faziam turnos para vigiar os
outros escravos. Ela se virou para encar-lo enquanto o
rapaz atravessava o quarto lotado. Como Will, ele no
prestou ateno aos vultos adormecidos no cho, trope-
ando neles ao se aproximar.
        Evanlyn endireitou o corpo, respirou fundo e pro-
curou falar com a foz mais firme que conseguiu.
        -- Jarl Erak me mandou buscar esse escravo. Ele
precisa de lenha em seus aposentos.
        O chefe da gangue hesitou. No era impossvel que
ela estivesse falando a verdade. Se um dos jarls mais anti-
gos ficasse sem lenha no meio da noite, ele no pensaria
duas vezes em mandar um escravo levar um novo supri-
mento de madeira. Contudo, ele ficou desconfiado e pen-
sou ter reconhecido a garota.
       -- Ele pediu esse escravo em especial? -- ele per-
guntou.
       -- Isso mesmo -- Evanlyn respondeu, enquanto
tentava parecer despreocupada. Essa era a parte da hist-
ria que no tinha muita lgica.
       No havia motivos para que Erak, ou qualquer ou-
tro escandinavo, especificasse que um determinado escra-
vo do ptio realizasse uma tarefa to simples.
       -- Por que este escravo? -- ele insistiu, e ela soube
que o blefe no iria funcionar.
       Ela tentou outra estratgia.
       -- Bem, ele no disse realmente este aqui. Ele ape-
nas disse um escravo. Mas Will  meu amigo e ele vai po-
der trabalhar do lado de dentro, onde est quente, por al-
gumas horas e talvez receba uma refeio decente. Por
isso pensei... -- ela deixou a sentena no ar, dando de
ombros, esperando que ele ficasse satisfeito.
       Egon, porm, simplesmente continuou a olhar para
ela. Ento, finalmente, os olhos dele se estreitaram quan-
do a reconheceu.
       --  isso mesmo -- ele disse. -- Voc esteve aqui
dentro no outro dia. Eu vi voc dando uma olhada por a,
no foi?
        Evanlyn o amaldioou em pensamento. Ela sentiu
que tinha que encontrar uma sada depressa. Ela procurou
o pequeno saco de moedas e o balanou.
        -- Olhe, s estou tentado fazer o bem para um a-
migo -- ela afirmou. -- Vai valer a pena.
        Ele olhou rapidamente por cima do ombro para se
certificar de que nenhum outro membro do Comit esti-
vesse testemunhando a cena. Ento estendeu a mo rapi-
damente e tirou o saco dela.
        -- Assim est melhor -- ele disse. -- Voc faz
uma coisa por mim, e eu fao outra por voc.
        Ele empurrou as moedas para dentro da camisa e se
aproximou dela, ficando a somente alguns centmetros de
distncia. Olhando sobre o ombro, Evanlyn viu que Will
esperava perto da porta como um espectador indiferente.
De repente, Egon a agarrou pelos ombros e a puxou para
perto.
        -- Talvez voc possa encontrar mais algumas moe-
das escondidas em algum lugar -- ele sugeriu.
        Ento ele fez uma careta quando sentiu uma dor
aguda no estmago e algo quente escorrendo pela pele,
saindo de onde a dor comeava. Evanlyn sorriu sem sim-
patia.
        -- Talvez eu possa estripar voc como um peixe, se
no me soltar ela disse enfiando a adaga afiada na pele
dele mais uma vez.
       Ela no sabia com certeza se peixes eram estripa-
dos, mas ele tambm no sabia disso. O rapaz se afastou
rapidamente, acenando para a porta e praguejando.
       -- Tudo bem -- ele disse. -- Saia daqui, mas vou
fazer seu amigo pagar por isso quando ele voltar.
       Com um grande suspiro de alvio, Evanlyn correu
at a porta, agarrou o brao de Will e o arrastou para fora.
Uma vez l, ela se virou e tornou a fechar o trinco.
       -- Venha, Will. Vamos sair daqui -- ela disse an-
dando at o caminho que levava ao porto.
       Das sombras, jarl Erak observou os dois vultos par-
tirem e tambm soltou um suspiro de alvio.
       Dez minutos depois, ele os seguiu. Ele ainda tinha
trabalho a fazer naquela noite.
O pequeno cortejo seguiu a estrada para o norte. Halt e
Horace cavalgavam no centro com Deparnieux, que tinha
vestido os habituais casaco e armadura negros. O velho
pangar avermelhado que ele tinha montado estava agora
no fim da fila e, como Halt tinha imaginado, o cavaleiro
estava na sela de um cavalo de batalha negro, grande e
agressivo.
       Eles estavam cercados por pelo menos uma dzia
de homens armados que marchavam em silncio  frente e
atrs deles. Alm disso, havia dez guerreiros montados,
divididos em dois grupos de cinco e posicionados em cada
extremidade da coluna.
       Halt notou que os homens mais perto deles manti-
nham as bestas carregadas e prontas para o uso. Ele no
tinha dvida de que, ao primeiro indcio de que quisessem
escapar, ele e Horace seriam cravados com flechas antes
de ter dado dez passos.
       O seu arco estava pendurado no ombro, enquanto
Horace tinha conservado a espada e a lana. Deparnieux
tinha feito um gesto de indiferena para eles quando os
prendeu, mostrando o grupo de homens armados que os
cercava.
       -- Vocs podem ver que no tem sentido resistir
-- ele afirmou -- portanto vou deixar que fiquem com
suas armas.
       Ento ele olhou de um jeito significativo para o ar-
co apoiado na sela de Halt.
       -- Entretanto -- ele acrescentou -- acho que eu
me sentiria mais tranquilo se voc tirasse a corda desse
arco e o pendurasse no ombro.
       Halt deu de ombros e obedeceu. Seu olhar disse a
Horace que havia um tempo para lutar e um tempo para
aceitar o inevitvel. Horace tinha assentido e eles se posi-
cionaram ao lado do comandante gals, vendo-se imedia-
tamente cercados por seus captores. Halt notou aborreci-
do que a generosidade de Deparnieux no se estendia para
o grupo de cavalos que tinham capturado e a armadura.
De mau humor, ele ordenou que o cavalo-guia fosse en-
tregue a um dos ajudantes montados, que agora cavalga-
vam na parte posterior da coluna. Seu captor notou com
interesse que o pequeno e desgrenhado cavalo de carga
no tinha uma corda-guia e ficava calmamente ao lado do
cavalo de Halt. Deparnieux mostrou uma expresso curio-
sa, mas no fez nenhum comentrio.
       Para surpresa de Halt, o cavaleiro vestido de negro
virou a cabea de seu cavalo para o norte e eles comea-
ram a marchar.
       -- Posso perguntar para onde est nos levando? --
ele disse. Deparnieux se curvou na sela com uma cortesia
fingida.
       -- Estamos indo para meu castelo em Montsombre
-- ele contou --, onde vocs vo ser meus convidados
por um breve perodo.
       Halt assentiu digerindo as informaes.
       -- E por que vamos fazer isso? -- Halt indagou
logo depois.
       -- Por que voc me interessa -- o cavaleiro negro
respondeu sorrindo para ele. -- Voc viaja com um cava-
leiro e carrega armas de fazendeiro. Mas voc no  um
simples criado, ?
       Halt nada disse e simplesmente deu de ombros.
Deparnieux, olhando-o com ateno, assentiu como se
confirmasse o prprio pensamento.
       -- No, no . Voc  o lder aqui, no o seguidor.
E suas roupas me interessam. Essa sua capa... -- ele se
inclinou para o lado da sela e passou o dedo nas dobras da
capa manchada de arqueiro de Halt. -- Nunca vi nada
parecido.
       Ele parou pensando que Halt iria fazer algum co-
mentrio desta vez. Mas isso no aconteceu, e Deparnieux
no pareceu surpreso.
       -- E voc  um arqueiro experiente -- ele conti-
nuou. -- No, voc  mais do que isso. No conheo ne-
nhum arqueiro que tivesse dado um tiro como o de ontem
 noite.
        Desta vez, Halt fez um pequeno gesto de modstia.
        -- No foi um tiro to bom assim -- ele retrucou.
-- Eu estava mirando sua garganta.
        O riso de Deparnieux foi alto e longo.
        -- Ah, acho que no meu amigo. Acho que a sua
flecha atingiu exatamente o ponto que queria.
        E ele riu novamente. Halt percebeu que aquela ale-
gria, apesar de espalhafatosa, no tinha atingido os olhos.
        -- Ento, decidi que uma pessoa to incomum de-
veria merecer uma anlise mais profunda -- Deparnieux
continuou. -- Voc pode ser muito til para mim, meu
amigo. Afinal, quem sabe que outras tcnicas e habilidades
podem estar escondidas debaixo desse seu casaco estra-
nho?
        Horace observou os dois homens. O cavaleiro gals
parecia ter perdido interesse nele e esse fato no o deixou
insatisfeito. Apesar das palavras leves ditas em tom de
zombaria, ele podia sentir o significado grave e mortal da
conversa. Tudo aquilo estava ultrapassando seu entendi-
mento e ele estava contente em seguir a orientao de
Halt e ver aonde aquela mudana nos acontecimentos os
levaria.
        -- Duvido que possa ser til para voc -- Halt re-
plicou com calma diante da ltima declarao do coman-
dante.
        Horace se perguntou se Deparnieux tinha compre-
endido a mensagem oculta ali: que Halt no tinha inteno
de usar suas habilidades a servio de seu captor.
        Parecia que sim, pois o cavaleiro negro encarou o
homem baixo que cavalgava ao seu lado por um momen-
to, antes de responder.
        -- Bem, isso ns vamos ver. Por enquanto, permita
que eu lhe oferea minha hospitalidade at que o brao de
seu jovem amigo esteja curado.
        Ele se virou e sorriu para Horace, incluindo-o na
conversa pela primeira vez.
        -- Afinal, no  seguro percorrer essas estradas
quando no se est totalmente em forma.
        O grupo acampou de noite numa pequena clareira
perto da estrada. Deparnieux colocou sentinelas, mas Halt
notou que a quantidade de homens destinada para montar
guarda do lado de dentro era maior do que a que recebeu
a tarefa de defender o acampamento de ataques. Deparni-
eux devia se sentir relativamente seguro naquelas terras.
Foi interessante observar que, ao se prepararem para a
noite, por precauo seu captor ordenou que suas armas
fossem entregues. Sem outra alternativa, os dois araluen-
ses foram obrigados a obedecer.
        Pelo menos, o comandante no fingiu mais cordia-
lidade, pois preferiu comer e dormir sozinho no pavilho
de lona preta que seus homens haviam erguido especial-
mente para ele.
        Halt se viu diante de um dilema. Se estivesse via-
jando sozinho, poderia simplesmente desaparecer na noi-
te, recuperando as armas antes de sair.
       Contudo, Horace no conhecia a arte dos arqueiros
de se mover e fugir sem ser notado, e no havia como
Halt pudesse faz-lo desaparecer. Ele no tinha dvida de
que, se tivesse que fugir sozinho, Horace no sobreviveria
por muito tempo. Portanto, Halt se contentou em esperar
e ver o que iria acontecer. Pelo menos, eles estavam indo
para o norte, que era a direo que pretendiam seguir.
       Alm disso, ele tinha descoberto na pousada, na
noite anterior, que os grandes desfiladeiros entre a Teut-
nia, as terras vizinhas do norte e a Escandinvia, logo aci-
ma, estariam bloqueados pela neve naquela poca do ano.
Assim, seria bom se achassem um lugar onde passar os
prximos dois meses. Ele concluiu que o Chteau Mont-
sombre atenderia essa necessidade como qualquer outro
local. Halt no tinha dvida de que Deparnieux tinha al-
guma noo de sua verdadeira ocupao. Era bvio que
ele esperava inclu-lo em sua batalha contra os lderes vi-
zinhos. Halt refletiu que, por ora, eles estavam bastante
seguros e indo na direo certa.
       No momento certo, ele teria que lazer algumas mu-
danas. Mas esse momento ainda no tinha chegado.
       Eles chegaram ao castelo no dia seguinte. Depois
da demonstrao inicial de boa vontade, Deparnieux tinha
resolvido no devolver as armas pela manh e Halt se sen-
tiu estranhamente despido sem o peso conhecido e con-
fortante das facas no cinto e da dzia de flechas pendura-
das no ombro.
        O Chteau Montsombre se erguia atrs da floresta
que os cercava sobre urna plancie  qual se chegava por
um caminho estreito e sinuoso.  medida que subiam pela
trilha, o cho desaparecia de ambos os lados formando
um declive ngreme. O caminho mal era largo o bastante
para quatro homens viajarem lado a lado. Era uma largura
que permitia acesso razovel a foras amigas e evitava que
invasores se aproximassem em grande nmero. Era um
lembrete sombrio da situao em Glica, onde comandan-
tes vizinhos batalhavam constantemente pela supremacia,
e a possibilidade de um ataque estava sempre presente.
        O castelo em si era baixo e impressionante, tinha
paredes grossas e torres grandes em cada um dos quatro
cantos. Ele em nada lembrava a elegncia sublime de
Redmont ou do castelo de Araluen. Ao contrrio, era uma
estrutura escura, ampla e ameaadora, construda para a
guerra e por nenhuma outra razo. Halt tinha dito a Hora-
ce que a palavra Montsombre significava "montanha escu-
ra". Parecia um nome adequado para o edifcio de paredes
grossas no fim da trilha tortuosa e sinuosa.
        O nome ficou ainda mais expressivo quando subi-
ram mais pelo caminho. Havia postes enfileirados do lado
da estrada de onde pendiam estruturas quadradas e estra-
nhas. Quando se aproximaram, Horace conseguiu ver
horrorizado que as estruturas eram gaiolas de ferro estrei-
tas que continham os restos do que antes eram homens.
       Elas estavam penduradas bem acima da trilha, ba-
lanando levemente com o vento que soprava em volta da
plancie.
       Era evidente que alguns estavam ali por muitos me-
ses. As figuras dentro das gaiolas eram restos ressecados,
escurecidos e enrugados pela longa exposio ao tempo e
enfeitados de trapos de tecido podre. Mas outros eram
mais novos, e os homens eram reconhecveis. As gaiolas
quadradas eram construdas com barras de ferro e deixa-
vam espao para urubus e corvos entrarem e rasgarem a
carne dos homens. Os olhos de quase todos os corpos
tinham sido arrancados pelos pssaros.
       Ele olhou enojado para o rosto sombrio de Halt.
Deparnieux viu o movimento e, deliciado com a impres-
so que os horrores da beira de sua estrada provocavam
no garoto, sorriu para ele.
       -- Somente alguns criminosos -- ele disse com
tranquilidade. --  claro que todos foram julgados e con-
denados. Insisto em seguir normas legais rgidas em
Montsombre.
       -- Quais foram os crimes? -- o garoto perguntou.
       Sua garganta estava seca e apertada, e as palavras
saram com dificuldade. Deparnieux lhe deu outro sorriso
despreocupado e fingiu que estava tentando pensar.
       -- Digamos que tenham sido "vrios" -- ele res-
pondeu. -- Resumindo, eles me incomodaram.
       Horace observou o olhar divertido do outro ho-
mem por alguns segundos e ento, balanando a cabea,
virou-se. Ele tentou afastar o olhar das figuras esfarrapa-
das e tristes penduradas acima dele. Devia haver mais de
vinte ao todo. Ento, seu horror aumentou quando perce-
beu que nem todos estavam mortos. Em uma das gaiolas,
ele viu a figura presa se movendo. No incio, pensou ser
uma iluso provocada pelo movimento das roupas do
homem ao vento. Mas uma das mos atravessou as barras,
quando eles se aproximaram, e um som rouco e lament-
vel saiu da gaiola.
       Era um pedido inconfundvel de socorro.
       -- Ah, meu Deus -- Horace murmurou em voz
baixa e ouviu Halt respirar fundo ao seu lado.
       Deparnieux puxou as rdeas de seu cavalo e apoiou
o peso do corpo num dos lados da sela.
       -- Reconhecem esse homem? -- ele perguntou
num tom divertido. -- Vocs o viram outra noite, na ta-
verna.
       Horace franziu a testa confuso. No conhecia o
homem, mas havia pelo menos uma dzia de pessoas na
taverna, na noite em que viram o comandante pela primei-
ra vez. Ele se perguntou por que deveria se lembrar desse
homem mais do que de qualquer outro.
       -- Foi ele quem riu -- Halt disse com frieza.
       --  isso mesmo -- Deparnieux retrucou rindo. --
Ele era um homem com um tipo raro de humor.  estra-
nho como o senso de humor dele parece ter desaparecido
agora. Era de se esperar que ele matasse o tempo com seu
estranho senso de humor.
       E ele sacudiu as rdeas, batendo-as no pescoo do
cavalo, e recomeou a cavalgar. O grupo o acompanhava,
parando quando ele parava, movendo-se quando ele se
movia, o que obrigava Halt e Horace a manter o mesmo
ritmo.
       Horace olhou para Halt mais uma vez, procurando
uma mensagem de conforto. O arqueiro encontrou seu
olhar por alguns segundos e acenou com a cabea deva-
gar. Ele entendia como o garoto se sentia enojado pela
depravao e crueldade desprezveis que estava testemu-
nhando. De alguma forma, Horace se sentiu um pouco
consolado com o gesto de Halt. Ele tocou a barriga de
Kicker com o joelho e o fez andar.
       E juntos eles cavalgaram na direo do castelo es-
curo e desolador que esperava os dois.
O pnei estava no lugar marcado por Erak.
       Ele estava amarrado a uma rvore nova com a tra-
seira virada pacientemente na direo do vento gelado que
trazia nuvens cheias de neve para cima de Hallasholm.
Evanlyn desamarrou a corda, e 0 pequeno cavalo a acom-
panhou documente. Acima de suas cabeas, o vento sus-
pirava por entre as agulhas dos pinheiros, emitindo um
som parecido com uma arrebentao estranha enquanto
agitava os galhos carregados de neve.
       Will a seguia mudo, cambaleando na trilha coberta
de neve que ia at o meio da perna. Andar ali era difcil
para Evanlyn, mas era ainda mais penoso para Will, exaus-
to e esgotado depois de semanas de trabalho rduo e co-
mida e calor insuficientes. Ela sabia que logo iriam parar e
encontrar as roupas quentes que Erak tinha dito que esta-
riam dentro da mochila no lombo do pnei. E ela prova-
velmente teria que deixar Will montar o animal, se quises-
sem percorrer uma boa distncia antes do amanhecer.
Mas, por ora, no queria se atrasar, mesmo que s um
pouco. Todos os seus instintos lhe diziam para continuar,
aumentar o mximo a distncia entre eles e a cidade es-
candinava, o mais depressa possvel.
       A trilha sinuosa subia as montanhas, e Evanlyn se
inclinava para a frente, enfrentando o vento, levando o
pnei com uma das mos e segurando a mo fria de Will
com a outra. Juntos, eles seguiam tropeando, escorregan-
do na neve alta, caindo sobre razes de rvores e pedras
escondidas debaixo da superfcie lisa.
       Depois de viajar meia hora, Evanlyn sentiu os pri-
meiros flocos de neve hesitantes roarem seu rosto. Logo
depois, eles ficaram grandes, pesados e grossos. Ela parou
e olhou para a trilha atrs deles e para suas pegadas j qua-
se invisveis. Erak sabia que iria nevar muito naquela noi-
te. Ele tinha esperado at que sua intuio de marinheiro o
avisasse que todos os sinais de sua passagem seriam co-
bertos. Pela primeira vez desde que tinha passado pela
porta aberta da residncia, ela sentiu o corao se aquecer
de esperana. Talvez, afinal, as coisas dessem certo para
eles.
       Atrs dela, Will tropeou e, murmurando palavras
incoerentes, caiu de joelhos na neve. Ela se virou para ele
e constatou que ele tremia e estava roxo de frio, totalmen-
te exausto. Evanlyn andou at a mochila pendurada nas
costas do pnei, desamarrou as tiras e remexeu em seu
interior.
       Entre outras coisas, l dentro ela encontrou um co-
lete de pele de carneiro e o usou para cobrir os ombros do
garoto trmulo, ajudando-o a passar os braos pelas cavas.
Will olhou para ela com indiferena. Ele parecia um ani-
mal silencioso, que aceitava calado tudo o que lhe aconte-
cia. Evanlyn sabia que ele no tentaria evitar ou revidar o
golpe se tentasse bater nele. Com tristeza, ela o observou,
lembrando-se de como ele era. Erak tinha dito que sua
recuperao era possvel, embora muito poucos viciados
na erva do calor tivessem essa chance. Isolados nas mon-
tanhas como ficariam, Will teria todas as oportunidades de
quebrar o crculo vicioso da droga. Agora ela rezava para
que o jarl escandinavo estivesse certo e que fosse possvel
para um viciado, longe da droga, se recuperar completa-
mente.
        Ela empurrou o menino submisso na direo do
pnei, fazendo que montasse no animal. Por um momen-
to, ele hesitou e ento, desajeitado, ele subiu para a sela e
l ficou sentado, balanando sem firmeza, enquanto ela
recomeava a andar, seguindo a trilha da floresta que leva-
va para o alto da montanha.
        Em volta deles, os flocos pesados continuavam a
cair.
        Erak observou as duas figuras se afastarem furti-
vamente na floresta e tomarem a bifurcao que ele tinha
descrito para Evanlyn. Satisfeito por estarem a caminho,
ele os seguiu para fora do cercado, mas continuou alm do
ponto em que tinham virado e, em vez. disso, foi at o
porto.
        No havia sentinelas postadas na Grande Manso
naquela poca do ano. No se tinha medo de ataques, pois
as nevascas fortes que cobriam as montanhas ao redor
eram mais eficientes do que qualquer sentinela humana.
Mas Erak ficou mais cuidadoso quando se aproximou do
incio do porto. Ali havia um vigia para garantir que os
navios encostassem com segurana nos ancoradouros.
Uma tempestade repentina podia surpreender os navios e
arrastar as ncoras e jog-los na costa. Por esse motivo,
alguns homens eram postados para dar o aviso e chamar
as tripulaes em servio em caso de perigo.
        Mas eles podiam v-lo com igual facilidade e se
perguntar o que estava fazendo quela hora da noite, de
modo que ficou nas sombras sempre que pde.
        Seu navio, o Wolfwind, estava ancorado no porto e
ele subiu a bordo em silncio, sabendo que no havia tri-
pulao de servio. Ele a tinha dispensado naquela tarde,
confiando em sua reputao como conhecedor da previ-
so do tempo para garantir a eles que soprariam ventos
fortes naquela noite. Ele se inclinou sobre o parapeito da
popa e ali, flutuando num lugar protegido do navio, estava
o pequeno barco que ele tinha ancorado mais cedo naque-
le dia. Ele observou como os botes no porto balanavam
nos ancoradouros e percebeu que a mar ainda estava bai-
xando. Ele tinha programado sua chegada para que coin-
cidisse com a mar baixa e desceu rapidamente para a em-
barcao menor, procurou na popa a tampa do dreno e a
soltou. A gua gelada entrou como se fosse uma cascata
sobre suas mos. Quando o bote se encheu at a metade,
ele recolocou o tampa e voltou a pular o parapeito para
dentro do navio. Empunhando a adaga, cortou o cabo que
prendia a embarcao.
        Por um momento, nada aconteceu. Ento, o pe-
queno barco, j mais baixo na gua, comeou a deslizar
para trs, primeiro lentamente e depois com velocidade
cada vez maior  medida que era arrastado pela mar. Ha-
via um remo no bote, preso na forqueta. Ele o tinha ajei-
tado desse jeito para o caso de o bote ser encontrado nos
prximos dias. A combinao de um barco vazio aparen-
temente furado e quase cheio de gua com um remo fal-
tando apontaria para um acidente.
        O bote deslizou porto abaixo e se perdeu de vista
entre os barcos maiores que enchiam os ancoradouros.
Satisfeito por ter feito tudo o que podia, Erak voltou 
terra firme e retornou para a Grande Manso. Enquanto
andava, percebeu com satisfao que a neve pesada j ti-
nha coberto as pegadas que fizera. Pela manh, no have-
ria nenhum sinal de que algum tivesse passado por ali. O
barco perdido e o cabo cortado seriam as nicas pistas
sobre a direo que os escravos teriam tomado.




       A caminhada ficava mais difcil  medida que a tri-
lha na floresta se tornava mais ngreme. A respirao de
Evanlyn estava ofegante e formava nuvens de vapor no ar
gelado. A leve brisa que agitava os pinheiros mais cedo
tinha desaparecido quando a neve comeou a cair. A gar-
ganta e a boca estavam secas e ela sentia um gosto desa-
gradvel e metlico. Ela tinha tentado aliviar a sede vrias
vezes com punhados de neve, mas o conforto tinha sido
breve. O frio intenso da neve desfazia qualquer benefcio
que ela poderia ter tirado da pequena quantidade de gua
que escorregava pela garganta quando derretia.
       Evanlyn olhou para trs. O pnei estava seguindo
seus passos com dificuldade e de cabea baixa, aparente-
mente indiferente ao frio. Will era um vulto encolhido no
dorso do animal, bem embrulhado nas dobras do colete
de pele de carneiro. Ele gemia baixinho e continuamente.
       Ela parou por um momento, respirando com difi-
culdade, e encheu os pulmes com o ar gelado que lhe
arranhava quase dolorosamente a garganta. Os msculos
da parte posterior de suas coxas e pernas doam e tremiam
do esforo de caminhar na neve espessa, mas ela sabia que
tinha que continuar enquanto pudesse. Ela no tinha ideia
da distncia que tinha percorrido desde a residncia em
Hallasholm, mas desconfiava que no estava longe o sufi-
ciente. Se a tentativa de Erak de plantar uma pista falsa
fosse malsucedida, ela no tinha dvida de que um grupo
de escandinavos fortes poderia atravessar em menos de
uma hora a distncia que ela e Will tinham percorrido.
       Segundo as instrues de Erak, eles deveriam subir
a montanha o mximo que pudessem antes do raiar do
dia. Em seguida, deveriam deixar a trilha e procurar abrigo
entre as rvores grossas, onde ela e Will poderiam se es-
conder durante o dia.
       Ela olhou para a abertura estreita entre as rvores
acima dela. As nuvens pesadas escondiam qualquer vest-
gio de luar ou de luz de estrelas. Ela no tinha ideia de que
horas eram ou de quando o dia iria nascer.
       Angustiada e sob o protesto de todos os msculos
das pernas, ela recomeou a subir, seguida pelo aptico
pnei. Por um momento, pensou em subir na sela ao lado
de Will e cavalgar em dupla, mas logo afastou a ideia. Era
s um pequeno pnei e, embora ele pudesse carregar uma
pessoa e as mochilas sem reclamar, uma carga dupla nes-
sas condies iria cans-lo rapidamente. Sabendo o quanto
dependiam do pequeno animal desgrenhado, decidiu, com
relutncia, que seria melhor que ela continuasse a p. Se o
pnei ficasse esgotado, poderia muito bem representar
uma sentena de morte para Will. Ela nunca conseguiria
faz-lo andar, exausto e fraco como estava.
       Ela continuou se arrastando, levantando e baixando
os ps na neve, deslizando levemente quando eles atraves-
savam a cobertura cada vez mais espessa do cho, com-
pactando-a at encontrar terra firme outra vez. P esquer-
do. P direito. P esquerdo. P direito. A boca cada vez
mais seca. A respirao formando vapor no ar e pairando
na noite quieta atrs dela, marcando brevemente por onde
tinha passado. Sem pensar, comeou a contar os passos 
medida que andava. No havia motivo para isso. Ela no
estava inconscientemente tentando medir distncias. Era
uma reao instintiva ao ritmo constante e repetitivo que
tinha adotado. Ela chegou a 200 e recomeou do nmero
1. Ento, depois de vrias outras vezes, Evanlyn se deu
conta de que no tinha ideia de quantas vezes tinha che-
gado  marca de 200 e parou de contar. Depois de 20 pas-
sos, percebeu que estava contando outra vez. Ela deu de
ombros. Desta vez, decidiu contar at 400 antes de reco-
mear. "Fao qualquer coisa para variar um pouco", pen-
sou de mau humor.
       Os flocos grossos de neve continuavam a cair, ro-
ando seu rosto e manchando seus cabelos de branco. Seu
rosto estava ficando entorpecido e ela o esfregou com vi-
gor com as costas da mo. Constatou que a mo tambm
estava dormente e parou para examinar a mochila mais
uma vez.
       Ela tinha visto luvas dentro dela quando encontrara
o colete para Will. Evanlyn as encontrou novamente,
grossas luvas de l com espao para o polegar e um espa-
o nico para os outros dedos. Ela as calou nas mos
geladas, agitou os braos, bateu as mos contra as costelas
e sob as axilas para estimular a circulao. Depois de al-
guns minutos, sentiu um leve formigamento quando o
calor comeou a voltar e recomeou a andar.
       O pnei tinha parado quando ela fez a pausa. Ago-
ra, pacientemente, tornou a seguir os passos dela.
       Evanlyn chegou a 400 e recomeou a contar.
Halt olhou em volta dos amplos aposentos a que tinham
sido levados.
       -- Bem, no  muita coisa, mas  uma casa -- ele
comentou.
       Na verdade, sua declarao no era muito justa. E-
les estavam no alto da torre central do Chteau Mont-
sombre, a torre que Deparnieux dissera que mantinha ex-
clusivamente para uso pessoal -- e de seus convidados,
ele tinha acrescentado ironicamente. O quarto em que es-
tavam era grande e mobiliado com bastante conforto. Ha-
via uma mesa e cadeiras que serviriam bem para fazer re-
feies, alm de duas poltronas de madeira de aspecto
confortvel colocadas ao lado da enorme lareira. Dos la-
dos, duas portas conduziam para quartos de dormir me-
nores e havia at um pequeno quarto de banho com uma
banheira de estanho e um lavatrio. Havia um par de bons
cabides nas paredes de pedra e um bom tapete que cobria
grande parte do cho. Havia um pequeno terrao e uma
janela de onde se podia ver a trilha sinuosa que tinham
subido para chegar ao castelo e a floresta abaixo. A janela
no tinha vidros, apenas venezianas de madeira no lado de
dentro para impedir a entrada do vento e da chuva.
       A porta era a nica nota dissonante no quadro. No
havia maaneta do lado de dentro. Os aposentos eram
muito confortveis, mas eles no passavam de prisionei-
ros, Halt sabia disso.
       Horace largou a mochila no cho e, satisfeito, se
deixou cair numa das poltronas de madeira. Um vento frio
entrava pela janela, apesar de ainda estarem no meio da
tarde. Estaria frio e ventaria  noite, mas a maioria dos
aposentos nos castelos eram frios. Aquele no era melhor
ou pior do que a mdia.
       -- Halt -- ele chamou -- andei me perguntando
por que Abelard e Puxo no nos avisaram sobre a em-
boscada. Eles no so treinados para perceber esse tipo de
coisa?
       -- Pensei a mesma coisa -- Halt retrucou balan-
ando a cabea devagar. -- E acho que isso teve algo a
ver com sua srie de conquistas.
       O garoto olhou para ele sem entender.
       -- Ns tnhamos uma dezena de cavalos de batalha
trotando atrs de ns, carregados com peas de armadura
que chacoalhavam e batiam como a carroa de um funilei-
ro -- Halt deduziu. -- Na minha opinio, todo o barulho
que estavam fazendo encobrira os sons que os homens de
Deparnieux poderiam estar produzindo.
       O rosto de Horace ficou srio. Ele no tinha pen-
sado nisso.
        -- Mas eles no poderiam ter sentido o cheiro de-
les? -- ele perguntou.
        -- Sim, se o vento estivesse soprando na direo
certa. Mas estava soprando de ns at eles, se  que se
lembra.
        Halt observou Horace, que parecia um tanto desa-
pontado com a incapacidade de os cavalos superarem es-
sas dificuldades sem importncia.
        -- s vezes -- Halt continuou -- costumamos es-
perar demais dos cavalos dos arqueiros. Afinal, eles so s
humanos.
        Um dbil sinal de um sorriso tocou a boca do ar-
queiro quando ele disse isso, mas Horace no notou. Ele
mal assentiu e passou para a prxima pergunta.
        -- Ento, o que vamos fazer agora? -- ele quis sa-
ber.
        O arqueiro deu de ombros. Ele tinha aberto a mo-
chila e estava tirando alguns objetos: uma camisa limpa, o
aparelho de barbear e artigos de higiene.
        -- Vamos esperar -- ele afirmou. -- No estamos
perdendo nenhum tempo... ainda. As passagens que levam
para a Escandinvia vo estar cobertas de neve por pelo
menos mais um ms. Assim, podemos muito bem apro-
veitar o conforto deste lugar por alguns dias at desco-
brirmos o que o galante cavaleiro quer de ns.
        Horace usou um p para tirar a bota do outro e agi-
tou os dedos, deliciado, aproveitando a repentina sensao
de liberdade.
       -- Isso  um problema -- ele retrucou. -- O que
voc acha que Deparnieux pretende, Halt?
       -- No tenho certeza -- Halt respondeu depois de
hesitar um instante. -- Mas acho que vai mostrar suas in-
tenes nos prximos dias. Penso que ele tem uma vaga
ideia de que sou um arqueiro -- acrescentou pensativo.
       -- Existem arqueiros aqui? -- Horace perguntou
surpreso.
       Ele sempre tinha acreditado que o Corpo de Ar-
queiros existia somente em Araluen. Agora, quando Halt
balanou a cabea, percebeu que estava certo.
       -- No, no existem -- Halt respondeu. -- E
sempre nos esforamos para no difundir a existncia da
corporao. A gente nunca sabe quando vai acabar parti-
cipando de uma guerra contra algum -- ele acrescentou.
-- Mas  claro que  impossvel manter uma coisa dessas
totalmente em segredo, portanto ele pode ter ouvido al-
guma coisa.
       -- E se isso aconteceu? -- Horace quis saber. --
Primeiro pensei que ele estivesse interessado em ns por-
que queria lutar comigo... sabe, como voc tinha dito.
       -- Acho que foi isso que aconteceu no incio --
Halt concordou -- mas agora ele descobriu alguma coisa
e acho que est tentando pensar em algum jeito de me
usar.
       -- Usar voc? -- Horace repetiu preocupando-se
com a ideia. Halt fez um gesto indiferente.
        -- Normalmente pessoas como ele pensam desse
jeito -- ele disse ao rapaz. -- Elas esto sempre procu-
rando uma forma de tirar vantagem das situaes. E pen-
sam que todos podem ser comprados se pagarem o preo
certo. Voc acha que pode calar a bota de novo? -- ele
acrescentou com delicadeza. -- A janela deixa entrar ape-
nas um pouquinho de ar fresco e as suas meias esto com
um cheiro um tanto estranho, se  que me entende.
        -- Ah, desculpe! -- Horace retrucou puxando a
bota de montaria sobre a meia.
        Agora que Halt tinha falado no assunto, ele perce-
beu o cheiro forte que enchia o quarto.
        -- Os cavaleiros deste pas no fazem um juramen-
to? -- ele perguntou, voltando ao assunto de seu captor.
-- Cavaleiros fazem votos para ajudar uns aos outros, no
 mesmo? Eles no devem "usar as pessoas".
        -- Eles fazem um juramento -- Halt garantiu. --
Cumpri-lo  outra questo. E a ideia de cavaleiros ajuda-
rem pessoas comuns funciona num lugar como Araluen,
onde h um rei forte. Aqui, se voc tem poder, faz o que
bem entende.
        -- Bem, isso no est certo -- Horace resmungou.
        Halt concordou, mas no parecia haver sentido em
dizer isso.
        -- Apenas tenha pacincia -- ele recomendou ao
garoto. -- No h nada que a gente possa fazer para a-
pressar os acontecimentos. Vamos descobrir logo o que
Deparnieux quer. Enquanto isso, vamos relaxar e nos a-
calmar.
       -- Outra coisa... -- Horace acrescentou ignorando
a sugesto do companheiro. -- No gostei daquelas gaio-
las na beira da estrada. Nenhum cavaleiro de verdade po-
deria punir algum daquela maneira, por mais grave que
fosse o crime. Aquilo foi terrvel e desumano!
       Halt encontrou o olhar franco do garoto. No ha-
via nada que ele pudesse dizer para consol-lo.
       Desumano era uma descrio apropriada da puni-
o.
       -- Sim -- ele disse finalmente. -- Eu tambm no
gostei daquilo. Acho que, antes de partirmos, o senhor
Deparnieux tem que nos dar algumas explicaes sobre
isso.
       Naquela noite, eles jantaram com o cavaleiro gals.
A mesa era imensa com lugar para trinta ou mais convi-
vas, e os trs pareceram muito pequenos por causa do es-
pao vazio ao redor. Criados e copeiras corriam para reali-
zar suas tarefas trazendo pores adicionais de comida e
vinho conforme exigido.
       A refeio no estava boa nem ruim, o que surpre-
endeu Halt um pouco. A cozinha galesa era conhecida por
ser extica. A comida simples que lhes foi servida parecia
indicar que a reputao era infundada.
       Halt notou que os criados serviam os pratos com
olhos baixos, evitando contato visual com qualquer um
dos convivas. Havia um visvel clima de medo no ar, acen-
tuado quando qualquer um cios criados tinha que se apro-
ximar do patro para lhe servir mais comida ou encher seu
clice.
        Halt tambm percebeu que Deparnieux no s sen-
tia a tenso no ambiente, como tambm a apreciava. Um
meio sorriso satisfeito se mostrava nos lbios cruis sem-
pre que um dos empregados se aproximava, desviava o
olhar e prendia a respirao at a tarefa ter sido concluda.
        Eles falaram pouco durante o jantar. Deparnieux
parecia satisfeito em observ-los como um garoto obser-
varia um inseto interessante e desconhecido que tivesse
capturado. Naquelas circunstncias, nem Hall nem Horace
estavam dispostos a conversar sobre assuntos banais.
        Depois que comeram e a mesa foi tirada, o cavalei-
ro finalmente falou sobre o que tinha em mente. Ele dis-
pensou Horace com um olhar e com um gesto lnguido
mostrou as escadas que levavam para seu quarto.
        -- No vou tomar mais o seu tempo, garoto -- ele
disse. -- Tem minha permisso para subir.
        Corando levemente diante do tom mal-educado,
Horace olhou rapidamente para Halt e viu que o arqueiro
assentiu com a cabea. Ele se levantou tentando conservar
a dignidade e no mostrar sua confuso ao cavaleiro gals.
        -- Boa-noite, Halt -- ele disse em voz baixa, e Halt
balanou a cabea outra vez.
        -- Boa-noite, Horace -- ele respondeu.
        O aprendiz de guerreiro se levantou, encarou De-
parnieux, virou-se de repente e deixou a sala. Dois guardas
armados que estavam parados nas sombras instantanea-
mente se postaram atrs dele e o acompanharam nas esca-
das.
        "Foi um gesto insignificante e provavelmente in-
fantil", Horace pensou enquanto subia os degraus at o
quarto, mas ignorar o dono do Chteau Montsombre o
fez se sentir um pouco melhor.
        Deparnieux esperou at o som dos passos de Hora-
ce nos degraus de pedra desaparecer. Ento, empurrando
a cadeira para longe da mesa, ele se virou e olhou para o
arqueiro de um jeito calculista.
        -- Bem, mestre Halt -- ele disse devagar --, che-
gou a hora de termos uma pequena conversa.
        -- Sobre o qu? -- Halt perguntou srio. -- Re-
ceio que no sou muito bom com conversa fiada.
        -- Tenho certeza de que pode ser um convidado
divertido -- o cavaleiro respondeu com um sorriso frio.
-- Agora me diga quem  voc exatamente?
        Halt deu de ombros com indiferena. Ele brincou
com o clice que estava quase vazio na mesa diante de si,
girando-o em sua direo e observando o jeito como o
fogo da lareira refletia no cristal.
        -- Sou uma pessoa comum -- ele afirmou. -- Eu
me chamo Halt. Sou de Araluen e viajo com sir Horace.
Na verdade, no tenho muito mais a contar.
        O sorriso permaneceu no rosto de Deparnieux en-
quanto ele continuava a observar o homem barbado sen-
tado  sua frente. De fato, ele parecia bastante desinteres-
sante. As roupas eram simples, quase relaxadas na verda-
de. A barba e os cabelos eram mal cortados. "Parece que
ele apara o cabelo e a barba com a faca de caa", Deparni-
eux pensou, sem saber que ele era um dos muitos que ti-
nham a mesma opinio sobre Halt.
       Alm disso, ele era um homem pequeno. A cabea
mal chegava ao ombro do cavaleiro, mas ele era musculo-
so e, apesar da barba e dos cabelos grisalhos, suas condi-
es fsicas eram excelentes. Mas havia algo em seus olhos
-- escuros, seguros e calculistas que desmentia a alegao
de simplicidade que o homem fazia naquele momento.
Deparnieux se orgulhava de conhecer o olhar de um ho-
mem acostumado a comandar, e aquele homem o possua,
com certeza.
       Alm do mais, havia algo sobre seu equipamento.
Era incomum ver um homem com aquele inconfundvel
ar de domnio que no andasse armado como um cavalei-
ro. Aos olhos de Deparnieux, o arco era arma de um ho-
mem do povo, e o estojo para duas facas era algo que
nunca tinha visto antes. Ele tinha tido a oportunidade de
examinar as facas. A maior lhe lembrava as grandes facas
de caa dos escandinavos. A menor, to afiada quanto a
outra, era uma faca de atirar perfeitamente equilibrada.
Deparnieux concluiu que eram facas realmente incomuns
para um chefe.
       A capa estranha tambm o fascinava. Ela era cober-
ta por borres irregulares verdes e cinza e ele no conse-
guia entender o motivo para as cores ou para o desenho.
O capuz enorme servia para esconder o rosto do homem
quando ele o colocava. Vrias vezes durante o trajeto at
Montsombre, o cavaleiro gals tinha notado que o capuz
parecia cintilar e se misturar  floresta ao fundo, fazendo o
pequeno homem quase desaparecer de vista. Ento, a ilu-
so desaparecia.
        Deparnieux, como muitos de seus conterrneos, era
bastante supersticioso. Ele desconfiava que as estranhas
propriedades da capa podiam ser resultado de algum tipo
de feitiaria.
        Fora esse pensamento que o tinha feito tratar o ar-
queiro de um modo um tanto confuso. Deparnieux sabia
que no valia a pena contrariar feiticeiros. Assim, ele deci-
diu jogar suas cartas com cuidado at saber exatamente o
que esperar do pequeno homem misterioso. E, caso ficas-
se provado que Halt no tinha poderes tenebrosos, have-
ria sempre a possibilidade de convenc-lo a usar seus ou-
tros talentos em favor de Deparnieux.
        Se isso no acontecesse, o nobre podia matar os
dois viajantes do modo que mais lhe agradasse.
        Ele se deu conta de que tinha ficado em silencio
por algum tempo depois da ltima afirmao de Halt.
Tomou um gole de vinho e balanou a cabea diante da
afirmao do arqueiro.
        -- Acho que no  nem um pouco comum -- ele
disse. -- Voc me interessa, Halt.
        -- No posso ver por qu -- Halt disse dando de
ombros novamente.
       Deparnieux girou o clice de vinho entre os dedos.
Houve uma leve batida na porta e o camareiro-chefe en-
trou com ar humilde e receoso. Ele tinha aprendido, da
pior forma, que seu patro era um homem perigoso e im-
previsvel.
       -- O que foi? -- Deparnieux perguntou zangado
com a intromisso.
       -- Perdoe, senhor, mas queria saber se precisa de
mais alguma coisa.
       Deparnieux estava prestes a dispens-lo quando
uma ideia lhe ocorreu. Seria uma experincia interessante
provocar o estranho araluense e ver como reagiria.
       -- Sim -- ele disse. -- Chame a cozinheira. O ca-
mareiro hesitou confuso.
       -- A cozinheira, senhor? -- repetiu. -- O senhor
quer mais comida?
       -- Eu quero a cozinheira, idiota! -- Deparnieux
disparou e o homem recuou apressado.
       -- Imediatamente, senhor -- ele respondeu e se a-
fastou nervoso na direo da porta.
       Depois que ele saiu, o cavaleiro sorriu para Halt.
       --  quase impossvel encontrar bons empregados
hoje em dia -- ele afirmou.
       Halt olhou para ele com desdm.
       -- Deve ser um problema sem-fim para voc -- ele
disse com calma.
       Deparnieux olhou para ele com ateno, tentando
perceber algum sarcasmo nas palavras.
       Eles ficaram sentados em silncio at ouvirem uma
batida na porta. O camareiro entrou seguido de perto pela
cozinheira, que esfregava as mos no avental nervosa. Ela
era uma mulher de meia-idade cujo rosto mostrava a ten-
so que trabalhar na casa de Deparnieux provocava.
       -- A cozinheira, senhor -- o camareiro anunciou.
Deparnieux no disse nada. Ele olhou para a mulher da
maneira como cobras olham para um pssaro. Ela retor-
ceu o avental com mais fora enquanto o silncio entre
eles aumentava. Finalmente, ela no aguentou mais.
       -- H algo errado, senhor? -- ela comeou. -- O
jantar no estava...
       -- Voc no fala! -- Deparnieux gritou e se levan-
tou da cadeira apontando para ela zangado. -- Aqui,
quem manda sou eu! Voc no fala sem eu mandar! Por-
tanto, fique quieta, mulher!
       Os olhos de Halt se estreitaram enquanto assistia 
cena desagradvel. Ele sabia que tudo aquilo estava acon-
tecendo por sua causa. Ele percebeu que Deparnieux que-
ria ver como iria reagir. Por mais frustrante que fosse, no
havia nada que pudesse fazer para ajudar a mulher naquele
momento. Deparnieux olhou para ele rapidamente e con-
firmou sua suspeita ao ver que o homem pequeno estava
to calmo quanto sempre. Ento ele se sentou outra vez,
voltando a ateno para a infeliz cozinheira.
       -- Os legumes estavam frios -- ele acusou final-
mente.
       A expresso da mulher mostrou medo e confuso
ao mesmo tempo.
       -- Claro que no, senhor. Os legumes estavam...
       -- Frios, estou dizendo! -- Deparnieux interrom-
peu. -- Eles estavam frios, no  mesmo? -- ele indagou
virando-se para Halt.
       -- Os legumes estavam bons -- ele respondeu
com calma e deu de ombros.
       No importava o que fosse acontecer, ele devia
deixar qualquer sinal de raiva ou indignao longe de sua
voz. Deparnieux sorriu levemente e voltou a olhar para a
mulher.
       -- Viu o que fez? -- ele disse. No s me envergo-
nhou na frente de um convidado, como o fez mentir por
sua causa.
       -- Meu senhor, verdade, eu no...
       Deparnieux a interrompeu com um violento aceno
da mo.
       -- Voc me desapontou e deve ser punida -- ele
afirmou.
       O rosto da mulher ficou plido de medo. Naquele
castelo, as punies eram sempre pesadas.
       -- Por favor, senhor. Por favor, vou me esforar
mais. Eu prometo -- ela balbuciou na esperana de faz-
lo mudar de ideia quanto ao castigo.
       Ela lanou um olhar de splica para Halt.
       -- Por favor, senhor, diga a ele que no tive a in-
teno -- ela implorou.
        -- Deixe ela em paz -- o arqueiro disse finalmente.
Deparnieux inclinou a cabea para o lado esperando.
        -- Ou? -- ele replicou.
        Ali estava uma oportunidade de avaliar os poderes
do prisioneiro Ou a falta deles. Se ele realmente fosse um
feiticeiro, talvez mostrasse do que era capaz naquele mo-
mento.
        Halt percebeu o que o outro homem estava pen-
sando. Havia um ar de expectativa enquanto ele observava
o arqueiro com ateno. Halt se deu conta, com relutn-
cia, que ele no estava em condies de reforar nenhuma
ameaa e decidiu tentar outra estratgia.
        Pensativo, o gals ps o dedo no lbio. A aparente
falta de preocupao de Halt podia ser real. Ou talvez fos-
se simplesmente uma forma de mascarar o fato de no ter
poderes. A principal razo para a dvida na mente de De-
parnieux era o fato de que no conseguia acreditar que
qualquer pessoa de poder ou autoridade pudesse ter mais
do que uma preocupao passageira por um criado. Halt
talvez estivesse recuando ou talvez no se preocupasse
tanto a ponto criar confuso pelo assunto.
        -- Mesmo assim -- ele continuou, enquanto ob-
servava Halt -- ela precisa ser punida.
        Ele olhou para o camareiro-chefe em seguida. O
homem tinha se encolhido de encontro  parede, tentando
ficar to invisvel quanto possvel enquanto o fato se de-
senrolava.
        -- Voc vai punir a mulher -- ele determinou. --
Ela  preguiosa, incompetente e envergonhou seu patro.
        -- Sim, meu senhor -- o camareiro concordou,
curvando-se obsequiosamente. -- A mulher vai ser puni-
da -- ele afirmou.
        Deparnieux ergueu as sobrancelhas surpreso e
zombeteiro.
        -- Mesmo? -- ele perguntou. -- E qual vai ser o
castigo?
        O criado hesitou. Ele no tinha ideia do que o cava-
leiro tinha em mente. Ento decidiu que, no total, seria
melhor errar pelo excesso.
        -- Chicotadas, senhor? -- ele respondeu e, quando
viu Deparnieux assentir concordando, continuou com
mais determinao:
        -- Ela vai ser chicoteada.
        Mas Deparnieux j estava balanando a cabea e
gotas de suor surgiram na cabea quase calva do camarei-
ro.
        -- No -- o patro replicou numa voz suave. --
Voc vai ser chicoteado. Ela vai ser engaiolada.
        Sem poder para interferir, Halt assistiu  cena cruel
se desenrolar diante de seus olhos. O rosto do criado se
encheu de medo quando ouviu que seria aoitado, mas a
mulher, ao saber de sua punio, desabou no cho com o
rosto transformado numa mscara de desespero. Halt se
lembrou da estrada sinuosa que tinham percorrido para
chegar a Montsombre, cercada com os infelizes pendura-
dos nas gaiolas de ferro. Ficou enjoado ao olhar para o
tirano vestido de preto  sua frente. Ele se levantou a-
bruptamente, empurrando a cadeira para trs, derrubando-
a e fazendo-a cair no cho de pedra.
       -- Vou para a cama -- ele avisou. -- Para mim
chega.
Evanlyn no tinha ideia de por quanto tempo estavam
subindo aos tropeos a trilha coberta de neve. O pnei
andava com dificuldade, de cabea baixa e sem reclamar,
carregando no lombo Will, que gemia baixinho. A prpria
Evanlyn continuava a caminhar sem pensar, amassando e
fazendo ranger a neve seca recm-cada com os ps.
       Finalmente, sentiu que no podia continuar. Ela
cambaleou, parou e procurou um abrigo para o resto da
noite.
       Os ventos dominantes do norte dos ltimos dias ti-
nham formado uma grossa camada de neve ao lado dos
pinheiros, deixando uma profunda depresso atrs dos
troncos. Os galhos mais baixos das rvores maiores se
espalhavam sobre essas cavidades, criando um abrigo de-
baixo da superfcie da neve. Eles no s poderiam se pro-
teger do mau tempo, j que a neve continuava a cair, co-
mo a depresso iria escond-los do olhar casual de pesso-
as que porventura passassem pela trilha.
       No era, de modo algum, o esconderijo ideal, mas
era o melhor disponvel. Evanlyn conduziu o pnei para
fora da trilha e se dirigiu para uma das maiores rvores
que cresciam a alguns metros do caminho.
       Quase imediatamente ela afundou at a cintura na
neve, mas se esforou para continuar, puxando o animal
atrs dela na trilha que abriu. Ela gastou quase todas as
ltimas reservas de fora e finalmente tropeou para den-
tro de um grande buraco atrs de uma rvore. O pnei
hesitou e depois a seguiu. Will pelo menos teve a presena
de esprito de se inclinar sobre o pescoo do animal para
evitar ser arrancado da sela pelos galhos enormes do pi-
nheiro cheios de neve.
       O espao debaixo da rvore era surpreendentemen-
te grande e havia bastante lugar para os trs. Com o calor
de seus corpos no espao mais ou menos fechado, estava
bem menos frio do que Evanlyn tinha imaginado. O frio
ainda era intenso, mas suportvel. Ela ajudou Will a descer
do lombo do pnei e o fez sentar. Ele ficou escarrapacha-
do no cho com as costas apoiadas na casca spera da r-
vore, enquanto ela procurava a mochila, onde encontrou
dois cobertores grossos dela. Evanlyn envolveu os om-
bros do amigo com as cobertas e, depois se sentou ao lado
dele e se cobriu tambm. Ela tomou uma das mos dele
entre as suas e esfregou os dedos. Eles pareciam congela-
dos. Ela sorriu para ele encorajando-o.
       -- Agora vamos ficar bem -- ela disse. -- Muito
bem.
       Will olhou para ela e, por um momento, Evanlyn
achou que ele tinha compreendido. Mas se deu conta de
que ele estava apenas reagindo ao som de sua voz.
       Assim que ele pareceu estar mais aquecido e seus
tremores diminuram para um espasmo ocasional, ela se
livrou do cobertor e se levantou para tirar a sela do pnei.
O animal grunhiu e relinchou aliviado quando as tiras se
afrouxaram ao redor de sua barriga e lentamente se abai-
xou sobre os joelhos para se deitar no abrigo.
       Talvez os cavalos fossem treinados para fazer isso
naquela terra coberta de neve. Ela no sabia. Mas o pnei
deitado oferecia um local quente para que ela e Will des-
cansassem. Ela puxou o garoto passivo para longe do
tronco da rvore e tornou a ajeit-lo, recostando-o  barri-
ga quente do equino. Ento, embrulhando-se nos coberto-
res outra vez, ela se aninhou perto dele. O calor do corpo
do animal era uma bno. Ela podia senti-lo nas costas e,
pela primeira vez em horas, ficou aquecida. Sua cabea
caiu sobre o ombro de Will e ela adormeceu.
       Do lado de fora, os flocos pesados de neve conti-
nuavam a desabar das nuvens baixas.
       Em 30 minutos, qualquer sinal de sua passagem pe-
la neve alta tinha desaparecido.
       A notcia de que dois escravos haviam fugido levou
algum tempo para chegar aos ouvidos de Erak na manh
seguinte.
       Isso no era de surpreender, pois um acontecimen-
to desses no era considerado importante o bastante para
perturbar um dos jarls mais antigos. De fato, foi apenas
depois que uma das escravas da cozinha se lembrou de
que Evanlyn tinha passado os dias anteriores se queixando
de ter sido indicada para a casa dele que Borsa, que tinha
sido informado do desaparecimento da garota, pensou em
mencionar o fato a ele.
       Assim, ele apenas contou o acontecimento por aca-
so, quando viu o capito barbado deixando a sala de refei-
es depois de tomar caf.
       -- A sua maldita garota se foi -- ele resmungou
passando por Erak rapidamente.
       Como hilfmann,  claro, Borsa tinha sido informa-
do do desaparecimento da escrava assim que o respons-
vel pela cozinha o descobriu. Afinal, era tarefa do hilf-
mann lidar com esses problemas administrativos.
       -- Minha garota? -- Erak indagou fingindo no
entender. Borsa acenou com impacincia.
       -- A menina de Araluen que voc trouxe. A que ia
ser sua escrava. Parece que ela fugiu.
       Erak franziu a testa. Ele achou que seria lgico pa-
recer um pouco aborrecido diante desse tipo de aconteci-
mento.
       -- Para onde? -- ele perguntou, e Borsa respondeu
com um gesto irritado.
       -- Quem sabe? No h lugar para ir e a neve estava
caindo como um cobertor na noite passada. No h sinais
de rastros em nenhum lugar.
        Ao ouvir essa notcia, Erak soltou um suspiro de a-
lvio interior. Pelo jeito, essa parte de seu plano tinha fun-
cionado. Suas prximas palavras, porm, desmentiram a
satisfao que ele escondia no fundo de seu ser.
        -- Ora, ento encontrem ela! -- ele disparou irrita-
do. -- Eu no arrastei ela por todo o mar de Stormwhite
para que fosse perdida!
        E se virou, e se afastou. Afinal, ele era um jarl s-
nior e um lder de guerra. Borsa podia muito bem ser o
hilfmann e o administrador-chefe de Ragnak, mas, numa
sociedade voltada para a guerra como aquela, Erak ocupa-
va uma posio bastante superior.
        Borsa olhou enquanto ele se afastava e praguejou
em voz baixa. Ele estava ciente no s de suas posies,
como tambm sabia que apenas um homem insensato in-
sultaria o jarl frente a frente. Ou pelas costas, como era o
caso. Erak era conhecido por reagir com sua acha  menor
provocao.
        Pensar na viagem de Erak com a garota o fez se
lembrar do outro escravo: o garoto que tinha sido apren-
diz de arqueiro. Ele tinha ouvido falar que a menina tinha
feito perguntas sobre ele nos ltimos dias. Agora, envolto
no pesado casaco de pele, foi at a porta e se dirigiu ao
alojamento dos escravos do ptio.
        Franzindo o nariz por causa do mau cheiro dos
corpos no banhados, Borsa parou na soleira da porta do
alojamento dos escravos do ptio e observou os membros
do Comit parados  sua frente.
       -- Vocs no o viram sair? -- ele perguntou sem
acreditar.
       O escravo negou com um gesto de cabea e de o-
lhos baixos. Seus modos mostravam sua culpa. Borsa ti-
nha certeza de que ele tinha ouvido ou visto o outro es-
cravo escapar e no tinha feito nada a respeito. Ele balan-
ou a cabea zangado e se virou para o guarda ao seu lado.
       -- Mande aoit-lo -- ele disse rapidamente e se
virou para o prdio principal.
       Mal tinha passado uma hora quando chegou a not-
cia do barco perdido. A ponta da corda, cortada com uma
faca, contava sua histria. Dois escravos fugidos, um bar-
co desaparecido. A concluso era bvia. Aborrecido, Bor-
sa pensou nas chances de sobrevivncia em Stormwhite
nessa poca do ano num barco aberto. Especialmente per-
to da costa.
       Pois, ao contrrio do que podia parecer, os fugiti-
vos teriam uma chance melhor de sobrevivncia no mar
aberto. Por terra, junto da costa e empurrados pelos ven-
tos incansveis e ondas enormes, seria um milagre se eles
no fossem esmagados contra as rochas antes de se afasta-
rem 10 quilmetros.
       -- Pois j vo tarde -- ele resmungou e mandou
que as patrulhas enviadas para fazer uma busca nas trilhas
das montanhas do norte voltassem.
       Mais tarde naquele dia, Erak ouviu dois escravos
conversando em voz baixa sobre os dois araluenses que
tinham roubado um barco e tentado escapar. Por volta do
meio-dia, os grupos de busca voltaram das montanhas.
Ficou claro que os homens estavam aliviados por estar
longe da neve alta e do vento cortante que tinha se insta-
lado logo aps o amanhecer.
       Seu corao ficou mais leve. Agora os fugitivos es-
tariam seguros at a primavera.
       Contanto que conseguissem encontrar a cabana na
montanha e no morressem congelados na tentativa.
A vida   no Chteau Montsombre tinha cado na rotina.
Seu anfitrio, o lder Deparnieux, via os dois convidados
relutantes apenas quando queria, o que acontecia geral-
mente durante o jantar, uma ou duas vezes por semana.
Isso tambm coincidia com as ocasies em que ele tinha
pensado numa nova maneira de atrair Halt, de tentar fazer
que mostrasse suas habilidades.
       Em outros momentos, os dois araluenses ficavam
confinados principalmente no quarto da torre, embora
todos os dias tivessem permisso de realizar um pouco de
exerccio no ptio do castelo sob o olhar desconfiado de
cerca de 12 homens armados que os vigiavam da torre.
Eles haviam perguntado vrias vezes se poderiam se aven-
turar para fora dos muros do castelo e, talvez, explorar um
pouco o planalto.
       Eles no esperavam mais do que a resposta que re-
ceberam, que foi um silncio sepulcral por parte do chefe
dos homens designados para vigi-los, mas ainda assim era
muito frustrante.
       Naquele momento, Horace andava de um lado para
outro do terrao no alto da torre central do Chteau
Montsombre.
       Do lado de dentro, Halt estava sentado de pernas
cruzadas na cama enquanto dava os toques finais num
novo arco que estava fazendo para Will. Ele vinha traba-
lhando no projeto desde que tinham chegado a Glica.
Cuidadosamente, ele selecionou, colou e amarrou com
firmeza tiras de madeira de modo que seus diferentes vei-
os e formas naturais ficassem opostos uns aos outros e
fizessem que a pea formasse uma curva suave. Depois,
ele fixou duas peas parecidas, porm mais curtas, em ca-
da ponta, de modo que sua curva corresse paralela ao con-
torno principal do arco, dando-lhe a forma recurva que
desejava.
       Quando tinham chegado a Montsombre, Deparni-
eux tinha visto as peas na mochila de Halt, mas no tinha
visto motivo para confisc-las.
       Sem flechas, um arco pela metade no representava
ameaa para ele. O vento circundava os torrees do caste-
lo se espremendo entre as esttuas de grgulas esculpidas
em pedra. Abaixo do terrao, uma famlia de gralhas esvo-
aava e planava ao vento, indo e vindo do ninho constru-
do numa fresta da dura parede de granito.
       Horace sempre se sentia um tanto enjoado ao ob-
servar pssaros voando abaixo dele. Ele se afastou da ba-
laustrada e ajeitou melhor a capa em volta do corpo. O ar
trazia consigo a ameaa de chuva e, no norte, havia um
grupo de nuvens pesadas vindo na direo deles. Era o
meio da tarde de outro dia gelado em Montsombre. A flo-
resta que se estendia abaixo deles era uma massa escura e
sem forma. Daquela altura, parecia um tapete spero.
       -- O que vamos fazer, Halt? -- Horace perguntou
e o companheiro hesitou antes de responder.
       No porque no sabia a resposta, mas porque no
sabia como o jovem rapaz ia receb-la.
       -- Vamos esperar -- ele disse simplesmente e de
imediato viu a frustrao no olhar de Horace.
       Ele sabia que o garoto estava esperando que alguma
coisa precipitasse os acontecimentos com Deparnieux.
       -- Mas Deparnieux est torturando e matando pes-
soas! E ns s ficamos sentados olhando! -- o menino
disse zangado.
       Ele esperava mais do habilidoso ex-arqueiro do que
uma simples ordem de esperar.
       A inatividade forada estava irritando Horace. Ele
no estava lidando bem com a monotonia e a frustrao
do cotidiano em Montsombre. Ele era treinado para agir e
era o que queria fazer. Ele sentia a compulso de fazer
alguma coisa -- qualquer coisa. Ele queria castigar De-
parnieux pela crueldade, queria uma chance de fazer o ca-
valeiro negro engolir os comentrios sarcsticos.
       Acima de tudo, queria se livrar de Montsombre,
voltar para a estrada e procurar Will.
       Halt esperou at quando achou que Horace tinha se
acalmado um pouco.
       -- Ele tambm  o senhor deste castelo -- ele con-
tinuou com suavidade -- e tem cerca de cinquenta ho-
mens prontos para obedecer s suas ordens. Acho que
isso  um pouco mais do que poderamos enfrentar com
tranquilidade.
       Horace pegou um pedao de granito despedaado
de um canto da balaustrada e o jogou para longe no vazio
abaixo, viu-o cair e descrever uma curva na direo dos
muros do castelo at se perder de vista.
       -- Eu sei -- ele respondeu de mau humor --, mas
gostaria que pudssemos fazer alguma coisa.
       Halt levantou os olhos de sua tarefa. Embora es-
condesse o fato, sua frustrao era ainda mais intensa do
que a de Horace. Se estivesse sozinho, poderia fugir do
castelo com a maior facilidade. Mas, para tanto, teria que
abandonar Horace, e nunca faria isso. Em vez disso, ele se
via dividido por lealdades conflitantes: para com Will e
com o jovem rapaz que desinteressadamente resolveu a-
companh-lo na busca de um amigo. Ele sabia que De-
parnieux no teria piedade de Horace se Halt escapasse.
Ao mesmo tempo, todas as fibras de seu ser ansiavam por
tomar a estrada e sair em busca do aprendiz perdido. Ele
voltou a ateno para o arco quase completo outra vez,
tomando cuidado para evitar que sua voz mostrasse qual-
quer sinal de frustrao.
       -- Receio que o prximo movimento est nas
mos de nosso anfitrio -- ele disse a Horace. -- Ele no
tem certeza do que fazer comigo. Ele no sabe bem se
posso ser til. E, enquanto hesita, ele est vigilante. Isso o
torna perigoso.
       -- Ento, no poderamos lutar com ele? -- Hora-
ce indagou recebendo uma enftica resposta negativa de
Halt.
       -- Prefiro relaxar um pouco -- ele retrucou. --
Prefiro que ele pense que no somos to perigosos ou -
teis quanto imaginou. Sinto que ele est tentando chegar a
uma concluso a meu respeito. Aquela histria com a co-
zinheira foi um teste.
       As primeiras gotas de chuva bateram na laje do pi-
so. Horace olhou para cima e percebeu com alguma sur-
presa que as nuvens aparentemente to distantes alguns
minutos antes j estavam passando em cima deles.
       -- Um teste? -- ele repetiu.
       Halt retorceu o rosto numa careta.
       -- Ele queria ver o que eu ia fazer. Talvez ele qui-
sesse descobrir o que eu poderia fazer a respeito.
       -- Ento voc no fez nada? -- Horace perguntou
e no mesmo instante se arrependeu das palavras apressa-
das.
       Halt, contudo, no se ofendeu. Ele encarou o garo-
to com firmeza e no disse nada.
       -- Desculpe, Halt -- Horace resmungou afinal
baixando o olhar.
       -- No havia muito o que eu pudesse fazer -- Halt
explicou ao aceitar as desculpas. -- No enquanto Depar-
nieux estava nervoso e em guarda. Esse no  o momento
de agir contra um inimigo. Receio que nas prximas se-
manas vai haver mais desses testes -- ele acrescentou
num tom de advertncia.
       -- O que voc acha que ele pretende? -- Horace
perguntou imediatamente.
       -- No sei os detalhes, mas voc pode apostar que
nosso amigo Deparnieux vai realizar mais atos desagrad-
veis apenas para ver o que faremos a respeito.
       Novamente, o ex-arqueiro fez uma careta.
       -- A questo : quanto mais eu ficar indiferente,
mais ele vai relaxar e menos preocupado vai ficar comigo.
       -- E  isso o que voc quer? -- Horace questionou
comeando a entender.
       Halt concordou sombrio.
       --  isso o que quero.
       Ele olhou para as nuvens escuras que cobriam o
cu.
       -- Agora, entre antes de ficar encharcado -- ele
sugeriu.
       A chuva veio e caiu durante uma hora, acompa-
nhando a violncia do vento, batendo quase horizontal-
mente nos espaos abertos das janelas do chteau onde os
ocupantes tinham deixado de fechar as venezianas de ma-
deira.
       Uma hora depois de escurecer, a chuva diminuiu
quando o sempre presente vento levou as nuvens mais
para o sul, e o sol baixo surgiu no oeste numa espetacular
exibio contra as nuvens de tempestade que se separa-
vam.
       Os dois prisioneiros estavam assistindo ao pr do
sol do terrao atingido pelo vento quando ouviram uma
agitao abaixo deles.
       Um cavaleiro solitrio estava no porto principal
batendo no gigantesco sino de bronze pendurado em um
poste. Ele falava, ou melhor, gritava, em gals, e Horace
no tinha ideia do que ele dizia, embora certamente reco-
nhecesse o nome "Deparnieux".
       -- O que ele est dizendo? -- ele perguntou a Halt,
e o arqueiro levantou a mo pedindo silncio enquanto
escutava as ltimas palavras do cavaleiro.
       -- Ele est desafiando Deparnieux -- ele contou
com a cabea inclinada para o lado para compreender as
palavras do cavaleiro desconhecido com mais clareza.
       Horace fez um gesto impaciente.
       -- Eu entendi! -- ele disse com certa aspereza. --
Mas por qu? Halt fez sinal para que se calasse enquanto o
recm-chegado continuava a gritar. O tom era bastante
zangado, mas era difcil entender as palavras, pois elas iam
e vinham ao sabor do vento.
       -- Pelo que posso entender -- Halt comeou de-
vagar --, nosso amigo Deparnieux assassinou a famlia
desse sujeito enquanto ele estava fora numa busca. Eles
vivem realizando buscas nessa regio.
        -- Ento, o que aconteceu? -- Horace quis saber,
mas o arqueiro s pde responder com um dar de om-
bros.
        -- Parece que Deparnieux queria as terras da fam-
lia desse homem, ento se livrou dos pais do sujeito.
        Ele continuou ouvindo.
        -- Eles j eram idosos e bastante indefesos.
        -- Pelo que sabemos de Deparnieux, ele  bem ca-
paz disso -- Horace grunhiu.
        De repente, o desconhecido parou de gritar, virou o
cavalo e se afastou trotando do porto para esperar uma
reao. Durante alguns minutos, no se viu nenhum sinal
de que algum alm de Halt e Horace tivesse ouvido al-
guma coisa. Ento, uma porta falsa se abriu no slido mu-
ro e dela saiu uma figura vestida numa armadura negra e
montada num cavalo de batalha negro.
        Deparnieux se aproximou lentamente at chegar a
uns 100 metros do outro cavaleiro. Os dois se encararam
enquanto o jovem repetia o desafio. Nas laterais do caste-
lo, Halt e Horace podiam ver os homens de Deparnieux
ansiosamente ocupando posies favorveis para assistir 
batalha que iria se realizar.
        -- Abutres -- Halt murmurou ao v-los.
        O cavaleiro vestido de preto no respondeu ao des-
conhecido. Ele simplesmente ergueu a ponta do escudo e
fechou o visor do capacete. O gesto foi suficiente para o
desafiante. Ele fechou o prprio visor com fora e espo-
reou seu cavalo de batalha. Deparnieux fez o mesmo e os
dois dispararam na direo um do outro com as lanas
apontadas para a frente.
       Mesmo a distncia, Halt e Horace podiam ver que
o jovem no era muito habilidoso. Ele estava sentado na
sela de modo estranho e segurava o escudo e a lana de
forma desajeitada. Deparnieux, em comparao, parecia
ter movimentos totalmente coordenados e assustadora-
mente capazes quando os dois se chocaram.
       -- Isso no parece bom -- Horace murmurou
num tom preocupado. Os dois se chocaram com um som
retumbante que ecoou pelas paredes do castelo. A lana
do jovem cavaleiro, mal posicionada e num ngulo desfa-
vorvel, partiu-se em pedaos. Em comparao, a lana de
Deparnieux atingiu diretamente o escudo do oponente,
fazendo-o cambalear na sela quando passaram. Mas, por
mais estranho que parecesse, Deparnieux no conseguiu
segurar a lana com firmeza. Ela caiu na grama atrs dele
enquanto virava o cavalo para contra atacar. Por um mo-
mento, Horace sentiu uma onda de esperana.
       -- Ele est ferido! -- exclamou ansioso. -- Que
golpe de sorte! Mas Halt observava a cena com a testa
franzida e balanando a cabea.
       -- No acredito nisso -- ele afirmou. -- H algu-
ma coisa esquisita acontecendo aqui.
       Os dois guerreiros de armadura empunharam as
espadas e voltaram a atacar. Eles se chocaram um contra o
outro. O escudo de Deparnieux foi atingido por um golpe
do outro cavaleiro, enquanto sua espada atingiu o capacete
do oponente com um tinido e, mais uma vez, o jovem
cambaleou na sela.
       Os cavalos de batalha relinchavam furiosos enquan-
to giravam e se empinavam, e os cavaleiros tentavam as-
sumir uma posio vantajosa. Os guerreiros se golpearam
novamente quando se aproximaram um do outro, enquan-
to os homens de Deparnieux davam vivas sempre que o
patro desferia um golpe.
       -- O que ele est fazendo? -- Horace perguntou
sem o entusiasmo anterior. -- Deparnieux poderia ter a-
cabado com o outro depois daquele primeiro golpe!
       Sua voz adotou um tom de repugnncia quando
percebeu a verdade.
       -- Ele est brincando com o outro!
       Abaixo deles, os guinchos agudos de espada contra
espada continuavam e se alternavam com o som metlico
mais grave quando atingiam os escudos. Para espectadores
experientes como Halt e Horace, que tinham visto muitos
torneios no castelo Redmont, era bvio que Deparnieux
estava se contendo. Seus homens, porm, pareciam no
notar. Eles eram camponeses que no tinham conheci-
mento das habilidades envolvidas num duelo como aque-
le. Eles continuavam a rugir sua aprovao a cada golpe
desferido por Deparnieux.
       -- Ele est jogando para a plateia -- Halt disse e
indicou os homens armados nas balaustradas abaixo deles.
-- Ele est fazendo o outro homem parecer melhor do
que realmente .
       Horace balanou a cabea. Deparnieux estava mos-
trando mais um lado de sua natureza cruel ao prolongar a
batalha daquela forma. Era muito melhor dar ao jovem
cavaleiro um fim misericordioso do que brincar com ele.
       -- Ele  um porco -- ele disse em voz baixa.
       O comportamento de Deparnieux ia contra todas
as normas da cavalaria, que significavam tanto para ele.
Halt assentiu com um gesto de cabea.
       -- Isso ns j sabemos. Ele est usando esse rapaz
para melhorar a prpria reputao.
       Horace o olhou com espanto e o arqueiro explicou.
       -- Ele domina pelo medo. O poder sobre seus
homens depende do quanto eles o respeitam e temem. E
ele precisa sempre renovar esse medo. Ele no pode dei-
x-lo escapar. Ao fazer esse oponente parecer mais capaz
do que , ele reala a prpria reputao de grande guerrei-
ro. Esses homens -- ele fez um gesto desdenhoso para a
balaustrada abaixo -- no percebem isso.
       Deparnieux pareceu resolver que j tinha prolonga-
do a luta o suficiente. Os dois araluenses detectaram uma
sutil mudana na velocidade e na fora de seus golpes. O
jovem cavaleiro balanou sob o ataque e tentou permane-
cer firme. Mas a figura vestida de preto fez seu cavalo de
batalha segui-lo implacavelmente, desferindo golpes na
espada, no escudo e no capacete,  vontade. Finalmente,
ouviu-se um som mais surdo quando a espada de Depar-
nieux atingiu um ponto vulnervel: a malha de ferro que
protegia o pescoo do oponente.
       O cavaleiro negro sabia que tinha sido um golpe
mortal. Com desdm, virou o cavalo na direo do porto
do castelo sem olhar para o jovem, que estava caindo para
o lado da sela. Das balaustradas, vieram gritos e aplausos
quando a figura sem energia caiu no cho e l ficou im-
vel. O porto se fechou com estrondo atrs do vitorioso.
       Halt acariciou a barba pensativo.
       -- Acho que talvez tenhamos encontrado a chave
para resolver nosso problema com lorde Deparnieux --
ele disse.
A   manh j ia pela metade quando Evanlyn acordou,
embora ela no tivesse como saber disso.
       No havia sinal do sol. Ele estava escondido atrs
das nuvens baixas cheias de neve. A luz era to fraca e
difusa que parecia estar vindo de todas as direes e de
nenhuma ao mesmo tempo. Era dia, e isso era tudo o que
sabia.
       Ela alongou os msculos doloridos e olhou em vol-
ta. Ao seu lado, Will estava sentado ereto e bem acordado.
Talvez ele estivesse assim por horas ou talvez tivesse a-
cordado somente alguns minutos antes dela. No havia
como saber. Ele simplesmente ficou sentado de olhos ar-
regalados, balanando levemente para a frente e para trs e
olhando diretamente para a frente.
       O corao dela ficava partido ao v-lo dessa manei-
ra. Quando ela se mexeu, o pnei percebeu o movimento
e comeou a se levantar. Evanlyn se afastou do animal
para lhe dar espao, segurou as mos de Will e o puxou
para longe tambm. O pequeno cavalo ficou de p e bateu
os cascos no cho uma ou duas vezes, sacudiu-se e relin-
chou violentamente, soprando uma grande nuvem de va-
por no ar gelado.
        A neve tinha parado de cair durante a noite, mas
no antes de ter apagado os sinais da passagem deles at a
depresso debaixo da rvore. Evanlyn se deu conta de que
seria difcil voltar para a trilha, mas pelo menos agora es-
tava descansada. Ela pensou brevemente em comer --
havia um pequeno suprimento de comida na mochila --
mas logo descartou a ideia, preferindo continuar e aumen-
tar a distncia entre eles e Hallasholm. Ela no tinha como
saber que os grupos de busca j tinham sido chamados de
volta por Borsa.
        Ela concluiu que poderia viver mais algumas horas
com a sensao de vazio no estmago, mas no com a
forte sede que tinha secado sua boca. Foi at onde a neve
estava espessa e nova, pegou um punhado e o colocou na
boca, deixando-a derreter. A quantidade de gua produzi-
da foi surpreendentemente pequena, e ela teve que repetir
o gesto vrias vezes. Ela pensou em mostrar a Will como
fazer o mesmo, mas de repente ficou impaciente para
prosseguir a viagem. "Se ele estiver com sede", raciocinou,
"saber resolver o problema sozinho".
        Ela voltou a amarrar a sela no lombo do pnei e
apertou as tiras o mximo que pde. O pnei, esperto
como todos os de sua espcie, tentou respirar fundo e ex-
pandir a barriga para depois expirar e fazer as tiras afrou-
xarem. Mas Evanlyn tinha ficado atenta a esse truque des-
de os 11 anos de idade. Ela deu uma joelhada forte no
animal, obrigando-o a soltar o ar e ento, quando o corpo
dele se contraiu, puxou as tiras com fora. O pnei olhou
para ela com ar de censura, mas aceitou seu destino sabi-
amente.
        Quando ela comeou a sair debaixo da rvore, no-
vamente abrindo caminho na neve na altura da cintura,
Will fez um movimento para montar o pnei. Ela o impe-
diu, levantando a mo.
        -- No -- ela disse com delicadeza.
        Eles precisavam do pnei, e Will certamente estava
descansado depois de uma noite tranquila na vala relati-
vamente aquecida. Mais tarde, talvez ela o deixasse montar
o animal outra vez. Ela sabia que as reservas de fora do
amigo no podiam ser muito grandes. Mas, naquele mo-
mento, ele podia andar e eles preservariam a fora do pe-
queno cavalo o mximo possvel.
        Foram necessrios 5 minutos de trabalho duro para
voltar at onde a trilha podia ser percorrida com relativa
facilidade e, respirando com dificuldade e molhada de su-
or, ela recomeou a subir a colina com obstinao.
        O cavalo andava com dificuldade e pacincia alis
dela, e Will caminhava a meio passo  direita. Seus lamen-
tos em voz baixa e sem parar j a estavam deixando ner-
vosa, mas ela fez o que pde para ignor-lo, pois sabia que
ele nada podia fazer para parar. Pela centsima vez desde
que deixaram Hallasholm, ela se viu desejando o dia em
que ele finalmente teria eliminado todos os sinais da droga
de seu organismo.
        Infelizmente, esse dia seria adiado ainda mais. De-
pois de algumas horas de caminhada firme e difcil na ne-
ve recm-cada, Will foi repentinamente tomado por uma
onda de tremores incontrolveis.
        Seus dentes bateram, e seu corpo sacudiu, tremeu e
se retorceu quando ele caiu no cho, rolando na neve, sem
nada poder fazer, com os joelhos encolhidos junto do pei-
to. Uma das mos esfregava a neve inutilmente, enquanto
a outra apertava a boca com firmeza. Ela observou horro-
rizada quando os gemidos se transformaram num grito
assustador, cheio de agonia, que saa do fundo de sua al-
ma.
        Evanlyn caiu de joelhos ao lado dele, abraou-o e
tentou acalm-lo com sua voz. Mas ele se afastou dela
com um movimento violento, rolando e se debatendo ou-
tra vez, e ela se deu conta de que no havia nada que pu-
desse fazer alm de lhe dar um pouco da erva que Erak
colocara na mochila. Ela tinha visto a erva quando preci-
sou procurar roupas quentes e cobertores. Havia uma pe-
quena quantidade das folhas secas dentro de uma bolsa
impermevel. Jarl Erak tinha avisado que Will no conse-
guiria parar de usar a droga imediatamente. A erva do ca-
lor criava uma dependncia fsica nos usurios que provo-
cava muita dor no caso de sua falta total.
        Ele lhe dissera que teria que livrar o garoto do vcio
gradativamente, dando-lhe quantidades cada vez menores
em intervalos cada vez maiores at que ele pudesse passar
sem ela.
       Evanlyn tinha esperado que Erak estivesse errado.
Ela sabia que cada dose da droga ampliava ainda mais o
tempo de dependncia e tinha pensado que seria capaz de
cortar o suprimento de Will de imediato e que poderia
ajud-lo a suportar a dor e o sofrimento.
       Mas no havia como ajud-lo naquele momento,
por isso com relutncia, ela lhe deu uma pequena quanti-
dade das folhas secas, protegendo a bolsa com o corpo
quando a tirou do pacote e novamente quando a guardou.
       Will pegou o pequeno punhado da substncia cin-
zenta com uma ansiedade assustadora. Pela primeira vez,
ela viu um claro vivo no olhar normalmente apagado.
Mas sua ateno estava totalmente concentrada na droga e
ela compreendeu o quanto a erva dominava a vida e a
mente dele naqueles dias. Em silncio, com os olhos chei-
os de lgrimas, ela olhou a concha vazia onde antes havia
um companheiro vivo e entusiasmado. Ela condenou
Borsa e os outros escandinavos que tinham provocado
essa situao ao canto mais quente do inferno em que a-
creditavam.
       O aprendiz de arqueiro enfiou o pequeno punhado
de erva na boca, empurrou-o para a bochecha e deixou
que a saliva o encharcasse e soltasse o suco que levaria o
narctico ao seu organismo. Aos poucos, os espasmos se
acalmaram at que ele se ajoelhou na neve ao lado do ca-
minho, curvou-se e balanou lentamente para a frente e
para trs de olhos fechados, outra vez gemendo suave-
mente para si mesmo no mundo solitrio, desconhecido e
cheio de dor que habitava.
        O pnei olhava a esses acontecimentos sem curio-
sidade e, de tempos em tempos, abria um buraco na neve
com o casco e mordiscava os escassos fios de grama que
apareciam. Por fim, Evanlyn tomou a mo de Will e o pu-
xou para cima sem que ele resistisse.
        -- Venha, Will -- ela chamou num tom desanima-
do. -- Ainda temos um longo caminho pela frente.
        Ao dizer isso, ela percebeu que estava se referindo a
bem mais do que apenas a distncia at a cabana de caa
nas montanhas.
        Grunhindo baixinho para si mesmo uma msica
sem melodia, Will seguiu Evanlyn enquanto ela conduzia
o pequeno grupo para cima outra vez.
        A luz do dia j tinha quase desaparecido quando
Evanlyn encontrou a cabana.
        Ela tinha passado pelo local duas vezes ao seguir as
instrues que Erak a tinha obrigado a memorizar: entrar
 esquerda numa bifurcao na trilha 100 passos depois de
um pinheiro derrubado por um raio, seguir por uma vala
estreita que leva para baixo por uns 100 metros e sobe em
curva e depois atravessar uma passagem rasa que atravessa
um pequeno riacho.
        Mentalmente, ela marcava os pontos de referncia,
espiando de um lado e outro na luz fraca do fim de tarde
que se instalava sobre as rvores. Mas no viu sinal da ca-
bana, apenas o branco sem forma da neve.
       Finalmente, ela percebeu que a cabana no estaria
facilmente visvel. Ela estaria praticamente enterrada na
neve. Quando se deu conta desse fato simples, notou um
monte grande a menos de 10 metros de onde estava. Sol-
tou a rdea do pnei, andou aos tropeos com a neve na
altura dos joelhos e descobriu a extremidade de uma pare-
de, depois a inclinao de um telhado e o ngulo recorta-
do de um canto, mais regular e liso do que qualquer forma
que a natureza poderia ter escondido debaixo da neve.
       Movendo-se ao redor do grande monte, ela desco-
briu que o lado voltado na direo do vento estava mais
descoberto e era possvel ver a porta e uma pequena janela
fechada por uma veneziana de madeira. Evanlyn ponde-
rou que era uma sorte a porta ter sido construda daquele
lado, mas ento se deu conta de que isso tinha sido inten-
cional. Apenas um idiota teria posto a porta do lado em
que os constantes ventos do norte fariam a neve se empi-
lhar a grande altura.
       Com um suspiro de alvio, voltou para pegar a r-
dea do pnei. As magras reservas de fora de Will j ti-
nham se acabado horas antes e ele estava cado sobre a
sela, balanando e gemendo naquele contnuo murmrio a
meia-voz. Ela fez o pnei parar junto da pequena varanda,
em frente da porta, e amarrou a rdea em uma corrente
que tinha sido presa no cho. Provavelmente, no havia
necessidade disso, pois o pnei no tinha mostrado inten-
o de ir embora at aquele momento. Entretanto, no
fazia mal ser precavida. A ltima coisa que queria era ter
que caar o pnei e seu cavaleiro no meio da escurido.
        Satisfeita ao ver a rdea amarrada com firmeza, ela
empurrou a porta mal encaixada e entrou na cabana para
conhecer seu novo refgio e seu contedo.
        O local era pequeno, somente uma sala principal
com uma mesa rstica e dois bancos, um de cada lado. Na
parede dos fundos, havia uma cama de madeira coberta
com o que parecia um colcho de palha. O cheiro de mo-
fo e bolor a fez franzir o nariz por um instante, mas ento
ela se deu conta de que assim que acendesse o fogo na
lareira de pedra que ocupava quase toda a parede da es-
querda, o mau cheiro iria se dissipar.
        Empilhado perto da lareira e bem  mo, havia um
suprimento de lenha juntamente com uma pedra-de-fogo
e um pedao de ferro.
        Evanlyn gastou alguns minutos para acender o fo-
go. O estalar das chamas e a luz amarela tremeluzente que
lanaram para o interior da cabana a deixaram animada.
        Num canto que evidentemente era uma despensa,
encontrou farinha, carne seca e feijo. Havia sinais de que
pequenos animais tinham remexido os suprimentos, e ela
achou que eles provavelmente seriam o suficiente para um
ou dois meses. Ela e Will no fariam banquetes, mas iriam
sobreviver.
        Principalmente se ele recuperasse qualquer uma de
suas antigas habilidades quando se livrasse dos efeitos da
droga. Porque naquele momento ela viu que havia um pe-
queno arco de caa e uma aljava de couro com flechas
penduradas atrs da porta. Mesmo no inverno mais rigo-
roso, deveria haver alguma caa pequena disponvel --
coelhos e lebres, provavelmente. Eles poderiam comple-
mentar a comida que estava estocada na cabana.
       Caso contrrio... ela deu de ombros ao pensar nis-
so. Pelo menos estavam livres e ela teria a chance de liber-
tar Will do vcio. Enfrentaria os outros problemas  medi-
da que surgissem.
       O interior da cabana estava ficando mais aquecido e
ela saiu, para dizer a Will que desmontasse. Quando ele
obedeceu, ela franziu a testa ao ver o pnei. Evanlyn se
deu conta de que ele no poderia ficar do lado de fora, no
entanto, o pensamento de dividir a pequena cabana com
ele durante o inverno no a atraa muito. Na noite anteri-
or, embora tivesse ficado agradecida pelo calor do animal,
ela tinha ficado bem consciente do forte cheiro que se
desprendia dele.
       Havia um alpendre junto da cabana. Ele era aberto
de um dos lados, mas seria suficiente para fornecer abrigo
para o pnei durante o inverno. Havia alguns arreios e
tiras de couro abandonados e pendurados em pregos de
ferro junto com outras ferramentas simples. Era evidente
que o lugar era usado como estbulo.
       Evanlyn viu com satisfao que ele tambm tinha
outra utilidade. Ao longo da parede externa da cabana on-
de o alpendre tinha sido construdo, havia uma enorme
pilha de lenha cortada. Ela ficou aliviada com a descober-
ta, pois j tinha se perguntado o que iria fazer quando ti-
vesse usado todo o pequeno suprimento que havia dentro
da cabana.
       Evanlyn levou o pnei para o alpendre e tirou a sela
e os arreios. Havia um cocho e um pequeno suprimento
de milho, e ela deu um pouco para o animal. Ele mastigou
os gros contente, rangendo os dentes uns contra os ou-
tros daquele jeito tranquilo que os cavalos tm.
       Evanlyn no conseguiu encontrar gua para ele,
mas ela o tinha visto lamber a neve durante o dia e imagi-
nou que ele saberia como se satisfazer at que ela encon-
trasse outra alternativa. O pequeno suprimento de milho
no estbulo no iria durar at a primavera e ela se preocu-
pou com o fato por um momento. Ento, obedecendo a
nova filosofia de no se preocupar com problemas que
no poderia resolver, afastou o pensamento.
       -- Vou resolver isso mais tarde -- ela disse para si
mesma e voltou para a cabana.
       Evanlyn constatou que Will tinha tido o bom senso
de entrar e estava sentado num dos bancos perto do fogo.
Ela viu isso como um bom sinal e preparou uma refeio
simples com os restos das provises que Erak tinha colo-
cado na mochila.
       Havia uma chaleira amassada pendurada num apoio
na lareira e ela a encheu de neve, colocou-a suspensa so-
bre o fogo para que a neve derretesse e a gua comeasse
a ferver. Ela tinha visto uma pequena caixa de algo que lhe
pareceu ch na despensa. Pelo menos teriam uma bebida
quente para afugentar os ltimos sinais de frio e umidade.
       Evanlyn sorriu para Will quando o viu mastigar im-
passvel a comida que tinha colocado  sua frente. Ela se
sentiu estranhamente otimista. Mais uma vez, olhou ao
redor da cabana. A luz do lado de fora tinha desaparecido
e o lugar era iluminado apenas pelo brilho amarelo incer-
to, mas alegre, do fogo. Naquela luz, a cabana parecia a-
conchegante e tranquilizadora e, como ela tinha esperado,
o calor do fogo e o cheiro da fumaa de pinho tinham
dominado a umidade e o bolor que enchiam o aposento
quando tinha entrado pela primeira vez.
       -- Bem -- ela disse --, no  muito, mas  um lar.
       Ela no tinha ideia de que estava repetindo as pala-
vras de Halt, a centenas de quilmetros ao sul.
Halt e Horace no se surpreenderam quando, na noite
que se seguiu ao combate injusto, o chefe dos guardas lhes
disse que lorde Deparnieux esperava a companhia deles na
sala de refeies para o jantar. Era uma ordem, no um
convite, e Halt no sentiu necessidade de fingir que fosse
outra coisa. Ele no demonstrou ter ouvido a mensagem
do soldado e apenas se virou para olhar pela janela. O sar-
gento tampouco se incomodou com aquela reao. Ele se
virou e retomou o posto no alto da escada em espiral que
levava para a sala de jantar. Ele tinha entregado a mensa-
gem. Os estrangeiros a tinham ouvido.
       Naquela noite, eles tomaram banho, vestiram-se e
caminharam juntos pela escada circular at o andar inferi-
or do castelo provocando um barulho agudo com as botas
enquanto andavam. Eles tinham passado o final da tarde
discutindo um plano de ao para a noite e Horace estava
ansioso para p-lo em prtica. Quando chegaram s por-
tas duplas de 3 metros de altura, Halt ps uma das mos
em seu brao e fez que parasse. Ele via a impacincia no
rosto do jovem rapaz. Eles estavam presos ali por sema-
nas ouvindo as zombarias e os insultos velados de Depar-
nieux e vendo o tratamento barbaramente cruel dispensa-
do aos empregados. Os incidentes com a cozinheira e o
jovem cavaleiro tinham sido apenas dois entre muitos.
Halt sabia que Horace, com a impacincia de todos os
jovens, estava ansioso para ver Deparnieux punido. Ele
tambm sabia que o plano que tinham arquitetado depen-
deria de pacincia e da escolha do momento certo.
       Halt tinha percebido que a necessidade de Deparni-
eux de parecer invencvel para seus homens era uma fra-
queza que eles poderiam explorar. O cavaleiro tinha cria-
do uma situao em que se via forado a aceitar qualquer
desafio que pudesse ser apresentado, contanto que fosse
feito diante de testemunhas. No poderia haver reclama-
es ou rodeios da parte do comandante. Se ele aparentas-
se sentir medo ou relutasse em aceitar um desafio, isso
seria o comeo de uma longa espiral descendente.
       Agora, quando pararam, Halt encontrou o olhar an-
sioso e esperanoso de Horace e o encarou com seu olhar
firme, paciente e calculista.
       -- Lembre-se -- ele disse --, s quando eu der o
sinal.
       Horace concordou. Suas faces estavam ligeiramente
coradas pelo entusiasmo.
       -- Entendi -- ele disse controlando a ansiedade
com alguma dificuldade.
       Ele sentiu a mo do arqueiro no brao e percebeu
que o olhar firme ainda estava preso no dele. Respirou
fundo trs vezes para acalmar as batidas do corao e fez
outro gesto concordando, desta vez com mais firmeza.
        -- Eu entendo, Halt -- ele repetiu, enquanto enca-
rava o arqueiro. -- No vou estragar as coisas -- ele ga-
rantiu ao amigo. -- Esperamos demais por esse momento
e estou consciente disso. No se preocupe.
        Halt o analisou por outro longo momento. Ento,
satisfeito com a mensagem silenciosa que viu nos olhos do
garoto, assentiu e soltou o brao dele. Ele empurrou as
portas duplas para a frente, fazendo-as bater nas paredes
dos dois lados. Juntos, Horace e Halt marcharam para
dentro da sala de jantar onde Deparnieux esperava os
dois.
        A refeio servida foi outro exemplo decepcionante
da alardeada cozinha galesa. Para o gosto de Halt, os pra-
tos dispostos  sua frente dependiam excessivamente de
uma combinao um tanto enjoativa de muito creme e
alho em excesso. Ele comeu pouco, porm notou que Ho-
race, com o apetite de um jovem, engolia toda a comida
que era colocada  sua frente.
        Durante toda a refeio, o comandante manteve
um constante fluxo de sarcasmo e desdm, referindo-se 
falta de jeito e  estupidez, de seus criados e  exibio
tola feita pelo cavaleiro desconhecido no dia anterior.
Como era seu hbito, Halt tomou vinho com a refeio,
enquanto Horace se contentou com gua. Quando tinham
terminado de comer a comida pesada e excessivamente
forte, criados trouxeram jarras de caf para a mesa.
        Halt tinha que admitir que isso era algo que os gale-
ses faziam com grande habilidade. O caf era delicioso,
muito melhor do que qualquer outro que j tinha provado
em Araluen. Ele sorveu a bebida quente e perfumada o-
lhando por cima da borda da xcara para Deparnieux, que
observava os dois com o sorriso desdenhoso habitual.
        Naquele momento, o cavaleiro gals tinha chegado
a uma deciso sobre Halt. Ele acreditava que no havia
nada a temer do estrangeiro de barba grisalha. Era bvio
que o homem tinha habilidade com o arco, provavelmente
com trabalhos em madeira e em se movimentar sem ser
percebido. Mas, no que se referia aos seus temores origi-
nais de que Halt pudesse ter habilidades misteriosas de
feitiaria, tinha certeza de que havia se enganado.
        Agora que se sentia seguro, Deparnieux no conse-
guia resistir  tentao de atacar Halt com mais zombarias
e insultos do que antes. O fato de ter estado cauteloso
com o homem barbado por algum tempo apenas serviu
para redobrar seus esforos para deix-lo desconfortvel.
O comandante apreciava brincar com as pessoas. Ele ado-
rava deix-las sem saber o que fazer, v-las sofrer ou se
enfurecer diante dos ataques de sua lngua sarcstica.
        E,  medida que seu desdm por Halt crescia, o
mesmo acontecia com sua total indiferena em relao a
Horace. Cada vez que os trs jantavam juntos daquela
forma, ele esperava ansioso o momento em que pudesse
dispensar bruscamente o jovem musculoso e envi-lo,
com o rosto afogueado de raiva e constrangimento, de
volta  torre. Ele decidiu que agora era o momento de re-
petir a dose.
        Ele inclinou a pesada cadeira para trs e esvaziou o
clice de prata que segurava na mo esquerda. Com des-
dm, acenou na direo do garoto com a outra mo.
        -- Nos deixe, garoto -- ele ordenou, recusando-se
at a olhar para Horace.
        Ele sentiu uma distinta onda de prazer quando o
rapaz, depois de uma breve pausa e um rpido olhar para
o companheiro, se levantou devagar e respondeu com
uma palavra.
        -- No.
        A negativa ficou pairando no ar entre eles. Depar-
nieux exultou com a rebeldia do menino, mas no permi-
tiu que nenhum sinal disso aparecesse em seu rosto. Em
vez disso, franziu a testa, fingindo aparente desprazer. Ele
se virou lentamente para encarar o rapaz. Ele viu que a
respirao de Horace estava mais rpida por causa da a-
drenalina que corria em suas veias, agora que esse mo-
mento vital finalmente tinha chegado.
        -- No? -- Deparnieux repetiu como se no pu-
desse acreditar no que estava ouvindo. -- Sou o senhor
deste castelo e aqui minha palavra  lei. Minha vontade 
uma ordem para todos os outros. Voc tem a indelicadeza
de me dizer "no" no meu prprio castelo?
        -- J se foi o tempo em que a sua palavra devia ser
obedecida sem perguntas -- Horace respondeu com cui-
dado, franzindo a testa enquanto se esforava para se limi-
tar s palavras exatas que Halt tinha ensinado. -- O se-
nhor perdeu o direito de ser obedecido por causa de suas
aes no cavalheirescas.
        -- Est desafiando meu direito ao comando em
meu prprio terreno? -- ele indagou ainda fingindo des-
prazer.
        Horace hesitou mais uma vez, certificando-se de
pronunciar bem sua resposta. Como Halt tinha lhe dito,
cuidado naquele momento era de fundamental importn-
cia. Na verdade, como Horace sabia muito bem, era uma
questo de vida ou morte.
        -- Chegou o momento de esse direito ser questio-
nado -- ele respondeu depois de uma pausa.
        Deparnieux, com um sorriso maldoso em sua fei-
o sombria, levantou-se da cadeira, inclinou-se para a
frente sobre a mesa e pousou as duas mos na superfcie
lisa de madeira.
        -- Ento est me desafiando? -- ele perguntou
sem conseguir esconder o prazer na voz. Horace, contu-
do, fez um gesto hesitante.
        -- Antes de proferir qualquer desafio, exijo que o
respeite -- ele disse, e o cavaleiro franziu a testa levemen-
te.
        -- Respeitar? -- ele repetiu. -- O que quer dizer,
seu cachorro choro?
        Horace balanou a cabea teimoso, ignorando o in-
sulto.
        -- Eu quero uma garantia de que voc vai cumprir
os termos do desafio. E quero que o faa diante de seus
homens.
        -- Ah, voc quer, no  mesmo?
        Agora, a raiva na voz de Deparnieux no era uma
suposio. Ela era real. Ele tinha percebido para onde o
garoto induzira a conversa.
        -- Acho que o garoto pensa que o senhor governa
pelo medo, lorde Deparnieux -- Halt interrompeu com
calma.
        -- E o que isso tem a ver com voc, arqueiro? --
ele perguntou, embora j imaginasse saber a resposta.
        -- Os seus homens esto com voc por causa de
sua reputao de guerreiro -- Halt respondeu com indife-
rena, depois de dar de ombros. -- Acho que Horace pre-
feriria ver o desafio ser apresentado e aceito diante de seus
homens.
        Deparnieux franziu a testa. Como, de certa forma,
o desafio j tinha sido apresentado diante de alguns de
seus homens, ele sabia que no tinha escolha seno ceder.
Um comandante que s aparentasse mostrar medo de um
jovem de 16 anos teria pouco respeito por parte dos ho-
mens que comandava, ainda que vencesse a batalha resul-
tante.
        -- Voc acha que tenho medo do desafio desse ga-
roto? -- ele indagou sarcstico.
        -- Nenhum desafio foi apresentado... ainda -- Halt
retrucou e ergueu a mo num gesto de advertncia. -- S
estamos preocupados em garantir que o senhor tenha a
coragem de honrar qualquer desafio que possa surgir.
        Deparnieux resmungou aborrecido diante das pala-
vras cuidadosas do arqueiro.
        -- Agora estou vendo o que realmente pretende,
arqueiro -- ele respondeu. -- Pensei que voc fosse um
feiticeiro, mas percebo que no  mais do que um advo-
gado desprezvel brincando com palavras.
        Halt mostrou um leve sorriso e inclinou um pouco
a cabea. Ele no respondeu e o silncio se estendeu entre
eles. Deparnieux olhou rapidamente para os dois sentine-
las parados ao lado das enormes portas duplas do salo de
jantar. Seus rostos mostravam o interesse na cena que se
desenrolava. Os detalhes se espalhariam por todo o caste-
lo, rapidamente, se ele recusasse o desafio ou tentasse ga-
nhar uma vantagem desonesta sobre o garoto. Ele sabia
que seus homens tinham pouco apreo por ele e que, caso
no tratasse o desafio de forma correta, comearia a per-
d-los. Talvez no imediatamente, mas aos poucos, um
depois do outro,  medida que desertassem de seus postos
e passassem para o lado de seus inimigos. E Deparnieux
tinha muitos inimigos.
        Ele olhou para o garoto. No tinha dvida de que
podia vencer Horace numa luta justa, mas se ressentia do
fato de que tinha sido manipulado para aceitar essa situa-
o. No Chateau Montsombre, era Deparnieux quem pre-
feria manipular. Ele se obrigou a sorrir e tentou parecer
entediado com toda aquela situao.
        -- Muito bem -- ele disse num tom indiferente --,
se  isso que deseja, vou cumprir os termos do desafio.
        -- E vai fazer isso diante de seus homens? -- Ho-
race ajuntou rapidamente, o que fez o cavaleiro olhar para
ele de mau humor e abandonar qualquer fingimento de
que gostava do garoto tagarela e de seu companheiro bar-
bado.
        -- Sim -- ele disparou para os dois. -- Se preciso
dizer isso letra por letra para agradar vocs, garanto minha
aceitao na frente de meus homens.
        -- Ento -- Horace retrucou suspirando aliviado e
comeando a tirar uma das luvas presa ao cinto -- o desa-
fio pode ser apresentado. O combate vai ocorrer daqui a
duas semanas.
        -- Fechado -- Deparnieux respondeu.
        -- ...no campo de grama em frente ao Chteau
Montsombre...
        -- Concordo.
        A palavra foi dita quase com raiva.
        -- ...diante de seus homens e dos outros ocupantes
do castelo...
        -- Concordo.
        -- ...e dever ser um combate mortal.
        A voz de Horace hesitou um pouco ao pronunciar
essa frase, mas ele olhou rapidamente para Halt, e o ar-
queiro balanou a cabea levemente para lhe dar coragem.
E ento o sorriso estreito, amargo e selvagem voltou aos
lbios do dono do castelo.
      -- Concordo -- ele disse novamente.
      No entanto, desta vez a palavra foi quase ronrona-
da.
        -- Agora continue, garoto, antes que perca a cora-
gem e molhe as calas.
        Horace inclinou a cabea na direo do comandan-
te e, pela primeira vez, sentiu-se no controle da situao.
        -- Que sujeito desagradvel voc , Deparnieux --
ele disse devagar, o que fez o cavaleiro negro se inclinar
sobre a mesa e oferecer o queixo para o golpe ritual com a
luva que provocaria o desafio e tornaria todo o aconteci-
mento irreversvel.
        -- Com medo, garoto? -- ele replicou com desdm
e ento se encolheu quando uma luva o atingiu como uma
ferroada.
        Contudo, no foi a dor que o fez se encolher, mas
sim a forma inesperada como tudo aconteceu, pois o ga-
roto do outro lado da mesa no se moveu. Em vez disso,
o arqueiro grisalho e barbado se levantou com velocidade
e agilidade tais que no houve tempo para o cavaleiro rea-
gir. Ele foi atingido no rosto com a luva que estivera segu-
rando sob a mesa nos ltimos minutos.
        -- Ento eu desafio voc, Deparnieux -- o arquei-
ro afirmou.
        E, por alguns segundos, o comandante sentiu a he-
sitao tomar conta dele quando viu o brilho de satisfao
no fundo daqueles olhos firmes e determinados.
Uma pequena mancha de sol se arrastou para dentro do
nico aposento da cabana. Evanlyn, cochilando na cadei-
ra, sentiu o calor do sol no rosto e sorriu sem perceber.
Do lado de fora, a neve ainda formava uma camada alta
no cho, mas o cu do meio da tarde era de um azul bri-
lhante e sem nuvens.
       Meio adormecida, ela aproveitou o calor enquanto a
luz passava em seu corpo lentamente. Por trs das plpe-
bras fechadas, ela sentiu o vermelho vivo e ofuscante do
sol.
       Ento, abruptamente, a luz foi bloqueada e ela a-
briu os olhos.
       Will estava parado  sua frente na posio que tinha
se tornado conhecida para ela na semana passada. As
mos dele estavam juntas e seus olhos castanhos escuros,
antes to vivos, cheios de diverso e alegria, no mostra-
vam nada alm de um pedido suplicante. Ele ficou ali, pa-
ciente, esperando que ela reagisse, e ela sorriu para ele
com certa tristeza.
       -- Tudo bem -- ela disse com delicadeza.
       Um sorriso muito tnue tocou os lbios dele, pare-
cendo por um momento se refletir naqueles olhos escuros,
e ela sentiu uma renovada onda de esperana que vinha
crescendo dentro de si nos ltimos dias. Aos poucos, mas
perceptivelmente, Will estava mudando. Primeiro, quando
lhe negava a droga, ele se retorcia naqueles terrveis ata-
ques e tremores, recuperando-se apenas quando ela lhe
dava uma pequena poro da erva.
       Mas, como os intervalos entre as doses tinham fi-
cado maiores e as doses menores, ela tinha comeado a ter
esperanas de que ele acabaria se recuperando. Os ataques
eram coisa do passado. Agora, em vez de ser dominado
pelo corpo quando ansiava pela droga, Will estava men-
talmente aceitando um suprimento menor. Ainda havia
uma pequena necessidade, mas ela se refletia no compor-
tamento suplicante, quase infantil, que ela estava vendo
naquele momento.
       Depois de trs dias sem usar a droga, ele se apro-
ximava e simplesmente ficava parado na frente dela com a
mensagem clara no olhar. E, em resposta, ela media uma
poro do estoque da droga, cada vez menor, que conti-
nuava na bolsinha impermevel de algodo. Evanlyn sabia
que era uma corrida para ver se a dependncia dele seria
maior que o suprimento. Se esse fosse o caso, ela podia
ver momentos difceis para os dois no futuro. Ela no ti-
nha ideia de qual seria a reao de Will quando lhe recu-
sasse a droga, mas imaginava que mais privao iria resul-
tar em outro acesso de tremores e gritos.
       Ela pensou que talvez esse fosse o prximo passo
necessrio na recuperao dele. Mas, certo ou errado, ela
simplesmente no podia se obrigar a testemunhar aquela
necessidade incontrolvel outra vez. "Haver tempo sufi-
ciente para isso quando a erva finalmente acabar", ela
concluiu.
       -- Fique aqui -- ela pediu, levantando-se da cadei-
ra de madeira e indo para a porta.
       Mais uma vez, Evanlyn imaginou ver um leve bri-
lho de prazer nos olhos dele que desapareceu numa frao
de segundo, mas ela disse a si mesma que ele tinha estado
l, que ela no estava apenas vendo o que esperava ver.
       Ela guardava o suprimento de erva no estbulo, a-
trs de uma tbua solta junto de uma das paredes laterais.
No incio, pensou em esconder a bolsa de tecido imper-
mevel na pilha de lenha, mas lembrou que iria pedir a
Will que apanhasse lenha para o fogo e a possibilidade de
ele encontrar a droga era terrvel demais para considerar.
       Evanlyn no tinha uma ideia clara do que iria acon-
tecer a Will se ele ingerisse uma dose muito grande.
       Ela pensou que, no mnimo, a dependncia voltaria
a aumentar outra vez. E tambm havia a possibilidade de
ocorrerem mais efeitos colaterais permanentes -- at
mesmo fatais. O que ela sabia era que, se Will encontrasse
a erva e a usasse de uma vez, ela enfrentaria semanas de
convulses e acessos de tremores iguais aos que ele tivera
quando tinha sido privado da droga antes.
        Evanlyn se perguntou se a mente entorpecida de
Will poderia processar o fato de que ela sempre deixava a
cabana e voltava com a erva; se ele era capaz de juntar a
sequncia de causa e efeito e raciocinar que a erva devia
estar guardada em algum lugar fora da cabana. Ela no
tinha certeza, mas, em todo caso, no corria riscos e veri-
ficava com cuidado se ele no a tinha seguido quando ti-
rava a bolsinha do pequeno esconderijo na parede de ma-
deira.
        Evanlyn olhou sobre o ombro quando entrou no
estbulo. O pnei olhou para ela e relinchou, cumprimen-
tando-a. Mas no havia sinal de que Will estava interessa-
do em seus movimentos. Aparentemente, ele estava satis-
feito em esperar na cabana, sabendo que ela voltaria logo
com a droga pela qual ansiava. Como isso acontecia ou
onde ela a encontrava pareciam no ser perguntas que o
preocupavam. Aquelas eram abstraes e naqueles dias ele
lidava apenas com fatos.
        Evanlyn mediu uma quantidade minscula da erva
seca na palma da mo, embrulhou o restante e o recolo-
cou atrs da tbua solta. Novamente, durante em meio a
esse procedimento, ela se virou de repente para checar se
estava sendo vigiada. Mas no havia sinal do companhei-
ro; apenas o pnei a observava com seus olhos brilhantes
e inteligentes.
        -- No diga uma palavra -- ela pediu ao cavalo em
voz baixa.
        Surpreendentemente, ele escolheu esse exato mo-
mento para balanar a cabea como os pneis fazem de
tempos em tempos. Evanlyn deu de ombros depois de
reagir com espanto por um segundo. Era como se o ani-
mal a tivesse ouvido e compreendido. Recolocou a bolsa
no buraco e o fechou com um pedao de tbua para es-
cond-la. Ela se abaixou no cho do estbulo, pegou um
punhado de terra e o espalhou sobre a linha recortada que
marcava a juno da madeira. Ento, convencida de que o
esconderijo estava oculto da melhor forma possvel, vol-
tou para a cabana.
        Will sorriu quando Evanlyn entrou e, por um mo-
mento, ela pensou que ele a tinha reconhecido, como nos
velhos tempos. "Os velhos tempos", ela pensou com tris-
teza. Apenas poucos meses tinham se passado, mas agora
pensava neles como se tivessem ocorrido h muito tempo.
Ento percebeu que o olhar dele disparou para sua mo
direita fechada. O sorriso era para a droga, no para ela.
        Mesmo assim, era um comeo.
        Evanlyn estendeu a mo fechada, e ele se aproxi-
mou ansioso, juntando as duas mos debaixo da dela para
que nenhum gro casse. Evanlyn deixou que a erva verde-
acinzentada escorregasse para as mos dele, observando o
rosto dele enquanto os olhos seguiam o fino fio da droga.
Inconscientemente, a lngua disparou para os lbios, na
expectativa. Depois de dar tudo a ele e deixar que limpas-
se com cuidado os poucos e minsculos gros que tinham
ficado presos na palma de sua mo, ele olhou para ela e
sorriu outra vez.
       Desta vez, teve certeza de que ele tinha sorrido para
ela.
       -- Bom -- ele disse rapidamente e ento seu olhar
caiu sobre o pequeno monte de erva seca que tinha na
mo.
       Ele se afastou dela, curvando-se sobre a mo quan-
do a levou para a boca.
       Evanlyn sentiu aquele repentino claro de esperan-
a queimar com fora dentro dela novamente. Era a pri-
meira vez que Will tinha realmente falado com ela desde
que tinham escapado de Hallasholm.
       No era muito. Apenas uma palavra. Mas era um
comeo. Ela sorriu para Will quando ele se agachou num
canto da cabana. Como um animal, ele instintivamente se
encolhia enquanto usava a droga, aparentemente nervoso
com a possibilidade de que ela a tirasse dele.
       -- Seja bem-vindo, Will -- ela disse baixinho.
       Mas ele no respondeu. A erva do calor o tinha do-
minado mais uma vez.
Horace se ergueu nos estribos quando Kicker comeou a
galopar com velocidade. Ele segurava uma longa vara de
freixo  direita, num ngulo reto com o corpo e com seu
alvo.  sua frente, parado imvel no meio do campo situ-
ado diante do castelo, Halt puxou a corda do arco para
trs at que a ponta enfeitada com penas da flecha tocasse
o canto de sua boca.
        Horace impeliu o cavalo de batalha a aumentar ain-
da mais o ritmo at chegar  velocidade mxima. Ele o-
lhou para a direita para verificar se o capacete que tinha
prendido no fim da lana de freixo ainda estava na posi-
o correta voltada para Halt.
        Ao olhar para o pequeno vulto na grama diante de-
le, viu a primeira flecha ser posicionada e cuspida do arco
com uma fora incrvel e disparar na direo do alvo em
movimento. Em seguida, num movimento confuso e qua-
se incompreensvel, as mos de Halt se mexeram e outra
flecha estava a caminho.
        Quase ao mesmo tempo, Horace sentiu um choque
transmitido ao longo da vara de madeira que segurava
quando as duas setas atingiram o capacete com um inter-
valo de meio segundo.
       Ele deixou Kicker diminuir o passo para um meio-
galope e levou o cavalo a fazer um crculo largo at parar
na frente do arqueiro. Halt estava parado com o arco a-
poiado no cho e esperava pacientemente para ver o resul-
tado do treino. Horace deixou a vara e o capacete carem
no cho na sua frente. Incrivelmente, as duas flechas atra-
vessaram a abertura do visor e se instalaram no acolchoa-
mento macio que Halt tinha posto no interior para prote-
ger as pontas afiadas.
       Quando Halt pegou o velho capacete nas mos,
Horace jogou a perna sobre o aro e escorregou para o
cho ao lado dele. O arqueiro grisalho fez um gesto com a
cabea enquanto inspecionava o resultado de sua prtica
de tiro.
       -- Nada mal -- ele disse. -- Nada mal, mesmo.
       Horace soltou as rdeas e deixou Kicker se afastar e
pastar na grama curta e grossa que crescia no campo de
torneios. Ele estava espantado e mais do que um pouco
preocupado com as aes de Halt.
       Depois que o desafio fora apresentado e aceito,
Deparnieux tinha concordado em devolver as armas dos
dois. Halt alegou que no atirava uma flecha havia sema-
nas e precisaria treinar suas habilidades para o combate.
Deparnieux, que praticava diariamente suas tcnicas de
combate, no viu nada de incomum no pedido. Assim, as
armas tinham sido devolvidas, embora os dois araluenses
estivessem sendo vigiados de perto por pelo menos uma
dzia de homens armados de bestas sempre que iam trei-
nar.
       Nos ltimos trs dias, Halt tinha instrudo Horace a
galopar pelo campo com o capacete estendido na ponta de
uma vara enquanto ele atirava setas no visor. A cada vez,
pelo menos uma das duas flechas encontrava o alvo. Em
geral, Halt conseguia pr as duas flechas nos pequenos
espaos que tinha em vista.
       No entanto, aquilo no era mais do que Horace es-
perava do arqueiro. A habilidade de Halt com o arco era
lendria. No havia necessidade para ele praticar, especi-
almente quando, ao fazer isso, estava revelando suas tti-
cas para o comandante gals.
       -- Ele est olhando? -- Halt perguntou em voz
baixa, parecendo ler os pensamentos de Horace.
       O arqueiro estava de costas para os muros do caste-
lo e no via o que acontecia l. Mas Horace, movendo a-
penas os olhos, e no a cabea, conseguia ver a silhueta
negra, num dos muitos terraos do castelo, curvada na
balaustrada observando-os, como fazia sempre que iam
para o campo.
       -- Sim, Halt -- ele respondeu. Ele est olhando.
Mas  sensato a gente fazer isso onde ele possa ver?
       O leve sinal de um sorriso pareceu tocar os lbios
do arqueiro.
       Possivelmente no -- ele respondeu --, mas ele i-
ria garantir que poderia nos observar, no importa onde
praticssemos, no  mesmo?
       -- Sim -- Horace admitiu relutante --, mas voc
no precisa treinar, precisa?
       -- Voc falou como um verdadeiro aprendiz --
Halt resmungou tristemente. -- Treinamento nunca 
demais para ningum, jovem Horace. Tenha isso em men-
te para quando voltarmos ao Castelo Redmont.
       Horace olhou para Halt desanimado, enquanto ele
soltava as duas flechas do estofo de palha e couro que en-
chia a cavidade do capacete.
       -- H outra coisa -- ele comeou, mas Halt levan-
tou a mo para que parasse.
       -- Eu sei, eu sei -- ele disse. -- As suas preciosas
regras de cavalaria esto perturbando voc outra vez, cer-
to?
       Horace foi obrigado a concordar com relutncia.
Aquele assunto era motivo de discusso entre os dois des-
de que Halt tinha desafiado Deparnieux para um duelo.
       Primeiro, o cavaleiro tinha ficado enraivecido e de-
pois, sarcasticamente divertido com o fato de que um
homem do povo tivesse a audcia de desafi-lo.
       -- Sou um cavaleiro consagrado -- Deparnieux
disparou para Halt. -- Um nobre! No posso ser desafia-
do para combater por qualquer rufio da floresta!
       A expresso do arqueiro ficou sombria ao ouvir es-
sas palavras. Sua voz, quando falou, estava baixa e perigo-
sa. Inadvertidamente, tanto Deparnieux quanto Horace
tinham se inclinado para a frente para ouvi-lo com mais
ateno.
        -- Veja como fala, seu patife malnascido! -- Halt
tinha retrucado. -- Voc est falando com o membro da
casa real de Hibernia, sexto na linha do trono e com uma
linhagem que era nobre quando voc e os seus estavam
procurando por restos de comida nos canis!
        E, enquanto falava, um inconfundvel sotaque hi-
berniano se fez, sentir em suas palavras. Horace olhou
para ele surpreso. Ele no tinha a menor ideia de que Halt
descendia de uma linhagem real. Deparnieux ficou igual-
mente espantado com a notcia. Ele estava certo, e claro.
Nenhum cavaleiro era obrigado a honrar um desafio vin-
do de um inferior. Mas a alegao do arqueiro grisalho
sobre seu sangue real punha o assunto numa outra pers-
pectiva. Seu desafio devia ser tratado com seriedade e res-
peito. Deparnieux no poderia ignor-lo, especialmente
por ter sido feito na presena de vrios de seus homens.
Recusar o desafio abalaria seriamente sua posio.
        Assim, ele aceitou o combate que foi marcado para
dali a duas semanas.
        Mais tarde, em seus aposentos, Horace mostrou
surpresa quando  origem de Halt.
        -- Eu no sabia que voc descendia da realeza hi-
berniana -- ele disse.
        Halt sorriu com indiferena.
        -- No descendo -- ele respondeu. -- Mas o nos-
so amigo no sabe e no tem como provar que estou
mentindo. Portanto, ele teve que aceitar meu desafio.
        E foi essa desconsiderao pelas rgidas convenes
da cavalaria que deixou Horace to preocupado, tanto
quanto o fato de que Halt parecia permitir que o inimigo
soubesse exatamente que tticas usaria no combate para o
qual faltava apenas um dia. O treinamento na Escola de
Guerra dava muita importncia s convenes e obriga-
es da classe dos cavaleiros. Horace tinha aprendido nos
ltimos dezoito meses que elas eram firmes e inflexveis.
Elas depositavam obrigaes naqueles que seriam cavalei-
ros e, embora lhes dessem grandes privilgios, esses privi-
lgios tinham que ser conquistados. Um cavaleiro tinha
que obedecer as regras, viver de acordo com elas e, se ne-
cessrio, morrer por elas.
        Entre as convenes mais severas e inflexveis esta-
va a oportunidade do combate. Para falar a verdade,
mesmo Horace, como um guerreiro ainda no promovido
a cavaleiro, no estava autorizado a desafiar Deparnieux.
Mas Halt certamente estava, e a atitude de cavaleiro do
arqueiro diante de um sistema que Horace tinha na mais
alta estima havia chocado o garoto -- e ainda o perturba-
va.
        -- Escute -- Halt disse com certa delicadeza, pon-
do um brao em volta dos ombros fortes de Horace --,
eu admito que as regras da cavalaria so timas, mas ape-
nas para os que vivem para obedecer todas as regras.
       -- Mas... -- Horace comeou, porm Halt o inter-
rompeu apertando-lhe o ombro.
       -- Deparnieux usou essas regras para matar, para
roubar e assassinar por Deus sabe quantos anos. Ele aceita
as regras que lhe convm e descarta as que atrapalham.
Voc j viu isso.
       -- Eu sei, Halt -- Horace concordou infeliz. -- 
que me ensinaram a...
       -- Voc aprendeu com homens nobres -- o ar-
queiro o interrompeu outra vez com gentileza. -- Com
homens que seguem e vivem de acordo com todas as re-
gras da cavalaria. Vou lhe dizer uma coisa: no que se refe-
re a essa questo, no conheo homens melhores do que
sir Rodney ou o baro Arald. Homens como eles so a
personificao de tudo o que  correto sobre a cavalaria e
seus procedimentos.
       Ele parou, olhando para o rosto perturbado do ga-
roto com ateno. Horace assentiu com um gesto. Halt
tinha escolhido Rodney e o baro por serem modelos para
o rapaz. Vendo que ele tinha sido compreendido, Halt
continuou.
       -- Mas um porco assassino e covarde como De-
parnieux no pode alegar seguir os mesmos padres que
esses homens seguem. No tenho o menor remorso em
mentir para ele, contanto que isso me ajude a atrair ele
para uma luta. E derrotar, se tiver sorte.
       E, nesse momento, Horace se virou para ele com a
expresso ainda preocupada, mas talvez um pouco mais
tranquilo.
       -- Mas como pode pensar em derrotar ele quando
ele sabe exatamente o que pretende fazer? -- ele pergun-
tou desanimado.
       -- Talvez eu tenha sorte -- Halt respondeu dando
de ombros, sem o menor sinal de um sorriso.
O arco de caa provocava uma sensao estranha na mo
de Evanlyn. Ela se atrapalhou ao tentar colocar uma das
flechas na corda e quase a deixou cair na neve aos seus ps
quando tentou manter os olhos no pequeno animal que se
movia lentamente na clareira  sua frente.
       Sem pensar, ela assobiou aborrecida e, no mesmo
instante, o coelho se sentou nas patas traseiras remexendo
as orelhas para ver se conseguia perceber outro sinal do
som estranho que tinha acabado de ouvir, torcendo o fo-
cinho de um lado para outro e procurando traos de al-
gum cheiro estranho.
       Evanlyn ficou paralisada e esperou at que o animal
tivesse se certificado de que no havia perigo imediato e
voltasse a raspar a neve com as patas dianteiras para des-
cobrir a grama molhada e mirrada que se escondia debaixo
dela. Quase sem ousar respirar, observou o coelho reco-
mear a comer e ento, olhando para baixo desta vez, des-
lizou a flecha para junto da corda, bem abaixo do entalhe
que o fabricante tinha feito ali.
        Nesse local, a corda era mais grossa e era envolvida
por um fio fino para que o encaixe oferecesse firmeza e
prendesse a flecha no lugar sem que se precisasse usar os
dedos. Evanlyn conseguia segurar o arco com leveza e a
fora da corda quando solta faria que ela a soltasse de i-
mediato e enviaria a flecha para seu alvo.
        Evanlyn levantou o arco e comeou a puxar a corda
com a mo direita, mas sabia que no estava fazendo a
coisa corretamente. Ela tinha visto vrios arqueiros para
saber que no era assim que se fazia. Entretanto, como
estava comeando a perceber, observar um arqueiro expe-
riente e imitar seus movimentos eram duas coisas total-
mente diferentes. Ela se lembrava de Will pr a flecha no
arco e atirar num nico movimento suave, hbil e aparen-
temente fcil. Naquele momento, ela visualizou o movi-
mento na imaginao, mas estava totalmente alm de sua
capacidade recri-lo. Em vez disso, ela segurou o arco pa-
ra cima e, tremendo, agarrando 0 entalhe da flecha entre o
indicador e o polegar, tentou puxar a corda para trs so-
mente com a fora dos dedos e do brao.
        Agindo assim, ela mal conseguia puxar a flecha a
meia distncia. Ela apertou os lbios zangada. Teria que
conseguir. Fechou um dos olhos e observou a flecha, ten-
tando mirar a pequena criatura que estava se alimentando
satisfeita e sem notar o perigo mortal que rondava as r-
vores ao redor da clareira. Com mais esperana do que
convico, ela finalmente soltou a flecha.
        Trs coisas aconteceram.
        O arco se retorceu em sua mo, afastando a flecha
cerca de 3 metros do alvo. A flecha em si saltou do arco
com uma fora que mal era suficiente para perfurar a car-
ne do animal, e a corda bateu doloridamente contra a pele
macia do interior de seu brao. Evanlyn gritou de dor e
deixou o arco cair. A flecha deslizou pela casca de uma
rvore e desapareceu na floresta do outro lado da clareira.
        O coelho ergueu o corpo novamente e espiou na
direo dela com um olhar que parecia totalmente confu-
so quando inclinou a cabea para ver melhor. Ento, ficou
de quatro, afastou-se lentamente da clareira e andou vaga-
rosamente para o meio das rvores.
        "Que fim para quem estava correndo perigo mor-
tal", ela pensou com tristeza.
        Evanlyn apanhou o arco, esfregou o brao dolorido
onde a corda tinha batido e foi procurar a flecha. Depois
de uma busca de dez minutos, chegou  concluso que a
tinha perdido para sempre. Aborrecida, voltou para a pe-
quena cabana.
        -- Acho que vou ter que praticar mais -- ela res-
mungou. Aquela tinha sido sua segunda tentativa de caa.
A primeira tinha sido igualmente infrutfera e totalmente
desanimadora. Pelo que talvez fosse a dcima quinta vez,
ela suspirou ao pensar que, se Will estivesse bem, ele no
teria nenhuma dificuldade em usar o arco para conseguir
comida para a mesa deles.
        Evanlyn tinha lhe mostrado o arco, esperando que
ele se lembrasse de alguma coisa ao ver a arma. Mas ele
no tinha feito nada alm de olhar para ela fixamente com
a expresso desinteressada e dissimulada que tinha ficado
to conhecida para ela.
       Havia nevado na noite anterior e a neve estava na
altura dos joelhos quando ela voltou com dificuldade para
a cabana. Era a primeira nevasca em mais de uma semana,
e isso a tinha feito pensar. O inverno j devia estar pela
metade e, por fim, quando a primavera chegasse, os es-
candinavos de Hallasholm recomeariam a andar por a-
quelas montanhas. Talvez alguns at chegassem e usassem
a cabana que ela e Will estavam ocupando no inverno. Ele
teria que estar recuperado at l, para que pudessem inici-
ar a longa jornada para o sul, e ela no tinha ideia de quan-
to tempo essa recuperao iria levar. Ele parecia estar me-
lhorando dia a dia, mas Evanlyn no tinha certeza. Tam-
pouco ela podia ter certeza de quanto tempo tinham at
que o calor da primavera comeasse a derreter a neve.
       Evanlyn sabia que estavam numa corrida, mas no
conseguia ver a linha de chegada. Ela poderia surgir na sua
frente a qualquer momento.
       A cabana entrou em seu campo de viso. Ela ficou
aliviada por ver que um fino fio de fumaa ainda saa pela
chamin. Ela tinha acendido o fogo antes de sair pela ma-
nh, esperando ter colocado bastante lenha para que
queimasse at sua volta. Ela j tinha descoberto que nada
era mais desanimador do que chegar em casa fria e mo-
lhada e encontrar o fogo apagado.
        Naturalmente, no havia como esperar que Will
cuidasse do fogo na ausncia dela. At mesmo uma tarefa
simples como aquela parecia ser demais para ele. Ela se
deu conta de que no era m vontade da parte dele. Ele
simplesmente no mostrava nenhum interesse em fazer ou
dizer qualquer coisa alm das funes mais bsicas. Ele
comia, dormia e ocasionalmente se aproximava dela com a
expresso suplicante no olhar, pedindo mais erva. "Pelo
menos", ela se consolou, "faz algum tempo que ele no
faz isso".
        Durante o resto do tempo, ele simplesmente ficava
sentado em qualquer lugar, olhando para o cho, para as
mos, ou um pedao de madeira, ou qualquer coisa em
que seus olhos quisessem se concentrar no momento.
        As velhas dobradias de couro da porta da cabana
rangeram quando ela a abriu. O barulho foi suficiente para
chamar a ateno de Will. Ele estava sentado de pernas
cruzadas no cho, no meio da cabana, quase na mesma
posio de quando ela tinha sado, horas antes.
        -- Oi, Will. Voltei -- ela avisou, obrigando-se a
sorrir.
        Ela sempre tentava, vivendo na esperana de que
um dia ele iria reagir.
        Mas aquele no era esse dia. O garoto no mostrou
sinal de reao ou interesse. Suspirando, ela recostou o
pequeno arco na parede ao lado da porta. Vagamente, ela
percebeu que deveria tirar a corda do arco, mas estava de-
sanimada demais para fazer isso naquele momento.
       Evanlyn foi at a despensa e apanhou uma pequena
quantidade de seu reduzido suprimento de carne seca.
Havia arroz tambm e ela comeou a preparar o arroz
temperado com carne que tinha se tornado a refeio
principal nas ltimas semanas. Ps gua para ferver para
que pudesse cozinhar a carne e preparar um caldo ralo
com pelo menos um pouco de sabor.
       Evanlyn tinha medido uma xcara de arroz e a esta-
va colocando em outra panela quando ouviu um leve ba-
rulho atrs dela. Ao se virar, percebeu que Will tinha sado
da posio em que tinha ficado quase toda a tarde. Naque-
le momento, ele estava sentado perto da porta e ela se
perguntou o que o tinha feito se mexer, mas chegou 
concluso de que tinha sido apenas uma deciso tomada
ao acaso.
       Ento, ela percebeu o que tinha acontecido e deu
um salto de surpresa, derramando parte do precioso arroz
na mesa.
       O pequeno arco ainda estava encostado  parede
junto da porta. Mas Will tinha tirado a corda.
Os homens de Deparnieux tinham estado fora desde ce-
do, naquela manh, passando o rastelo na grama comprida
que cobria o campo na frente do Chteau Montsombre. O
cavaleiro gals no queria correr riscos no combate plane-
jado. Ele tinha visto cavalos de batalha carem por causa
de grama emaranhada e queria garantir que o terreno da
luta estivesse livre desse perigo.
        Agora, uma hora aps o meio-dia, ele saiu pela por-
ta falsa que tinha usado na ocasio de seu ltimo combate.
Ele no tinha dvidas de que iria derrotar Halt, mas tam-
bm no se deixava enganar pelo pequeno estranho. Ele
tinha observado as constantes sesses de treinamento que
Halt e Horace tinham conduzido e sabia que o araluense
era um arqueiro de habilidades raras. Ele no tinha dvida
sobre as tticas que o oponente usaria. As sesses de trei-
namento tinham deixado isso claro. Deparnieux sorriu
para si mesmo. Ele pensou que as tticas psicolgicas de
Halt eram interessantes. A viso constante da flecha pas-
sando pelo visor de um capacete em rpido movimento
podia muito bem ser suficiente para amedrontar a maioria
dos oponentes. Mas, embora Deparnieux tivesse poucas
dvidas sobre as habilidades de Halt, tinha menos ainda
sobre as prprias. Seus reflexos eram to rpidos quanto
os de um gato e ele tinha certeza de que poderia desviar as
flechas de Halt com o escudo.
       Ele concluiu que parecia que o araluense grisalho o
tinha julgado mal como oponente, e ficou vagamente de-
sapontado com o fato. Deparnieux tinha esperado muito
do desconhecido. Parecia agora que as primeiras impres-
ses tinham se reduzido a quase nada. Halt era um arquei-
ro experiente, isso era tudo. Ele no tinha poderes sobre-
naturais ou habilidades misteriosas. O comandante pensou
que, na verdade, ele era bastante limitado e um homem
desinteressante que se tinha em alta conta. Ele duvidava
da alegao do arqueiro de ter uma linhagem real, mas isso
no importava mais. O homem merecia morrer, e Depar-
nieux ficaria feliz em lhe fazer esse favor.
       No havia nenhum dos habituais toques festivos de
trompetes ou o rufar de tambores quando Deparnieux
levou seu cavalo negro lentamente para o campo de bata-
lha. Aquele no era um dia para cerimnias. Aquele era
um dia de trabalho comum para o cavaleiro negro. Um
intruso tinha desafiado sua autoridade e sua superioridade
na regio. Era necessrio despachar esse tipo de gente
com a mxima eficincia.
       Por causa de tudo isso, praticamente todos os
membros da equipe do Chteau Montsombre e muitos
dos guerreiros de Deparnieux estavam presentes para tes-
temunhar o combate. Ele sorriu com crueldade quando se
perguntou quantos deles estariam ali na esperana de v-lo
derrotado. E concluiu que muitos deles. Mas eles estavam
fadados ao desapontamento. Na verdade, matar o arquei-
ro iria servir a um objetivo conveniente para ele. Nada
seria to bom para a disciplina quanto a viso do dono e
senhor do castelo provocando a morte rpida de um in-
truso arrogante.
        E, por falar no diabo, l estava ele. O arqueiro esta-
va cavalgando na extremidade oposta do campo em seu
pequeno cavalo parecido com um barril. Ele no usava
armadura, apenas um colete de couro ornamentado com
taches que no lhe daria nenhuma proteo contra a lan-
a e a espada de Deparnieux. E, naturalmente, a sempre
presente capa manchada de cinza e verde.
        Seu jovem companheiro cavalgava alguns passos a-
trs dele. Ele usava uma malha de ferro e seu capacete es-
tava pendurado na sela do cavalo de batalha. Ele carregava
a espada e levava o escudo redondo adornado com o sm-
bolo da folha de carvalho.
        "Interessante", Deparnieux pensou. Obviamente,
no caso da derrota inevitvel de Halt, seu jovem compa-
nheiro de viagem tentaria vingara morte do amigo. "Me-
lhor assim", pensou o cavaleiro negro. Se uma morte iria
servir como um exemplo salutar aos seus criados mais in-
disciplinados, duas seriam duplamente eficientes. Afinal,
tinha sido assim que todo esse acontecimento decepcio-
nante tinha comeado.
       Ele fez o cavalo parar e testou a empunhadura da
lana na mo direita para garantir que a segurava no ponto
ideal de equilbrio. No lado oposto do campo, seu opo-
nente continuava a cavalgar para a frente, devagar e com
firmeza. Ele parecia ridiculamente pequeno, diminudo
pelo jovem musculoso e o imenso cavalo de batalha que
andavam ao lado dele.




        -- Espero que saiba o que est fazendo -- Horace
disse, tentando falar sem mover os lbios, no caso de De-
parnieux estar observando, coisa que, naturalmente, ele
estava.
        Halt se virou na sela e quase sorriu para ele.
        -- Pois eu sei -- ele disse devagar.
        Ele percebeu que a mo direita de Horace soltou a
espada dentro do estojo mais uma vez. Ele tinha feito a
mesma coisa pelo menos uma dzia de vezes enquanto
cavalgavam.
        -- Relaxe -- ele acrescentou com calma.
        Horace olhou para ele abertamente, sem se impor-
tar se Deparnieux o via ou no.
        -- Relaxar? -- ele repetiu sem acreditar. -- Voc
vai lutar s com um arco contra um cavaleiro vestido com
uma armadura e voc me pede para relaxar?
        -- E voc sabe que s vou ter uma ou duas flechas
-- Halt disse com suavidade, fazendo Horace olh-lo es-
pantado.
        -- Bem... s espero que voc saiba o que est fa-
zendo -- ele repetiu.
        -- Se  o que voc acha -- ele retrucou, e cutucou
Abelard com o joelho, fazendo-o parar.
        Halt sorriu para ele. Era apenas o leve claro de um
sorriso. Os olhos de Halt se concentraram na figura dis-
tante na armadura negra, ele passou a perna direita por
sobre a sela e desceu do cavalo.
        Tire ele do caminho para no se machucar -- ele
pediu ao aprendiz.
        Horace se inclinou e pegou a rdea do cavalo do
arqueiro. Abelard agitou as orelhas e olhou para seu dono
com olhar inquisidor.
        -- V com ele -- Halt ordenou em voz baixa, e o
cavalo se permitiu ser conduzido para longe.
        Halt olhou mais uma vez para o jovem sentado no
cavalo de batalha e viu preocupao em cada centmetro
do corpo do garoto.
        -- Horace? -- ele chamou, e o aprendiz parou e
olhou para ele.
        -- Fique tranquilo, eu sei o que estou fazendo. Ho-
race conseguiu mostrar um fraco sorriso.
        -- Se voc diz... -- ele replicou.
        Enquanto falavam, Halt selecionou cuidadosamente
trs flechas entre as vrias que levava na aljava e as colo-
cou com a ponta para baixo dentro da bota direita. Horace
viu o movimento e se perguntou o que o arqueiro preten-
dia. No havia necessidade de Halt deixar as flechas  mo
daquele jeito. Ele podia peg-las na aljava em suas costas e
atir-las numa frao de segundo.
        Ele no teve tempo de pensar mais no assunto, pois
Deparnieux chamava do outro extremo do campo.
        -- Caro lorde Halt -- Horace ouviu claramente
Deparnieux cumpriment-lo com forte sotaque enquanto
se afastava com o cavalo. -- Voc est preparado?
        Sem se preocupar em falar, Halt ergueu a mo em
resposta. Horace achou que ele parecia muito pequeno e
vulnervel, parado sozinho no centro do campo aparado,
esperando a aproximao do cavaleiro vestido de negro
montado no seu enorme cavalo de batalha.
        -- Ento, que o melhor homem vena! -- Depar-
nieux gritou zombeteiro.
        --  o que pretendo fazer -- Halt respondeu desta
vez, enquanto Deparnieux batia as esporas no cavalo que
comeou a se aproximar a galope.
        Ocorreu a Horace que Halt no tinha dito nada so-
bre o que deveria fazer se Deparnieux vencesse. Ele tinha
alguma esperana de que o arqueiro o mandasse fugir. Ele
certamente esperava que Halt o proibisse de desafiar De-
parnieux imediatamente aps o combate, o que era exata-
mente o que Horace pretendia fazer se Halt perdesse. Ele
se perguntou naquele momento se Halt no tinha dito na-
da porque sabia que iria ignorar essa ordem ou se era sim-
plesmente porque estava totalmente confiante em sua vi-
tria.
        No que parecesse haver essa possibilidade. A terra
tremeu sob os cascos do cavalo de batalha negro, e o olho
experiente de Horace viu que o cavaleiro gals era um
guerreiro de grande capacidade e habilidade naturais. Per-
feitamente equilibrado em sua sela sobre o cavalo, ele ma-
nuseava a lana longa e pesada como se fosse um objeto
leve, inclinando-se para a frente e erguendo-se ligeiramen-
te nos estribos enquanto a ponta da lana se aproximava
cada vez mais da pequena figura vestida na capa cinza-
esverdeado.
        Era a capa que provocava uma sensao de apreen-
so na mente de Deparnieux. Halt oscilava levemente en-
quanto esperava, e as manchas irregulares na capa tendo
como fundo a grama de inverno cinza-esverdeado recm-
cortada pareciam fazer o vulto entrar e sair de foco. O
efeito era quase hipnotizador. Zangado, Deparnieux afas-
tou o pensamento perturbador e tentou concentrar a aten-
o no arqueiro. Ele estava perto, a menos de 30 metros
de distncia, e mesmo assim o arqueiro ainda no...
        Deparnieux sentiu sua aproximao: um movimen-
to confuso quando o arco foi erguido e a primeira flecha
disparou na direo dele com uma velocidade incrvel, in-
do diretamente para as fendas do visor em seu capacete e
provocando uma sensao de vazio.
        No entanto, apesar da velocidade da flecha, Depar-
nieux foi ainda mais rpido e conseguiu levantar o escudo
a tempo. Ele sentiu a flecha bater no escudo e ouviu o
retinir de ao se chocando com ao quando ela abriu um
longo sulco no esmalte preto e brilhante e depois saiu sibi-
lando quando o escudo a desviou.
        Mas ento o escudo no o deixava ver o pequeno
homem, e Deparnieux rapidamente o abaixou.
        "Que todos os diabos do inferno o levem!", foi o
que Halt desejou ao disparar uma segunda flecha. Mas os
incrveis reflexos de Deparnieux o salvaram outra vez,
fazendo que ele usasse o escudo para desviar o segundo
arremesso traioeiro. Ele se perguntou como algum po-
dia atirar to depressa e ento praguejou quando percebeu
que, por no conseguir enxergar, j tinha passado do pon-
to em que o arqueiro estava parado, calmamente saindo
do alcance da ponta da lana.
        Deparnieux fez o cavalo de batalha diminuir o pas-
so e dar uma grande volta. No valeria a pena se arriscar a
ferir o animal fazendo-o virar depressa demais. Ele agiria
com calma e...
        Nesse momento, ele sentiu uma pontada aguda de
dor no ombro esquerdo. Desajeitado e torcendo o corpo,
a viso prejudicada pelo capacete, ele percebeu que, ao
passar a galope, Halt tinha disparado outra flecha em sua
direo, desta vez mirando a abertura na armadura na altu-
ra do ombro.
        A malha de ferro que cobria essa abertura tinha su-
portado quase todo o impacto da seta, mas a ponta afia-
dssima ainda tinha conseguido cort-la e penetrar na car-
ne. Deparnieux se deu conta de que o ferimento era dolo-
roso, mas superficial, e moveu o brao rapidamente para
se certificar de que nenhum msculo ou tendo importan-
te tinha sido machucado. Se a luta fosse prolongada, o
brao poderia ficar rgido e afetar a defesa com o escudo.
       Do modo como as coisas caminhavam, o ferimento
era um incmodo. "Um incmodo doloroso", ele corrigiu
ao sentir o sangue quente escorrendo pela axila. Ele pro-
meteu a si mesmo que Halt pagaria por isso. E pagaria
caro.
       Pois, naquele momento, Deparnieux pensou que
tinha entendido o plano de Halt. Ele iria continuar a im-
pedir sua viso ao atacar, obrigando-o a levantar o escudo
para proteger os olhos no ltimo minuto, afastando-se
ento para o lado quando Deparnieux passasse para inves-
tir contra ele.
       Mas o cavaleiro no tinha inteno de jogar o jogo
de Halt. Ele iria trocar o ataque desenfreado em alta velo-
cidade com a lana por uma aproximao lenta e delibera-
da. Afinal, ele no precisava da fora e do impulso de uma
investida. Ele no estava enfrentando outro cavaleiro de
armadura que tentava derrub-lo da sela. Ele estava en-
frentando um homem parado sozinho no meio do campo.
       Enquanto percebia o plano, jogou a pesada lana
no cho, pegou a flecha do ombro, quebrou-a e a jogou
atrs da lana.
       Em seguida, empunhou a espada e comeou a tro-
tar lentamente para perto de Halt e esperou por ele.
        Ele manteve o arqueiro  sua esquerda para que o
escudo ficasse em posio de desviar as flechas. A longa
espada na mo direita balanava facilmente em crculos
enquanto ele sentia o peso conhecido e o equilbrio perfei-
to.
        Enquanto olhava a cena, Horace sentiu o corao
bater mais forte no peito. Agora s podia haver um fim
para aquela luta. Quando Deparnieux abandonou o ataque
impetuoso e o substituiu por uma aproximao mais cau-
telosa, Halt ficou com srios problemas. Horace sabia que
9 entre 10 cavaleiros teriam continuado a atacar, indigna-
dos pelas tticas de Halt e determinados a esmag-lo com
sua fora superior. Ele via agora que Deparnieux era um
dos 10 que veriam rapidamente a tolice de seguir esse ru-
mo e encontrariam uma ttica para anular a vantagem do
arqueiro.
        O cavaleiro montado estava a somente 40 metros
de distncia da pequena figura e se movimentava lenta-
mente em sua direo. Como antes, o arco subiu e a flecha
estava a caminho. Com habilidade, quase com desdm,
Deparnieux levantou o escudo para desviar a seta. Desta
vez, ele ouviu o guincho agudo do impacto e tornou a a-
baixar o escudo.
        Ele viu a prxima flecha, j apontada para a sua ca-
bea. Ele viu a mo do arqueiro comear a soltar a corda e
novamente levantou o escudo quando a flecha disparou
em sua direo.
        Mas havia um detalhe importante que ele no viu.
       Aquela flecha era uma das trs que Halt tinha colo-
cado no cano da bota. E essa flecha era diferente, pois
tinha uma cabea muito mais pesada feita de ao tempera-
do. Ao contrrio das flechas de guerra normais da aljava
de Halt, ela no tinha a cabea larga em formato de folha.
Em vez disso, ela tinha a forma da ponta de um formo
frio cercado por quatro esporas que impediriam que fosse
desviada e deixariam que atravessasse e penetrasse a carne
atrs da armadura de Deparnieux.
       A ponta da flecha era planejada para perfurar arma-
duras, e Halt tinha aprendido seus segredos anos antes
com os fortes arqueiros montados das estepes do leste.
       A flecha saiu voando do arco. Quando Deparnieux
levantou o escudo, no conseguiu ver o peso adicional da
ponta que j a fazia cair abaixo do local desejado. A flecha
formou um arco para baixo do escudo inclinado e bateu
no peito ali exposto como se quisesse apenas testar sua
velocidade e fora.
       Deparnieux ouviu o baque. Um impacto surdo de
metal contra metal -- mais um golpe metlico do que um
tinido. Ele se perguntou 0 que era. E ento sentiu o co-
meo de uma dor intensa, uma agonia ardente, que come-
ou em seu lado esquerdo e se espalhou rapidamente at
tomar conta de todo o seu corpo.
       Ele no chegou a sentir o impacto da queda de seu
corpo no gramado.
        Halt baixou o arco. Ele afrouxou a corda e guardou
a segunda flecha preparada para perfurar armaduras, j
posicionada e pronta, na aljava.
        O senhor do Chteau Montsombre estava deitado
imvel. Um silncio assombrado tomou conta da pequena
multido de espectadores que tinha sado do castelo para
assistir ao combate. Nenhum deles sabia como reagir. Ne-
nhum deles esperava esse resultado. Os criados, cozinhei-
ros e cavalarios sentiram uma cautelosa sensao de pra-
zer. Deparnieux nunca tinha sido um patro querido. O
uso do chicote e das gaiolas de ferro em qualquer criado
que o desagradasse tinha sido o responsvel por isso. Mas
as expectativas em relao ao homem que tinha acabado
de mat-lo no eram necessariamente mais altas.
        Logicamente, eles imaginaram que o estrangeiro
barbado tinha matado seu patro para que pudesse assu-
mir o controle de Montsombre. Era assim que as coisas
aconteciam em Glica, e experincias anteriores tinham
mostrado a eles que uma mudana de dono no trazia me-
lhorias para suas vidas. O prprio Deparnieux tinha derro-
tado um antigo tirano alguns anos antes. Assim, embora
estivessem satisfeitos em ver o sdico e cruel cavaleiro
negro morto, eles encaravam seu sucessor com pouco o-
timismo.
        Para os soldados que tinham servido Deparnieux, o
assunto era um pouco diferente. Eles, pelo menos, tinham
uma ligao mais prxima com o homem morto, embora
classificar esse sentimento como lealdade fosse um exage-
ro. Mas ele os tinha conduzido a muitas vitrias e a um
prmio considervel ao longo dos anos, de modo que ago-
ra trs deles comearam a andar na direo de Halt mo-
vendo as mos na direo do punho da espada.
       Ao ver o movimento, Horace bateu com as esporas
em Kicker e ficou entre eles e o arqueiro vestido com a
capa cinzenta. Ouviu-se um tinido de ao sobre couro
quando ele desembainhou a espada, fazendo a lmina bri-
lhar debaixo do sol do comeo da tarde. Os soldados hesi-
taram. Eles conheciam a reputao de Horace, e nenhum
deles se considerava um espadachim habilidoso o bastante
para acertar contas com o jovem rapaz. O campo de bata-
lha ao qual estavam acostumados era a confuso de uma
batalha campal, no a atmosfera fria e calculista de um
duelo como esse.
       -- Pegue o cavalo -- Halt pediu a Horace.
       O aprendiz olhou em volta surpreso. Halt no tinha
se mexido. Ele estava parado com os ps ligeiramente se-
parados, voltado para os soldados que se aproximavam.
Mais uma vez, uma flecha estava preparada na corda do
arco, embora ele continuasse abaixado.
       -- O qu? -- Horace perguntou confuso, e o ar-
queiro virou a cabea na direo do cavalo de batalha do
comandante, apoiando o peso do corpo ora num p, ora
noutro, agitando a cabea vagamente.
       -- O cavalo. Agora ele  meu. Pegue ele para mim
-- Halt repetiu, e Horace fez Kicker trotar lentamente at
onde pde se inclinar e pegar as rdeas do cavalo negro.
        Ele teve que embainhar a espada para isso e olhou
preocupado para os trs soldados e para os outros 12 que
estavam atrs dele, como se ainda no soubesse o que fa-
zer.
        -- Capito da guarda! -- Halt chamou. -- Onde
voc est?
        Um homem robusto usando meia armadura deu
um passo  frente, afastando-se do grupo maior de guer-
reiros. Halt olhou para ele por um momento.
        -- Seu nome? -- ele perguntou.
        O capito hesitou. Ele sabia que, no curso normal
dos acontecimentos, o vitorioso de um combate como
aquele simplesmente exigiria que as coisas continuassem
como eram, e a vida em Montsombre iria continuar com
poucas mudanas. Mas o capito tambm sabia que, ge-
ralmente, o novo comandante podia decidir rebaixar ou
at eliminar os oficiais graduados. Ele estava preocupado
com o arco na mo do estranho, mas no viu sentido em
no se apresentar. Os outros iriam isol-lo rapidamente, se
isso significasse um possvel progresso para eles. Ele to-
mou uma deciso.
        -- Philemon, senhor -- ele disse.
        Os olhos de Halt pareciam atravess-lo e se seguiu
um silncio longo e desconfortvel.
        -- Venha at aqui, Philemon -- Halt ordenou fi-
nalmente e, depois de recolocar a flecha na aljava, pendu-
rou o arco no ombro esquerdo.
        Esse gesto foi encorajador para o capito, embora
no tivesse dvida de que, se Halt quisesse, poderia apa-
nhar o arco e disparar vrias flechas antes que ele pudesse
piscar. Com cautela e com os nervos a flor da pele por
causa da expectativa, ele se aproximou do homem peque-
no.
        -- No pretendo ficar aqui mais que o necessrio
-- Halt disse quando o capito estava bem perto. -- Den-
tro de um ms, as passagens para Teutnia e a Escandin-
via estaro abertas, e meu companheiro e eu vamos seguir
viagem.
        Ele parou e Philemon franziu a testa, tentando
compreender o que estava ouvindo.
        -- O senhor quer que ns vamos com vocs? --
ele perguntou finalmente. -- O senhor deseja nossa com-
panhia?
        -- No tenho desejo de ver nenhum de vocs outra
vez -- ele disse simplesmente. -- No quero nada deste
castelo, nada de seus habitantes. Vou levar o cavalo de
batalha de Deparnieux porque tenho esse direito tomo
vitorioso neste combate. Quanto ao resto, voc pode ficar
com tudo: o castelo, os mveis, o dinheiro, a comida, as
terras. Se puder esconder isso dos seus amigos,  tudo seu.
        Philemon olhou para ele sem acreditar no que ou-
via. Aquela era uma sorte imensa! O estranho estava indo
embora e entregando o castelo e tudo o mais para ele, um
simples capito da guarda. Ele assobiou baixinho para si
mesmo. Ele iria substituir Deparnieux como controlador
da regio. Ele seria um proprietrio, dono de um castelo,
com soldados e criados para atend-lo!
       -- Duas coisas -- Halt interrompeu seus pensa-
mentos. -- Voc vai soltar as pessoas das gaiolas imedia-
tamente. Quanto aos outros criados e escravos do castelo,
vou dar permisso para ficarem ou partirem. No vou o-
brigar ningum a ficar com voc, de jeito nenhum.
       A expresso sombria do capito se intensificou di-
ante dessa declarao. Ele abriu a boca para protestar, mas
hesitou ao perceber o olhar de Halt. Era um olhar frio,
determinado e totalmente sem compaixo.
       -- Com voc ou seu sucessor -- ele corrigiu. -- A
escolha  sua. Critique minha deciso e vou apresentar
essa opo a quem quer que substituir voc depois que eu
o matar.
       E, ao ouvir essas palavras, Philemon percebeu que
Hall no iria hesitar em cumprir a ameaa. Ele ou o jovem
e musculoso espadachim montado no cavalo de batalha
no teriam dificuldade em acabar com ele.
       O soldado analisou as alternativas: joias, ouro, um
castelo bem abastecido, um grupo de homens armados
que iriam segui-lo porque teria os recursos para pag-los e
uma possvel falta de empregados.
       Ou a morte, aqui e agora.
       -- Eu aceito -- ele declarou.
       Afinal de contas, Philemon pensou que a maioria
dos criados e escravos no tinha para onde ir. As chances
de que quase todos preferissem ficar no Chteau Mont-
sombre eram boas, caso confiassem que as coisas no po-
deriam realmente ficar piores do que eram e que talvez
pudessem at ser um pouco melhores.
      -- Pensei mesmo que iria -- Halt retrucou devagar.
Evanlyn    estava se concentrando muito. Aponta de sua
lngua se espichava entre os dentes e ela franzia um pouco
a testa quando comeou a cortar o pedao de couro macio
na forma correta.
        Ela no podia cometer erros. Tinha encontrado o
pedao de couro no estbulo e havia apenas o suficiente
para o propsito que tinha em mente. Ele era macio, fle-
xvel e fino. Havia outros objetos entre os arreios, mas
eles estavam secos e duros. Aquele era o pedao de que
precisava.
        Evanlyn estava fazendo um estilingue.
        Ela finalmente tinha desistido de tentar a aprender
a manejar o arco. Quando finalmente conseguisse atingir
alguma coisa, ela e Will j estariam mortos de fome h
muito tempo. Ser criada como princesa tinha grandes des-
vantagens. Ela sabia fazer trabalhos de costura e bordado
delicados, apreciar um bom vinho e ser anfitri de um jan-
tar para 12 nobres e suas esposas. Ela sabia organizar o
trabalho dos empregados e ficar sentada, por horas, de
costas eretas e aparentemente atenta durante as cerimnias
oficiais mais aborrecidas.
        Todas habilidades valiosas no lugar certo, mas ne-
nhuma delas era muito til na atual situao. Ela desejou
ter passado algumas horas aprendendo os rudimentos do
manejo do equipamento dos arqueiros. Ela admitiu abor-
recida que o arco estava alm de sua capacidade.
        Mas um estilingue! Aquela era uma questo diferen-
te. Quando criana, ela e dois primos tinham feito estilin-
gues e passeavam pelos bosques fora do Castelo Araluen
atirando pedras em alvos aleatrios.
        Ela tambm se lembrava de que tinha boa pontaria.
        No seu dcimo aniversrio, para seu grande desa-
pontamento, o pai tinha decidido que era tempo de a filha
parar de ser um moleque e comear a aprender a se com-
portar como uma dama. Os passeios e os tiros de estilin-
gue pararam. Os bordados e o treinamento como anfitri
comearam.
        Ainda assim, pensou que, com um pouco de prti-
ca, provavelmente se lembraria de algumas tcnicas que
lhe serviriam naquele momento.
        Evanlyn sorriu um pouco, lembrando daqueles dias
privilegiados no Castelo Araluen. Eles estavam a sculos
de distncia de tudo aquilo. Ela pensou com ironia que
atualmente tinha aprendido novas habilidades. Ela conse-
guia arrastar um pnei na neve que chegava aos quadris,
dormir no cho duro, tomar muito menos banhos do que
uma sociedade educada iria achar adequado e, com alguma
sorte, at matar, limpar e cozinhar a prpria comida.
       Isso,  claro, se conseguisse montar o bendito esti-
lingue. Ela moldou o pedao de couro macio em volta de
uma grande pedra redonda, embrulhando a pedra nele e
puxando o couro macio de forma a criar uma bolsa. Ela
repetiu o procedimento vrias vezes, forando o couro a
tomar a forma da pedra. Suas mos estavam comeando a
doer com o esforo e ela pareceu se lembrar de que,
quando criana, os criados tinham feito essa parte para ela.
       -- No sou muito til, sou? -- perguntou para si
mesma.
       Na verdade, ela estava subestimando as habilidades
que possua. Suas reservas de coragem, determinao e
lealdade eram enormes, assim como sua criatividade.
       Ao contrrio de algum criado naquelas condies,
ela nem sempre encontrava a melhor forma de resolver
seus problemas. Mas, de alguma forma, encontrava uma
sada. Ela nunca desistia. E eram essa firmeza de propsi-
tos e capacidade de adaptao que fariam dela uma grande
governante, caso algum dia voltasse a Araluen.
       Ela ouviu um barulho atrs de si e se virou. Seu co-
rao ficou apertado no peito quando viu Will parado ao
seu lado. O olhar dele estava vazio, a expresso perdida.
Por um terrvel momento, pensou que ele estava querendo
outra dose de erva e sentiu uma forte onda de medo. Fazia
duas semanas que tinha usado a droga pela ltima vez e
quando lhe tinha dado aquela poro, a bolsa ficara prati-
camente vazia. Ela no tinha ideia do que iria acontecer na
prxima vez que a necessidade surgisse.
       Assim, misturado com uma esperana desesperada
e crescente de que talvez ele estivesse curado do vcio,
Evanlyn vivia o tempo todo com o constante medo de
que ele fosse pedir mais. Desde o dia em que ele tinha de-
samarrado o arco, ela tinha procurado outros sinais de
conscincia ou memria nele. Mas tinha sido em vo.
       Will apontou para a jarra de gua no banco e ela
suspirou aliviada. Evanlyn lhe serviu uma caneca de gua e
ele se afastou, arrastando os ps, com a mente ainda presa
naquele lugar longnquo que apenas os viciados conhe-
cem. Ele no estava curado, mas o momento que ela te-
mia tinha sido adiado um pouco mais.
       As lgrimas fizeram os olhos de Evanlyn se turva-
rem. Ela as secou e voltou ao trabalho. Um pouco antes,
ela tinha cortado duas liras compridas da mochila e as
prendeu em cada um dos lados da bolsa. Ela colocou a
pedra na bolsa e balanou o estilingue. Fazia muito tempo,
mas a sensao era vagamente familiar. O peso da pedra
era confortvel e ela se aninhava com segurana na bolsa.
Ela olhou para Will. Ele estava de olhos fechados enco-
lhido contra a parede da cabana, perdido para o mundo.
Podia ficar assim durante horas.
       -- No faz sentido perder mais tempo -- ela disse
a si mesma. -- Vou caar, Will. Vou demorar um pouco
-- ela avisou o companheiro.
       Evanlyn reuniu um suprimento de pedras e saiu.
Suas tentativas anteriores com o arco lhe ensinaram que
os animais selvagens locais, agora que a cabana estava ha-
bitada, costumavam ficar bem afastados. Ela pensou que
eram experincias desagradveis do passado, e que certa-
mente nada tinham a ver com suas tentativas de caa.
       Enquanto andava, aproveitou a oportunidade para
treinar sua tcnica e colocou uma pedia no estilingue, pu-
xando-o para trs at ouvir um zunido, e ento o soltou
para atingir uma das rvores prximas.
       Primeiro, os resultados no foram nada encorajado-
res. A velocidade era boa, mas a pontaria estava pssima.
Mas, porque continuou a praticar, a velha habilidade co-
meou a voltar. As pedras que atirava bateram nos alvos
vrias vezes.
       Ela teve resultados ainda melhores quando carre-
gou duas pedras no estilingue, dobrando suas chances de
acerto. Por fim, sentindo que estava preparada, continuou
a andar na direo da clareira perto do riacho, onde tinha
visto coelhos se alimentando e tomando sol nas rochas
aquecidas.
       Evanlyn estava com sorte. Um grande coelho de
olhos fechados estava sentado nas rochas, agitando as ore-
lhas e o focinho enquanto se esquentava deitado no calor
da pedra aquecida pelo sol.
       Ela sentiu um arrepio de satisfao ao carregar duas
das pedras maiores no estilingue e comeou a ajeit-lo a-
cima da cabea. O som surdo e sussurrante aumentou 
medida que as pedras ganharam velocidade e o coelho
abriu os olhos ao ouvi-lo. Mas ele no percebeu nenhum
perigo e permaneceu onde estava. Evanlyn viu os olhos
dele se abrirem e resistiu  tentao de atirar no mesmo
instante. Ela deixou o estilingue girar mais duas ou trs
vezes e ento soltou a ponta, acompanhando o movimen-
to com o brao, direto para o alvo.
       Talvez tenha sido sorte de iniciante, mas as duas
pedras atingiram o coelho com toda a fora. A maior delas
quebrou a pata traseira e, quando ele tentou escapar, man-
cou desajeitadamente na neve. Evanlyn, impelida pela for-
a da vitria, atravessou a clareira, agarrou o animal que
lutava pela vida e torceu o pescoo dele para acabar com o
sofrimento.
       A carne fresca seria um complemento bem-vindo 
sua pobre dieta. Entusiasmada pelo sucesso, decidiu que
poderia tentar outro local de caa e verificar se a sorte iria
continuar. Dois coelhos certamente seriam melhores do
que um.
       Ela se moveu com cuidado e a neve macia debaixo
de seus ps a ajudou a avanar sem ser ouvida.  medida
que se aproximava da outra clareira, comeou a andar com
mais cuidado, pisando com ateno e garantindo que, de-
pois de empurrar trs galhos para passar, eles voltassem 
posio inicial sem barulho.
        quase certo que seu cuidado exagerado salvou
sua vida.
        Ela estava para sair das rvores quando o sexto sen-
tido a fez hesitar. Alguma coisa estava errada. Ela tinha
ouvido ou sentido algo que estava fora do lugar ali. Recu-
ou, ficou nas sombras atrs das rvores i esperou para ver
se conseguia identificar a causa de sua inquietao. I ento
ouviu o barulho de novo e desta vez o reconheceu. Era a
batida macia dos cascos de um cavalo na neve espessa que
ainda cobria o cho.
        Com a boca seca e o corao acelerando de repen-
te, Evanlyn ficou paralisada. Ela se lembrou das instrues
de Will em Skorghijl.
        Ela ainda estava escondida de todos e de tudo na
clareira. Os pinheiros cresciam juntos uns dos outros e o
sol do meio-dia jogava sombras escuras entre as rvores.
Os cabelos de sua nuca ficaram arrepiados enquanto ela
ficou ali parada, imvel. Seus olhos dispararam de um lado
para outro, esforando-se para ver entre as manchas alter-
nadas de neve brilhante iluminada pelo sol e as sombras
profundas. Em seguida, ouviu o leve resfolegar de um ca-
valo e soube que no tinha se enganado. Do outro lado da
clareira, uma nuvem de vapor estava suspensa no ar e, en-
quanto a observava, viu o cavalo e o cavaleiro surgirem
das sombras escuras.
        Durante um breve momento, sentiu uma onda de
alegria ao pensar que se tratava de Puxo, o cavalo de ar-
queiro de Will. Pequeno, robusto e com pelo desgrenha-
do, era pouco maior que um pnei. Quando o viu, quase
deu um passo  frente para a luz do sol, mas ento, no
momento exato, parou ao ver o cavaleiro.
        Ele usava peles de animal, um chapu tambm de
pele achatado e um arco pequeno no ombro. Ela viu o
rosto com bastante clareza: pele morena e maltratada pelo
frio e maxilares altos e salientes que faziam os olhos acima
deles parecerem um pouco mais que frestas. Ele era pe-
queno e atarracado como o cavalo, e algo nele transmitia
uma sensao de perigo. Ele virou a cabea e olhou para
as rvores  direita e Evanlyn aproveitou a oportunidade
para recuar ainda mais no esconderijo oferecido pela flo-
resta. Satisfeito por no haver ningum observando, o ca-
valeiro fez o cavalo dar alguns passos para o centro da
clareira.
        Ele parou ali e seus olhos pareceram atravessar as
sombras at onde estava a garota: escondida atrs do tron-
co spero de um enorme pinheiro. Durante alguns segun-
dos assustadores, ela pensou que tinha sido vista. Mas en-
to o cavaleiro tocou o flanco do cavalo com o calcanhar
de uma das botas enfeitadas com pele de animal e saiu
trotando rapidamente da clareira para dentro do bosque.
Ele desapareceu num instante, o nico sinal de sua pre-
sena eram as nuvens de vapor que pendiam no ar conge-
lante deixadas pela respirao quente do animal.
        Durante vrios minutos, Evanlyn ficou encolhida
de encontro ao pinheiro, temendo que o cavaleiro voltasse
de repente. Ento, muito tempo depois que o rudo surdo
provocado pelos cascos do cavalo na neve tinha desapare-
cido, ela se virou e correu de volta para a cabana.
       Will tinha dormido.
       Ele despertou devagar, a conscincia tomando con-
ta dele aos poucos enquanto percebia que estava sentado
no cho duro de madeira. Ele abriu os olhos e franziu a
testa diante do ambiente desconhecido. Ele estava numa
pequena cabana em que a luz brilhante do sol do Final de
inverno passava por uma janela sem vidros e formava um
quadriltero alongado no cho, mais largo na base do que
no topo.
       Atordoado, ainda meio adormecido, ele se levan-
tou, sentindo que por algum motivo tinha dormido senta-
do no cho e recostado numa das paredes. Ele se pergun-
tou por que teria escolhido esse lugar, quando podia ver
que a cabana tinha uma cama rstica e duas cadeiras. Ao
se levantar lentamente, alguma coisa caiu com rudo de
seu colo para o cho. Ele olhou para baixo e viu um pe-
queno arco de caa. Curioso, ele o apanhou e examinou.
Era uma arma pouco potente no recurvada e com os
braos compridos e pesados de um arco longo, til para
caar animais pequenos e coisas semelhantes. Ele se per-
guntou onde estaria o arco dele. Ele no se recordava de
ser dono daquele brinquedo.
       Ento ele se lembrou. O arco no estava mais com
ele, pois tinha sido tomado pelos escandinavos na ponte.
E,  medida que a memria voltava, outras imagens apare-
ciam: a fuga pelos pntanos e brejos quando prisioneiro
dos escandinavos; a viagem pelo mar de Stormwhite no
navio de Erak; o porto em Skorghijl, onde tinham se pro-
tegido da pior tempestade da estao, e a viagem para Hal-
lasholm.
       E ento... ento, nada.
       Ele puxou pela memria, tentando se lembrar de
alguma coisa que tinha acontecido depois de terem chega-
do  capital escandinava. Mas no havia nada ali. Nada
alm de uma parede vazia que desafiava todos os seus es-
foros para penetr-la.
       De repente, foi tomado pelo medo. Evanlyn! O que
tinha acontecido tom ela? Ele lembrou, como que em
meio a um nevoeiro, que havia um grande perigo envol-
vendo a amiga. Sua identidade nunca deveria ser revelada
aos captores. Eles tinham realmente chegado a Halla-
sholm? Se tivessem chegado, Will tinha certeza de que se
lembraria. Mas onde estava a garota loira de olhos verdes
que tinha passado a significar tanto para ele? Ser que ele a
tinha trado por descuido? Teria ela sido morta pelos es-
candinavos?
       Um vallasvow! Agora ele lembrava. Ragnak, ober-
jarl dos escandinavos, tinha jurado vingana a todos os
membros da famlia real de Araluen. E Evanlyn era, na
verdade, Cassandra, princesa do reino. Numa agonia de
incerteza e perda de memria, Will bateu com os punhos
na testa, tentando lembrar, tentando se tranquilizar e se
convencer de que Evanlyn no tinha sofrido por causa de
alguma falha dele.
       E ento, no momento em que pensava nela, a porta
da cabana se abriu nas dobradias de couro e ela estava l,
emoldurada pela luz forte do sol que se refletia da neve,
incrivelmente linda como sempre lembraria que ela era,
no importava quanto tempo vivesse ou com que idade
estivesse.
       Will andou na direo dela com um sorriso de
completo alvio iluminando seu rosto, estendeu as mos
para ela, que ficou parada, sem palavras, olhando para ele
como se fosse um fantasma.
       -- Evanlyn! -- ele disse. -- Graas a Deus voc
est bem!
       E, ao dizer isso, ele se perguntou por que os olhos
dela tinham ficado midos e por que seus ombros se sa-
cudiam enquanto as lgrimas escorriam incontrolveis pe-
lo seu rosto.
       Afinal, para ele no havia motivo para chorar.
Halt e Horace desceram com cuidado o caminho sinuoso
que saa do Chteau Montsombre. Nenhum dos dois fala-
va, mas ambos sentiam a mesma e intensa satisfao. Es-
tavam na estrada novamente. O pior do inverno j tinha
passado e, quando chegassem  fronteira, as passagens
para a Escandinvia estariam abertas.
       Horace olhou para trs uma vez para ver o prdio
sombrio onde ficaram presos por tantas semanas e prote-
geu os olhos com a mo para enxergar melhor.
       -- Halt -- ele chamou -- olhe aquilo.
       Halt fez Abelard parar e se virou. Havia uma fina
coluna de fumaa cinzenta se levantando da fortaleza do
castelo e, enquanto observavam, ela ficou mais espessa e
negra. Vagamente, ouviram os gritos dos homens de Phi-
lemon enquanto corriam para combater o fogo.
       -- Parece que alguma pessoa descuidada deixou
uma tocha ardendo numa pilha de trapos embebidos em
leo na despensa do poro -- Halt murmurou com cui-
dado.
       -- Voc sabe disso s de olhar, no  mesmo? --
Horace retrucou sorrindo.
         Halt concordou, mantendo uma expresso indife-
rente.
        -- Ns, arqueiros, somos dotados de poderes de
percepo misteriosos -- ele explicou. -- E acho que G-
lica vai ficar bem melhor sem esse castelo, no concorda?
        Apenas o comandante tinha realmente morado na
fortaleza. Os soldados e os empregados viviam em outras
partes do edifcio e teriam tempo suficiente para impedir
que o logo se espalhasse at l. Mas a fortaleza e a torre
central onde estavam os aposentos de Deparnieux esta-
vam destrudas. E era assim que deveria ser. Montsombre
tinha sido palco de muita crueldade e horror durante mui-
tos anos, e Halt no tinha inteno de deix-lo intacto pa-
ra que Philemon continuasse a agir como o antigo mestre.
        --  claro que as paredes de pedra no vo quei-
mar -- Horace ajuntou com uma ponta de desaponta-
mento.
        -- No -- Halt concordou. -- Mas os pisos de
madeira e as vigas de sustentao vo. E todos os tetos e
escadas vo queimar e cair. E o calor tambm vai danificar
as paredes. No ficaria surpreso se algumas delas sim-
plesmente cedessem.
        -- timo -- Horace afirmou, e havia um mundo
de satisfao naquela nica palavra.
        Juntos, eles viraram as costas  lembrana de De-
parnieux e fizeram os cavalos continuarem a andar. O pe-
queno grupo se afastou seguido de perto por Puxo.
         -- Vamos embora, vamos encontrar Will -- Halt
disse.




                 Digitalizao: villie
                    Reviso: Yuna
